Quinta-feira, Setembro 04, 2008

[Bittersweet]

— Tá legal. Qual é o meu tipo então?
A garota aperta os olhos e fica me observando por um instante.
— Você gosta dessas... Menininhas.
Dou risada. Ela fala "menininhas" no mesmo tom de desdém com que minha mãe diria "brinquedos", ao se referir à minha coleção de action figures.
— Que bom. Pelo menos não são menininhos.
Ela continua séria.
— Você gosta dessas meninas boazinhas, meiguinhas, delicadinhas, bonitinhas. Enfim, menininhas.
— Ah...
Ficamos calados. Ela, fingindo que olha alguma coisa interessante no outro lado da calçada; eu, concentrado no rótulo da garrafa.
— Vai dizer que eu não tô certa?
Suspiro.
— Acho que vou. Não sei se eu tenho um tipo específico. É lógico que eu prefiro as bonitinhas, mas tem outras coisas que eu também... Ah, faltou um "inha" importante na sua lista: estilosinha.
— Claro. Como pude esquecer?
— Pois é. Voltando. É meio difícil de explicar... Eu reparo nas mesmas coisas que todo homem. Mas, pra eu prestar atenção numa mulher, tem que ter alguma outra coisa, sabe?
— Hum.
— Por exemplo: tinha essa menina...
— Menininha.
— Tá, tá. Menininha. Tinha essa menininha que ria com o corpo todo. Mas ela chorava dum jeito meio... Impassível. Ela ficava lá, com cara de parede, sem mexer um músculo, e só uma lágrima escorrendo.
— Hum.
— E tinha uma outra que falava mais palavrão do que eu. Mas era meio travada pra falar de sexo. Até corava.
— E pra fazer?
— Cala a boca. O que eu tô querendo dizer é que elas tinham essas... Contradições. Alguma coisa nelas alardeava uma personalidade ou uma excentricidade, sei lá. E, ao mesmo tempo, denunciava uma insegurança, uma fragilidade. Entende?
— Acho que sim. É que nem aquela música: "Eu gosto de opostos".
— Hum. Prefiro aquela que diz: "Eu gosto é do estrago".
A garota bebe um gole da Heineken e faz uma careta. O silêncio me constrange. Não sei se ela espera que eu pergunte, mas acabo falando assim mesmo.
— E você? Qual é o seu tipo?
— Eu gosto de idiotas.
Parece que a ela tinha a resposta na ponta da língua. Só que pronuncia a frase dum jeito seco, quase agressivo, como eu nunca tinha visto antes. Fico ainda mais sem graça. Coço o nariz e encaro o chão. Com o canto do olho, percebo um leve indício de arrependimento no semblante da garota.
— Não... É mentira.
Ela respira fundo.
— É ingenuidade falar desse jeito... Não. É cômodo falar desse jeito. Eles não são idiotas de verdade, né? Se fossem, eles não iam me interessar. Não iam causar "estrago". Mas é mais fácil falar que são idiotas. Culpar o destino ou a sociedade ou a revolução sexual ou o aquecimento global ou o que quer que seja. O fato é que, no fundo, eu me recuso a aceitar que é tudo fruto do acaso. Que é tudo um jogo de probabilidades.
Viro meio copo de cerveja, como se eu é que tivesse feito um monólogo e precisasse molhar a garganta. Encaro a garota, que fica olhando para algum ponto indefinido, perdida em pensamentos. Observo enquanto ela aperta o copo; o esmalte azul, dum tom vivo, berrante, do jeito que ela costuma usar; os dedos revelando que ela rói as unhas. Olho para o relógio.
— Daqui a pouco a gente vai perder o metrô.
Nenhum dos dois se move.

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