Era uma espécie de joguinho nosso, inspirado num quadro do Animal Planet: eu contava três histórias -- sobre mim, minha família, os amigos ou pessoas conhecidas -- e ela tinha de adivinhar qual era a única verdadeira. Algumas, ela refutava imediatamente, como a que explicava a origem da minha cicatriz no queixo. "Ah, tá bom! Então vou perguntar pra sua mãe", ameaçava, sem nunca cumprir. Quase sempre, ela ficava na dúvida e deixava para lançar o palpite final somente à noite, antes de dormir. "É a... de número... dois?".
Se as coisas andavam complicadas no trabalho, ela demorava para perceber quando eu começava a contar uma. "Ei, peraí! Volta, começa de novo". Se tinha terapia no dia, ela analisava as pausas, gestos, escolhas de palavras. "Hã, 'misantropo'? Ninguém fala isso no dia a dia. Cê tá inventando". Se íamos ao cinema, ela atentava para as tramas. "Hum, essa reviravolta no final, tão oportuna... Na vida real não acontece assim. Cê tá inventando".
Muitas vezes, ela ganhava. Quase sempre, eu deixava.
* * *
— Quem?
— Kristen Bell. A Veronica Mars.
— Putz, ela é meio vesguinha. Cê me achou estrábica?
— Não. Te achei linda. E pensei que queria ter uma namorada que nem você.
— Hahaha, tá bom! Cê tá querendo dizer que foi amor à primeira vista?
— Algo do tipo.
— Então foi tudo baseado na aparência? Porque, pelo que eu me lembro, a gente mal trocou meia dúzia de palavras naquele dia.
— Hum, cê sabe como eu sou quando acabo de conhecer uma pessoa.
— Sei sim, ostra. Então...
— Tá bom, a aparência contou bastante. Mas não foi só isso. O fato de você ser benquista por pessoas que são benquistas por mim pesou a favor. E também...
— Também o quê?
— É besteira.
— Ah, pode ir falando.
— A discussão sobre o Monty Python. Eu pensei: "Uau, e ela ainda sabe fazer todos os silly walks... É a mulher da minha vida".
— Hahaha, besta!
— Eu avisei.
— Aposto que daí o senhor já saiu inventando historinhas sobre a gente, não foi?
— Ué, e eu não vivo fazendo isso?
* * *
"Será que você não consegue simplesmente dizer uma coisa direto, sem ficar com essas... firulas?". A rispidez da interrupção me pega de surpresa. Pelo menos, é uma mudança em relação ao seu ar distante nas últimas semanas. Diante da minha estupefação, ela tenta amenizar o tom. "Tem horas em que eu preferia que você me contasse como foi o seu dia, por exemplo. Que nem os casais normais fazem, sabe? Tudo com você é tão... difícil. Parece que, pra saber qualquer coisinha a seu respeito, eu preciso sempre passar por um teste, adivinhar uma mímica, sei lá".
O silêncio. "A minha vida tá tão complicada. Eu queria... Eu precisava que pelo menos isso... a gente... fosse mais... simples". O olhar fugindo pela janela. "E, pelo jeito, não tá funcionando direito. Olha só, eu consegui deixar você sem palavras. Justo você". Penso no dia da epifania -- a mancha anelar deixada por uma xícara de café na última página do livro comprado no sebo sugeria, quem sabe, um momento de descuido de alguém ao telefone, às pressas, momentos antes de sair de casa. E revelava que, às vezes, as linhas já escritas não dão conta de tudo; há sempre outra história escondida por aí. "Acho que o que eu tô querendo dizer é que.. talvez... seja melhor a gente... dar um tempo". O abraço desajeitado. A porta.
Lá fora, o sol se põe e a temperatura cai. Aperto o cachecol e coloco os fones de ouvido só por força do hábito -- eles permanecem mudos. Espero o semáforo fechar e atravesso a rua. Quase me sinto grato a ela. Eu sou péssimo em finais.
Se as coisas andavam complicadas no trabalho, ela demorava para perceber quando eu começava a contar uma. "Ei, peraí! Volta, começa de novo". Se tinha terapia no dia, ela analisava as pausas, gestos, escolhas de palavras. "Hã, 'misantropo'? Ninguém fala isso no dia a dia. Cê tá inventando". Se íamos ao cinema, ela atentava para as tramas. "Hum, essa reviravolta no final, tão oportuna... Na vida real não acontece assim. Cê tá inventando".
Muitas vezes, ela ganhava. Quase sempre, eu deixava.
* * *
— Quem?
— Kristen Bell. A Veronica Mars.
— Putz, ela é meio vesguinha. Cê me achou estrábica?
— Não. Te achei linda. E pensei que queria ter uma namorada que nem você.
— Hahaha, tá bom! Cê tá querendo dizer que foi amor à primeira vista?
— Algo do tipo.
— Então foi tudo baseado na aparência? Porque, pelo que eu me lembro, a gente mal trocou meia dúzia de palavras naquele dia.
— Hum, cê sabe como eu sou quando acabo de conhecer uma pessoa.
— Sei sim, ostra. Então...
— Tá bom, a aparência contou bastante. Mas não foi só isso. O fato de você ser benquista por pessoas que são benquistas por mim pesou a favor. E também...
— Também o quê?
— É besteira.
— Ah, pode ir falando.
— A discussão sobre o Monty Python. Eu pensei: "Uau, e ela ainda sabe fazer todos os silly walks... É a mulher da minha vida".
— Hahaha, besta!
— Eu avisei.
— Aposto que daí o senhor já saiu inventando historinhas sobre a gente, não foi?
— Ué, e eu não vivo fazendo isso?
* * *
"Será que você não consegue simplesmente dizer uma coisa direto, sem ficar com essas... firulas?". A rispidez da interrupção me pega de surpresa. Pelo menos, é uma mudança em relação ao seu ar distante nas últimas semanas. Diante da minha estupefação, ela tenta amenizar o tom. "Tem horas em que eu preferia que você me contasse como foi o seu dia, por exemplo. Que nem os casais normais fazem, sabe? Tudo com você é tão... difícil. Parece que, pra saber qualquer coisinha a seu respeito, eu preciso sempre passar por um teste, adivinhar uma mímica, sei lá".
O silêncio. "A minha vida tá tão complicada. Eu queria... Eu precisava que pelo menos isso... a gente... fosse mais... simples". O olhar fugindo pela janela. "E, pelo jeito, não tá funcionando direito. Olha só, eu consegui deixar você sem palavras. Justo você". Penso no dia da epifania -- a mancha anelar deixada por uma xícara de café na última página do livro comprado no sebo sugeria, quem sabe, um momento de descuido de alguém ao telefone, às pressas, momentos antes de sair de casa. E revelava que, às vezes, as linhas já escritas não dão conta de tudo; há sempre outra história escondida por aí. "Acho que o que eu tô querendo dizer é que.. talvez... seja melhor a gente... dar um tempo". O abraço desajeitado. A porta.
Lá fora, o sol se põe e a temperatura cai. Aperto o cachecol e coloco os fones de ouvido só por força do hábito -- eles permanecem mudos. Espero o semáforo fechar e atravesso a rua. Quase me sinto grato a ela. Eu sou péssimo em finais.


0 Como estou dirigindo?:
Postar um comentário