— Tem dinheiro?
— Tenho.
— Tem certeza que não quer que te busque?
— Tenho.
— E a gente tem o telefone da mãe do Ronaldo na agenda?
— Tem.
— Qualquer coisa, me liga, hein?
— Tchau, mãe.
— Tchau, filho! Boa festa!
— ...
Acenou uma despedida sem entusiasmo, enquanto o carro se afastava com duas buzinadas escandalosas. As mães definitivamente não sabem manter a discrição. E parecem se sentir pessoalmente ofendidas diante de um pedido para que parem um quarteirão antes do local de destino. Guardou os óculos no bolso do smoking e caprichou na expressão calma e despreocupada ao entrar no salão. Apertou os olhos numa tentativa de encontrar alguém conhecido. Dois vultos acenaram. Roni e o Chileno.
— Fala.
— Beleza.
— E aí?
— Buenas.
Ficaram os três em silêncio, observando as pessoas ao redor. Garotas. A maioria era apenas um ano e meio ou dois mais nova, mas eles se sentiam muito mais velhos e experientes. Pegaram copos de cerveja para ter o que fazer com as mãos e ensaiaram um ar blasé. A encenação foi interrompida por um anúncio.
— Até mais, suas bichas. Minha chica chegou.
O Chileno se afastou, gingando o corpo como se fosse o Snoop Dogg. Sua aparência só não era mais estranha que o seu senso de humor bizarro, que às vezes nem eles entendiam. Riram e balançaram a cabeça.
— Sinto pena do par desse moleque.
— Pode crer.
Pegaram mais um copo cada.
— E aí, resolveu o que vai fazer?
— Medicina.
— Porra. E desde quando você se liga nisso?
— Meu primo falou que dá grana. Sabe quanto ganha um cardiologista foda?
— Meu tio é cardiologista.
— Seu tio que voltou de Nova York?
— É.
Roni ergueu as sobrancelhas e os ombros, como se não precisasse dizer mais nada depois daquela informação. A atenção de ambos se voltou para a movimentação perto de uma das portas de entrada.
— Caralho. Acho que já tão formando a fila. Viu seu par?
— Nada.
— Vamos colar lá.
Todas as meninas usavam vestidos lilás, combinando com as faixas na cintura dos garotos. Alguns estavam descontraídos; outros pareciam duros e desconfortáveis enquanto elas fofocavam sobre o cabelo ou a maquiagem de fulana.
Virou-se para comentar algo com Roni, mas este já tinha ficado pelo caminho e agora conversava com a ruivinha de aparelho com quem iria dançar. Suspirou e olhou ao redor, meio perdido. Apertou os olhos novamente e encontrou uma loira de cabelos lisos e ar impaciente ao lado de uma coluna. Caminhou timidamente até lá.
— Desculpa a demora. Vamos?
Ofereceu o braço. E então percebeu o engano. Não era seu par. Era a menina do primeiro ano que eles costumavam chamar de Avril, em referência à óbvia semelhança física. Ela franziu o cenho.
— Hã... Oi?
Improvisou algo para tentar driblar o vexame.
— Oi. Seu par ainda não chegou e nem o meu. Vamos?
— Eu... Acho melhor esperar o...
— Se o cara te fez esperar até agora, na boa, ele pode esperar você terminar a dança.
Não sabia de onde tinha tirado aquilo. Mas, para sua surpresa, Avril sorriu.
— Quer saber? Você tem razão.
Ofereceu novamente o braço, que desta vez foi aceito. Juntaram-se à fila. Investigou em volta, imaginando se algum dos seus amigos estava testemunhando o momento de glória. Avril, por sua vez, parecia ignorar as pessoas ao redor, provavelmente acostumada com o fato de ser alvo de muitos olhares. Ela tinha um cheiro meio adocidado, parecido com o de alguma fruta. Não conseguia reconhecer qual.
— Não lembro de ter visto você na escola.
Estufou o peito.
— Tô no terceiro ano.
— Ah.
Aparentemente, Avril esperava que ele dissesse mais alguma coisa. Mas não era muito bom naquilo.
— Olha, depois da dança a gente podia... Sei lá. Tomar uma cerveja.
— Eu não bebo cerveja.
Estufou o peito novamente, desta vez para tentar disfarçar a barriga.
— Ah, é? Bom, eu prefiro mesmo alguma coisa mais forte.
— Eu só gosto de coquetel de frutas.
— Hã... Parece que o daqui tá bom, né?
Sua tentativa de estender o diálogo foi interrompida pela aparição afobada de Roni.
— Oi, dá licença? Seu par tá lá na frente, te procurando.
Sua vontade era de esganar o amigo. Dirigiu um sorriso amarelo a Avril.
— Er, eu, hã... Acho melhor...
Ela sorriu.
— Vai lá.
Foram caminhando. Roni olhou furtivamente para trás.
— Caraca, cê viu os peitinhos dela?
Deu uma cotovelada que por pouco não acertou em cheio o estômado do amigo.
— Porra, cinco minutos falando com a mina e você já fica assim, todo ciumentinho?
Ergueu o dedo médio e deixou Roni falando sozinho. Foi em direção ao seu par.
— Ah, oi, até que enfim. Tava quase pegando um vaso de plantas pra entrar comigo.
Pensou em erguer novamente o dedo, mas foi desarmado pelo sorriso da garota. Chamava-se Renata. Segundo ano. Estava longe de ser bonita como sua companhia anterior. Mas também não era feia.
— Foi mal. É que eu tava... Hã...
Só então se deu conta de que não havia perguntado qual era o nome da Avril e nem dito o seu a ela.
— Eu vi você falando com aquela menina do primeiro ano. Érica, né? Ela não é muito novinha pra você?
Abriu a boca para protestar, mas não soube o que dizer.
— Tudo bem, eu não tenho nada a ver com isso. E acho que os homens gostam mesmo desses bibelôs, né? Bom, pelo menos é o que eu vejo pelo meu irmão. E pelo meu pai. Ele trocou minha mãe por uma vaca com idade pra ser... Sei lá, uma madrasta muito nova. Mas olha eu aqui falando e você nem me perguntou nada, né? Desculpa, mas é que eu tô meio nervosa com essa história de valsa. E quando eu fico nervosa, começo a tagarelar.
Descobriu que também estava um pouco apreensivo.
— Tudo bem, pode tagarelar.
— Posso, é? Puxa, obrigada. Ai, desculpa, é brincadeira. Minha mãe vive falando pra eu tomar cuidado com o jeito que eu falo. Ela diz que parece que eu tô tripudiando das pessoas. Mas é só o meu jeito. Ai, caralho. Cala boca. Menina chata, hein?
Riu do jeito amalucado dela.
— Putz, começou a andar. Fudeu, é agora.
Sentiu a mão de Renata, envolta na luva liás, apertando a sua. Olhou para ela, que fez uma careta como se estivesse com dor de barriga. Riu e balançou a cabeça. Dirigiram-se para a pista. Um sujeito filmava cada casal que passava. As imagens eram transmitidas num telão. A primeira dança foi da debutante. Os meninos e meninas foram convocados para a segunda. Renata tinha cheiro de xampu. Os outros convidados da festa se juntaram a eles na terceira e última. Quando terminou, todos bateram palmas. A garota suspirou.
— Ufa. Até que não foi tão difícil assim.
— É. Até que não.
— Hum, e aí?
— Olha, eu... Bom, vou ali pegar uma bebida, tá?
— Tá bom.
Renata lhe deu um sorriso. Devolveu-lhe outro e virou as costas. Pegou um coquetel de frutas com um garçom que passava e deu uma volta por todo o salão. Depois de alguns minutos, finalmente avistou Avril. Estava na pista, dançando com um repetente do terceiro ano. Voltou para perto de onde estava. Viu Roni sentado na escada. No caminho, teve a impressão de cruzar com Renata, com um copo de cerveja na mão, rindo e conversando com... Não. Não podia ser. Passou direto. Sentou-se ao lado de Roni.
— Coquetel de frutas? Mas que puta bichice, hein?
— Vai se foder.
— Ui. Mudando de assunto, cê viu com quem o Chileno tá conversando?
— Não.
— Porra, mas cê acabou de passar ali, do lado deles!
— Não vi.
— Caralho. Acho que tá na hora de você arrumar umas lentes de contato.
— Vai se foder.
Experimentou um gole do coquetel.
— Que bebida de merda.
— Tenho.
— Tem certeza que não quer que te busque?
— Tenho.
— E a gente tem o telefone da mãe do Ronaldo na agenda?
— Tem.
— Qualquer coisa, me liga, hein?
— Tchau, mãe.
— Tchau, filho! Boa festa!
— ...
Acenou uma despedida sem entusiasmo, enquanto o carro se afastava com duas buzinadas escandalosas. As mães definitivamente não sabem manter a discrição. E parecem se sentir pessoalmente ofendidas diante de um pedido para que parem um quarteirão antes do local de destino. Guardou os óculos no bolso do smoking e caprichou na expressão calma e despreocupada ao entrar no salão. Apertou os olhos numa tentativa de encontrar alguém conhecido. Dois vultos acenaram. Roni e o Chileno.
— Fala.
— Beleza.
— E aí?
— Buenas.
Ficaram os três em silêncio, observando as pessoas ao redor. Garotas. A maioria era apenas um ano e meio ou dois mais nova, mas eles se sentiam muito mais velhos e experientes. Pegaram copos de cerveja para ter o que fazer com as mãos e ensaiaram um ar blasé. A encenação foi interrompida por um anúncio.
— Até mais, suas bichas. Minha chica chegou.
O Chileno se afastou, gingando o corpo como se fosse o Snoop Dogg. Sua aparência só não era mais estranha que o seu senso de humor bizarro, que às vezes nem eles entendiam. Riram e balançaram a cabeça.
— Sinto pena do par desse moleque.
— Pode crer.
Pegaram mais um copo cada.
— E aí, resolveu o que vai fazer?
— Medicina.
— Porra. E desde quando você se liga nisso?
— Meu primo falou que dá grana. Sabe quanto ganha um cardiologista foda?
— Meu tio é cardiologista.
— Seu tio que voltou de Nova York?
— É.
Roni ergueu as sobrancelhas e os ombros, como se não precisasse dizer mais nada depois daquela informação. A atenção de ambos se voltou para a movimentação perto de uma das portas de entrada.
— Caralho. Acho que já tão formando a fila. Viu seu par?
— Nada.
— Vamos colar lá.
Todas as meninas usavam vestidos lilás, combinando com as faixas na cintura dos garotos. Alguns estavam descontraídos; outros pareciam duros e desconfortáveis enquanto elas fofocavam sobre o cabelo ou a maquiagem de fulana.
Virou-se para comentar algo com Roni, mas este já tinha ficado pelo caminho e agora conversava com a ruivinha de aparelho com quem iria dançar. Suspirou e olhou ao redor, meio perdido. Apertou os olhos novamente e encontrou uma loira de cabelos lisos e ar impaciente ao lado de uma coluna. Caminhou timidamente até lá.
— Desculpa a demora. Vamos?
Ofereceu o braço. E então percebeu o engano. Não era seu par. Era a menina do primeiro ano que eles costumavam chamar de Avril, em referência à óbvia semelhança física. Ela franziu o cenho.
— Hã... Oi?
Improvisou algo para tentar driblar o vexame.
— Oi. Seu par ainda não chegou e nem o meu. Vamos?
— Eu... Acho melhor esperar o...
— Se o cara te fez esperar até agora, na boa, ele pode esperar você terminar a dança.
Não sabia de onde tinha tirado aquilo. Mas, para sua surpresa, Avril sorriu.
— Quer saber? Você tem razão.
Ofereceu novamente o braço, que desta vez foi aceito. Juntaram-se à fila. Investigou em volta, imaginando se algum dos seus amigos estava testemunhando o momento de glória. Avril, por sua vez, parecia ignorar as pessoas ao redor, provavelmente acostumada com o fato de ser alvo de muitos olhares. Ela tinha um cheiro meio adocidado, parecido com o de alguma fruta. Não conseguia reconhecer qual.
— Não lembro de ter visto você na escola.
Estufou o peito.
— Tô no terceiro ano.
— Ah.
Aparentemente, Avril esperava que ele dissesse mais alguma coisa. Mas não era muito bom naquilo.
— Olha, depois da dança a gente podia... Sei lá. Tomar uma cerveja.
— Eu não bebo cerveja.
Estufou o peito novamente, desta vez para tentar disfarçar a barriga.
— Ah, é? Bom, eu prefiro mesmo alguma coisa mais forte.
— Eu só gosto de coquetel de frutas.
— Hã... Parece que o daqui tá bom, né?
Sua tentativa de estender o diálogo foi interrompida pela aparição afobada de Roni.
— Oi, dá licença? Seu par tá lá na frente, te procurando.
Sua vontade era de esganar o amigo. Dirigiu um sorriso amarelo a Avril.
— Er, eu, hã... Acho melhor...
Ela sorriu.
— Vai lá.
Foram caminhando. Roni olhou furtivamente para trás.
— Caraca, cê viu os peitinhos dela?
Deu uma cotovelada que por pouco não acertou em cheio o estômado do amigo.
— Porra, cinco minutos falando com a mina e você já fica assim, todo ciumentinho?
Ergueu o dedo médio e deixou Roni falando sozinho. Foi em direção ao seu par.
— Ah, oi, até que enfim. Tava quase pegando um vaso de plantas pra entrar comigo.
Pensou em erguer novamente o dedo, mas foi desarmado pelo sorriso da garota. Chamava-se Renata. Segundo ano. Estava longe de ser bonita como sua companhia anterior. Mas também não era feia.
— Foi mal. É que eu tava... Hã...
Só então se deu conta de que não havia perguntado qual era o nome da Avril e nem dito o seu a ela.
— Eu vi você falando com aquela menina do primeiro ano. Érica, né? Ela não é muito novinha pra você?
Abriu a boca para protestar, mas não soube o que dizer.
— Tudo bem, eu não tenho nada a ver com isso. E acho que os homens gostam mesmo desses bibelôs, né? Bom, pelo menos é o que eu vejo pelo meu irmão. E pelo meu pai. Ele trocou minha mãe por uma vaca com idade pra ser... Sei lá, uma madrasta muito nova. Mas olha eu aqui falando e você nem me perguntou nada, né? Desculpa, mas é que eu tô meio nervosa com essa história de valsa. E quando eu fico nervosa, começo a tagarelar.
Descobriu que também estava um pouco apreensivo.
— Tudo bem, pode tagarelar.
— Posso, é? Puxa, obrigada. Ai, desculpa, é brincadeira. Minha mãe vive falando pra eu tomar cuidado com o jeito que eu falo. Ela diz que parece que eu tô tripudiando das pessoas. Mas é só o meu jeito. Ai, caralho. Cala boca. Menina chata, hein?
Riu do jeito amalucado dela.
— Putz, começou a andar. Fudeu, é agora.
Sentiu a mão de Renata, envolta na luva liás, apertando a sua. Olhou para ela, que fez uma careta como se estivesse com dor de barriga. Riu e balançou a cabeça. Dirigiram-se para a pista. Um sujeito filmava cada casal que passava. As imagens eram transmitidas num telão. A primeira dança foi da debutante. Os meninos e meninas foram convocados para a segunda. Renata tinha cheiro de xampu. Os outros convidados da festa se juntaram a eles na terceira e última. Quando terminou, todos bateram palmas. A garota suspirou.
— Ufa. Até que não foi tão difícil assim.
— É. Até que não.
— Hum, e aí?
— Olha, eu... Bom, vou ali pegar uma bebida, tá?
— Tá bom.
Renata lhe deu um sorriso. Devolveu-lhe outro e virou as costas. Pegou um coquetel de frutas com um garçom que passava e deu uma volta por todo o salão. Depois de alguns minutos, finalmente avistou Avril. Estava na pista, dançando com um repetente do terceiro ano. Voltou para perto de onde estava. Viu Roni sentado na escada. No caminho, teve a impressão de cruzar com Renata, com um copo de cerveja na mão, rindo e conversando com... Não. Não podia ser. Passou direto. Sentou-se ao lado de Roni.
— Coquetel de frutas? Mas que puta bichice, hein?
— Vai se foder.
— Ui. Mudando de assunto, cê viu com quem o Chileno tá conversando?
— Não.
— Porra, mas cê acabou de passar ali, do lado deles!
— Não vi.
— Caralho. Acho que tá na hora de você arrumar umas lentes de contato.
— Vai se foder.
Experimentou um gole do coquetel.
— Que bebida de merda.



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