Quinta-feira, Agosto 18, 2011

[I'm curious to know exactly how you are]

— Cê não acha que é meio cedo pra começar a beber?
— Cedo? Eu devia ter começado antes. O álcool teria me ajudado a enfrentar a pré-adolescência.
— Dã, pateta. Garçom, vê mais um copo, faz favor?
— Saúde.
— Saúde. Pô, não sei por que deixam a tevê ligada na Ana Maria Braga. O que é que eles pensam? Que vão atrair alguma dona de casa solitária pro boteco?
— Vai ver, eles acham que ela é uma coroa enxuta.
— Sei. Ana Maria Boga.
— Hahaha. Putz, sabe o que eu odeio? Esses comerciais em que as pessoas ficam andando e falando.
— Achei que você odiasse comercial de carro.
— Não tem nada a ver com ódio. Comerciais de carro são moralmente condenáveis, isso é fato. E não adianta me olhar com essa cara, foi você quem puxou o assunto.
— Ok, ok. O que é que tem de errado com os comerciais de andarilho?
— Esses de rádio, por exemplo. Eles colocam uma celebridade meio descolada andando numa paisagem erma e disparando um discurso do tipo “eu-faço-e-aconteço”, só pra tentar vender a ideia de que é um produto pra pessoas super dinâmicas que precisam ser encontradas imediatamente onde quer que elas estejam.
— E...?
— E daí que, na prática, quem acaba usando mesmo essa porra é um idiota qualquer que só quer combinar o programa do final de semana ou sacanear o amigo porque o time dele perdeu. É a mesma conversa fiada que ele teria num celular; a diferença é que, com o rádio, quem tá por perto também é obrigado a escutar as merdas que o idiota do outro lado da linha tem a dizer.
— Mais uma vez, por pouco o seu excesso de rabugice não estraga um argumento válido.
— Eu sei que você concorda, só não quer dar o braço a torcer.
— Um-hum. Outro dia eu vi uma andarilha num comercial de remédio pra gripe.
— Ah, eu já vi esse. Porra, quando eu tô gripado eu quero ficar na cama, não sair passeando por aí.
— Pois é. Deviam fazer um de laxante. Começa igual aos outros, com o sujeito andando e falando alguma coisa do tipo "eu não posso me dar ao luxo de viver à mercê do meu intestino" e blá blá blá. Daí, ele vai apertando o passo e ficando com a voz embargada. No final, ele já tá gemendo e trançando as pernas na porta de casa. Fecha com o slogan: "com Kaget, você caga e anda pra prisão de ventre".
— Hahaha, isso sim é um comercial que eu ia gostar de ver.
— Cê acha que eu podia ser publicitária?
— Hum, não. Cê provavelmente ia acabar passando fome. Mas podia ser roteirista de cinema e trabalhar com algum diretor surtado.
— Pô, sabe o que eu odeio? Figurinista de cinema.
— Sério? Mas qualquer um, até de filme bom?
— Especialmente de filme bom. Eles são meio que nem publicitário, eles criam na gente umas necessidades que a gente nem sabia que tinha. Tipo, desde que eu vi o Adventureland, eu passei a querer desperadamente uma camiseta do Hüsker Dü que nem a da Kristen Stewart. Não encontro em lugar nenhum. Podiam ter feito a mina usar uma camiseta de uma banda mais fácil de achar. Mas não... É frustrante.
— Mas acho que a ideia é essa, não?
— Vai ver que é.
— Além do mais, um filme é bom justamente por ser frustrante. Por mostrar coisas que a gente, teoricamente, podia ter, mas não consegue achar. Pessoas, situações... E, principalmente, diálogos.
— Cê não acha os nossos diálogos dignos de filme?
— Claro que eu acho. Mas o que falta na vida real é edição. Os nossos momentos brilhantes acabam se perdendo no meio da mediocridade do dia a dia.
— E como seria uma boa edição pra essa nossa conversa?
— Eu cortaria daqui direto pra sua casa, com a gente se pegando.
— Hum, a gente podia mesmo voltar pra casa...
— Garçom, a conta!
— Mas eu já te adianto que não vai rolar nada.
— Tudo bem, então a cena termina comigo pedindo a conta.
— Dã, pateta.



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