Segunda-feira, Outubro 10, 2011

[The stillness still that doesn't end]

"Você nunca desenha o meu rosto", ela bufa e atira de volta a folha de papel, que dá uma pirueta no ar antes de pousar diante de mim, assim como sua frase. Aquele tom de voz -- o mesmo que ela usaria para dizer que eu sempre deixo cair molho de tomate na toalha branca ou que esqueço a janela aberta toda vez que saímos -- não basta para disfarçar a pontinha de mágoa, o orgulho ferido.
Sorrio, indulgente, e apanho o papel. Ela tem razão, mas não deixa de ser uma injustiça com a pequena obra. A prática me tornou especialista em retratá-la de costas: as linhas delgadas e elegantes do pescoço, a Kaffeklubben (apelido da pinta solitária na nuca), a penugem clara que sobra quando ela prende o cabelo em um coque. Saco o lápis 2B e começo a rabiscar novamente, mais fácil do que tentar explicar o que eu quero capturar: o ar que me falta durante o breve instante que ela demora para se virar quando digo seu nome. De frente, seu rosto seria perfeito, se não existisse mais nada no mundo. Mas a sensação de completude vem sempre acompanhada da tristeza de saber que aquele é o meu ápice. Depois daquilo, tudo será fracasso, mediocridade.
Estendo-lhe a folha. Ela a toma, empenhando-se em não parecer muito satisfeita, mas o sorriso mal-camuflado logo dá lugar ao cenho franzido. "Ei, eu pensei que você ia... O que é isso?", ela pergunta, olhando para o desenho do jardim da casa onde eu cresci.



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