Quando estiver em Puerto Rico, não deixe de visitar o Pececillo de Plata [Calle Abadía, 69]. Escondido numa viela não muito distante do agito dos bares de San Juan Viejo, esse simpático misto de café e sebo é solenemente ignorado pelos turistas, o que o torna o lugar ideal para observar -- e interagir com -- os locales. Paredes azulejadas e toalhas xadrez sobre as mesinhas garantem o ar autenticamente retrô. Objetos de decoração funcionais, como mancebos e abajures, disputam espaço com as estantes apinhadas de livros, que podem ser folheados enquanto você esvazia seu copo. Aliás, fuja da cerveja nacional [Medalla, US$ 2], que segue o fraco padrão das pilsners norte-americanas, e aposte no mojito [US$ 3,50]. Na hora de fazer o pedido, puxe papo com a garçonete que, a exemplo de qualquer um de seus conterrâneos, defenderá a superioridade da versão porto-riquenha do drink sobre a cubana.
— A diferença está na qualidade do rum. Somos os maiores produtores do mundo, sabia?
Entre acenos e gracejos, a literatura também pode virar assunto num lugar como esse, obviamente. Procure se informar antes a respeito dos autores e vanguardas do país. E, quando for reabastecer sua bebida, pergunte a opinião dela.
— Nuyoricanos? Hum, não vejo graça. Aqui, dê uma olhada em algo bem melhor: Julia de Burgos. Uma das minhas preferidas.
Depois de três ou quatro mojitos, aproveite a dose extra de coragem -- e o sempre fraco movimento de clientes -- para convidá-la para um passeio pela cidade depois do expediente.
— Hã, sinto muito... Eu tenho que, hã... Atender as outras mesas. Com licença.
Não desanime logo no primeiro revés -- há muitas outras opções de lugares onde encontrar boa bebida e alguma companhia. No entanto, é sempre bom se prevenir para a hipótese de tudo dar errado. Para isso, vale a pena gastar mais [US$ 160 a diária] e se hospedar no Marriott [Avenida Ashford, 1309]. Além de toda a estrutura de um hotel de luxo, ele possui um deck com acesso direto à praia -- onde há um bar estrategicamente localizado. Caso a ideia de tomar um daqueles coquetéis enfeitados com um guarda-sol em miniatura enquanto sente a brisa fresca do mar não lhe pareça um alento no fim do dia, você pode perguntar por um barman chamado Ortiz e pedir um Sex on the Beach com açúcar. Não estranhe quando o sujeito aparecer com uma dose pura de vodka.
— Aqui está o Beach, cavalheiro. O restante será servido na sua suíte daqui a quarenta minutos.
Agradeça, pague pela vodka [US$ 12], acrescente uma generosa gorjeta [US$ 50], vire o copo numa golada e suba até o quarto. Tome uma ducha, mas fique de olho no relógio -- os préstimos de Ortiz costumam ser pontuais. Depois de quarenta minutos cravados, você ouvirá batidas na porta e, ao abri-la, dará de cara com uma morena de corpo curvilíneo e rosto de traços marcantes emolurando olhos verdes.
— Holla, me chamo Azúcar. Não vai me convidar para entrar?
Seja gentil, receba-a com um beijo no rosto, guarde a bolsa dela e ofereça algo para beber. Depois de estabelecidas as regras do jogo e o valor da aposta [US$ 300], divirta-se -- e lembre-se que a melhor parte de estar em outro lugar é a chance de ser outra pessoa. Ao fim da primeira rodada, estimulado pelo clima forçado de intimidade e pela perspectiva de nunca mais vê-la, talvez você se sinta tentado a se abrir com aquela completa estranha -- talvez revele suas angústias, verbalize certas mágoas pela primeira vez e conclua que, apesar de sempre tentar fazer o seu melhor, isso nunca parece ser o suficiente.
— Hum... No fundo a gente sempre sabe onde errou. O problema é não saber o que fez de diferente nas vezes em que tudo deu certo.
Será a coisa mais verdadeira que você terá ouvido nos últimos dias, dita por uma mulher que é paga para fazer e dizer apenas o que os homens esperam. Você sentirá uma repentina vontade de conhecê-la de verdade e começará perguntando se ela já passou por algo parecido. Mas momentos de sinceridade costumam ser passageiros.
— Ah, corazón. Eu sei muito bem o que faço. Pensei que tinha deixado isso claro. Mas venha cá que te mostro de novo...
Ela se jogará em cima de você -- e não encontrará resistência. Encerrada a partida, você se despedirá de Azúcar com um beijo bem mais caloroso do que o da chegada, e sem qualquer sinal de arrependimento. Mesmo assim, pela manhã, haverá algo mais vazio do que a sua cama. Ao olhar pela janela, você encontrará o mar do Caribe se misturando com o céu sem nuvens. E perceberá que neste lugar, nada foi feito para as pessoas sozinhas -- a não ser essas malditas micro-garrafas de uísque no frigobar.
— A diferença está na qualidade do rum. Somos os maiores produtores do mundo, sabia?
Entre acenos e gracejos, a literatura também pode virar assunto num lugar como esse, obviamente. Procure se informar antes a respeito dos autores e vanguardas do país. E, quando for reabastecer sua bebida, pergunte a opinião dela.
— Nuyoricanos? Hum, não vejo graça. Aqui, dê uma olhada em algo bem melhor: Julia de Burgos. Uma das minhas preferidas.
Depois de três ou quatro mojitos, aproveite a dose extra de coragem -- e o sempre fraco movimento de clientes -- para convidá-la para um passeio pela cidade depois do expediente.
— Hã, sinto muito... Eu tenho que, hã... Atender as outras mesas. Com licença.
Não desanime logo no primeiro revés -- há muitas outras opções de lugares onde encontrar boa bebida e alguma companhia. No entanto, é sempre bom se prevenir para a hipótese de tudo dar errado. Para isso, vale a pena gastar mais [US$ 160 a diária] e se hospedar no Marriott [Avenida Ashford, 1309]. Além de toda a estrutura de um hotel de luxo, ele possui um deck com acesso direto à praia -- onde há um bar estrategicamente localizado. Caso a ideia de tomar um daqueles coquetéis enfeitados com um guarda-sol em miniatura enquanto sente a brisa fresca do mar não lhe pareça um alento no fim do dia, você pode perguntar por um barman chamado Ortiz e pedir um Sex on the Beach com açúcar. Não estranhe quando o sujeito aparecer com uma dose pura de vodka.
— Aqui está o Beach, cavalheiro. O restante será servido na sua suíte daqui a quarenta minutos.
Agradeça, pague pela vodka [US$ 12], acrescente uma generosa gorjeta [US$ 50], vire o copo numa golada e suba até o quarto. Tome uma ducha, mas fique de olho no relógio -- os préstimos de Ortiz costumam ser pontuais. Depois de quarenta minutos cravados, você ouvirá batidas na porta e, ao abri-la, dará de cara com uma morena de corpo curvilíneo e rosto de traços marcantes emolurando olhos verdes.
— Holla, me chamo Azúcar. Não vai me convidar para entrar?
Seja gentil, receba-a com um beijo no rosto, guarde a bolsa dela e ofereça algo para beber. Depois de estabelecidas as regras do jogo e o valor da aposta [US$ 300], divirta-se -- e lembre-se que a melhor parte de estar em outro lugar é a chance de ser outra pessoa. Ao fim da primeira rodada, estimulado pelo clima forçado de intimidade e pela perspectiva de nunca mais vê-la, talvez você se sinta tentado a se abrir com aquela completa estranha -- talvez revele suas angústias, verbalize certas mágoas pela primeira vez e conclua que, apesar de sempre tentar fazer o seu melhor, isso nunca parece ser o suficiente.
— Hum... No fundo a gente sempre sabe onde errou. O problema é não saber o que fez de diferente nas vezes em que tudo deu certo.
Será a coisa mais verdadeira que você terá ouvido nos últimos dias, dita por uma mulher que é paga para fazer e dizer apenas o que os homens esperam. Você sentirá uma repentina vontade de conhecê-la de verdade e começará perguntando se ela já passou por algo parecido. Mas momentos de sinceridade costumam ser passageiros.
— Ah, corazón. Eu sei muito bem o que faço. Pensei que tinha deixado isso claro. Mas venha cá que te mostro de novo...
Ela se jogará em cima de você -- e não encontrará resistência. Encerrada a partida, você se despedirá de Azúcar com um beijo bem mais caloroso do que o da chegada, e sem qualquer sinal de arrependimento. Mesmo assim, pela manhã, haverá algo mais vazio do que a sua cama. Ao olhar pela janela, você encontrará o mar do Caribe se misturando com o céu sem nuvens. E perceberá que neste lugar, nada foi feito para as pessoas sozinhas -- a não ser essas malditas micro-garrafas de uísque no frigobar.


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