Teve a vez em que a garota salvou a minha vida.
Hospitais são pavorosos. Geralmente, as pessoas pensam isso a respeito dos cemitérios, sem se dar conta do quanto, na verdade, eles são reconfortantes -- nós atravessamos seus portões cheios de luto e pesar, e, quando os cruzamos de volta, estamos um pouco mais preparados para aceitar. Já os hospitais são traiçoeiros -- eles nos seduzem com suas promessas de adiamento do fim e, no entanto, muitas vezes o que encontramos por lá é só angústia e desengano. É dos hospitais que geralmente partem as notícias ruins.
Pensava nisso enquanto caminhava, tarde da noite, pelo estacionamento quase vazio. Dei uma olhada para trás e, embora dali fosse possível ver as luzes fluorescentes do saguão, senti a atmosfera pesada, como se uma nuvem ainda mais escura que o céu pairasse sobre o prédio branco. Enfiei a mão num dos bolsos. Dificilmente encontraria ocasião mais apropriada para fumar o primeiro cigarro após dois anos de abstinência. Abri o maço como se nunca tivesse abandonado o hábito, acendi um e traguei demoradamente.
Sentia-me esgotado por causa dos últimos dias: as longas horas sentado no corredor, os boletins médicos sem qualquer alteração no quadro e os olhares de reprovação quando sugeri que talvez fosse melhor desligar os aparelhos. Por que um gesto tão simples quanto puxar um plugue da tomada causava tanta comoção? Espiei furtivamente para os lados para me certificar de que ninguém se aproximava e subi na mureta. O estacionamento tinha mais dois pisos subterrâneos, o que significava que a altura dali até o asfalto lá embaixo devia ser de uns oito metros. Talvez fosse suficiente apenas para machucar um bocado. Fechei os olhos, imaginando quantos segundos seriam necessários para tirar a prova.
— Bi-bi.
Com o susto, larguei o cigarro. Abri os olhos a tempo de ver a brasa vermelha bruxuelante caindo. Voltei-me para o lado e ela estava ali, sobre a mureta. Aparentava ter não mais do que dez anos. Não era bonita -- pelo contrário, era um tanto esquisita. Mas tinha algo de estranhamente cativante e familiar -- parecia, talvez, com a menininha daquele filme sueco. Fez um gesto com as duas mãos, tocando uma buzina imaginária, e disse "bi-bi" novamente, sem graça, feito uma criança que se acha crescida demais para certas brincadeiras. Eu sorri.
— É proibido buzinar perto de hospitais. Além disso, você pode cair.
Ela deu de ombros.
— Cadê seus pais? Será que eles não tão te procurando?
Revirou os olhos, entediada, como se escutasse aquelas perguntas o tempo todo.
— Tudo bem. Se quiser mesmo passar, tem que resolver o enigma.
Continuou séria, mas agora com um brilho fugidio de interesse nos olhos. Caprichei no tom solene.
— É seu, mas todo mundo usa mais do que você. O que é?
Ela ficou olhando para o nada, com ar pensativo, enquanto eu acendia outro cigarro e dava algumas tragadas. Suspirei com melancolia ao lembrar de quem tinha me ensinado aquela charada.
— Quem?
Olhei-a surpreso, imaginando se tinha lido meus pensamentos. Mas ela fez um gesto com a cabeça, indicando o prédio.
— Ah! É o meu velho que tá lá. Ele... Não sei se... Disseram que as chances são mínimas.
Ao contrário do que eu esperava, ela não me disse nenhuma palavra de consolo. Ficamos calados, eu pensando que a única coisa que me assustava de fato na morte era aquela história de que a sua vida toda passa diante dos seus olhos. Odiaria ser lembrado do meu fracasso até nos momentos finais. Ela quebrou o silêncio.
— Meu nome.
Parecia satisfeita por ter solucionado o enigma. Fiz uma mesura, desci, virei-lhe as costas e me apoiei na mureta. Apesar de agora poder passar, ela continuou ali parada. Traguei. Era minha vez de ficar pensativo.
— Se ninguém diz o seu nome, talvez você não exista, certo?
Podia sentir os olhos dela fixos em mim.
— Não importa, no fim das contas tudo é em vão mesmo. A vida é... insípida. Nós somos insípidos, nosso corpo é quase todo feito de um líquido insípido. Que se dane tudo.
Voltei-me para trás e vi sua expressão interrogativa. Esclareci.
— Água. Nosso corpo é quase todo feito de água.
Pela primeira vez, ela abriu um sorriso e disse uma frase inteira.
— Ah, bom, eu já ia te corrigir.
Sorri de volta. Dei outra tragada e fiquei observando a fumaça. De repente, pensei: o que, exatamente, ela ia corrigir?
— Te procurei por toda parte. Já tava ficando preocupada.
Dessa vez, não tive tempo de jogar fora o cigarro. A garota estava ali, com a expressão severa, batendo o pé, um dos braços pousados à frente da cintura, a outra mão brincando com o pingente que pendia da correntinha em volta do pescoço.
— Fumando? E falando sozinho...
Não precisei me virar para trás para constatar que não havia ninguém sobre a mureta. Ri nervosamente e disse que era melhor voltarmos logo para o saguão, meus olhos fixos no crucifixo com o qual ela continuava brincando.
Hospitais são pavorosos. Geralmente, as pessoas pensam isso a respeito dos cemitérios, sem se dar conta do quanto, na verdade, eles são reconfortantes -- nós atravessamos seus portões cheios de luto e pesar, e, quando os cruzamos de volta, estamos um pouco mais preparados para aceitar. Já os hospitais são traiçoeiros -- eles nos seduzem com suas promessas de adiamento do fim e, no entanto, muitas vezes o que encontramos por lá é só angústia e desengano. É dos hospitais que geralmente partem as notícias ruins.
Pensava nisso enquanto caminhava, tarde da noite, pelo estacionamento quase vazio. Dei uma olhada para trás e, embora dali fosse possível ver as luzes fluorescentes do saguão, senti a atmosfera pesada, como se uma nuvem ainda mais escura que o céu pairasse sobre o prédio branco. Enfiei a mão num dos bolsos. Dificilmente encontraria ocasião mais apropriada para fumar o primeiro cigarro após dois anos de abstinência. Abri o maço como se nunca tivesse abandonado o hábito, acendi um e traguei demoradamente.
Sentia-me esgotado por causa dos últimos dias: as longas horas sentado no corredor, os boletins médicos sem qualquer alteração no quadro e os olhares de reprovação quando sugeri que talvez fosse melhor desligar os aparelhos. Por que um gesto tão simples quanto puxar um plugue da tomada causava tanta comoção? Espiei furtivamente para os lados para me certificar de que ninguém se aproximava e subi na mureta. O estacionamento tinha mais dois pisos subterrâneos, o que significava que a altura dali até o asfalto lá embaixo devia ser de uns oito metros. Talvez fosse suficiente apenas para machucar um bocado. Fechei os olhos, imaginando quantos segundos seriam necessários para tirar a prova.
— Bi-bi.
Com o susto, larguei o cigarro. Abri os olhos a tempo de ver a brasa vermelha bruxuelante caindo. Voltei-me para o lado e ela estava ali, sobre a mureta. Aparentava ter não mais do que dez anos. Não era bonita -- pelo contrário, era um tanto esquisita. Mas tinha algo de estranhamente cativante e familiar -- parecia, talvez, com a menininha daquele filme sueco. Fez um gesto com as duas mãos, tocando uma buzina imaginária, e disse "bi-bi" novamente, sem graça, feito uma criança que se acha crescida demais para certas brincadeiras. Eu sorri.
— É proibido buzinar perto de hospitais. Além disso, você pode cair.
Ela deu de ombros.
— Cadê seus pais? Será que eles não tão te procurando?
Revirou os olhos, entediada, como se escutasse aquelas perguntas o tempo todo.
— Tudo bem. Se quiser mesmo passar, tem que resolver o enigma.
Continuou séria, mas agora com um brilho fugidio de interesse nos olhos. Caprichei no tom solene.
— É seu, mas todo mundo usa mais do que você. O que é?
Ela ficou olhando para o nada, com ar pensativo, enquanto eu acendia outro cigarro e dava algumas tragadas. Suspirei com melancolia ao lembrar de quem tinha me ensinado aquela charada.
— Quem?
Olhei-a surpreso, imaginando se tinha lido meus pensamentos. Mas ela fez um gesto com a cabeça, indicando o prédio.
— Ah! É o meu velho que tá lá. Ele... Não sei se... Disseram que as chances são mínimas.
Ao contrário do que eu esperava, ela não me disse nenhuma palavra de consolo. Ficamos calados, eu pensando que a única coisa que me assustava de fato na morte era aquela história de que a sua vida toda passa diante dos seus olhos. Odiaria ser lembrado do meu fracasso até nos momentos finais. Ela quebrou o silêncio.
— Meu nome.
Parecia satisfeita por ter solucionado o enigma. Fiz uma mesura, desci, virei-lhe as costas e me apoiei na mureta. Apesar de agora poder passar, ela continuou ali parada. Traguei. Era minha vez de ficar pensativo.
— Se ninguém diz o seu nome, talvez você não exista, certo?
Podia sentir os olhos dela fixos em mim.
— Não importa, no fim das contas tudo é em vão mesmo. A vida é... insípida. Nós somos insípidos, nosso corpo é quase todo feito de um líquido insípido. Que se dane tudo.
Voltei-me para trás e vi sua expressão interrogativa. Esclareci.
— Água. Nosso corpo é quase todo feito de água.
Pela primeira vez, ela abriu um sorriso e disse uma frase inteira.
— Ah, bom, eu já ia te corrigir.
Sorri de volta. Dei outra tragada e fiquei observando a fumaça. De repente, pensei: o que, exatamente, ela ia corrigir?
— Te procurei por toda parte. Já tava ficando preocupada.
Dessa vez, não tive tempo de jogar fora o cigarro. A garota estava ali, com a expressão severa, batendo o pé, um dos braços pousados à frente da cintura, a outra mão brincando com o pingente que pendia da correntinha em volta do pescoço.
— Fumando? E falando sozinho...
Não precisei me virar para trás para constatar que não havia ninguém sobre a mureta. Ri nervosamente e disse que era melhor voltarmos logo para o saguão, meus olhos fixos no crucifixo com o qual ela continuava brincando.


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