Sexta-feira, Agosto 22, 2008

[Decoração de interiores]

Prendo a respiração antes de tocar a campainha. Após uma breve espera, ela abre a porta. Constato o grande favor que costumo fazer às mulheres quando saio de suas vidas: Roberta está infinitamente mais bonita do que jamais esteve ao longo dos dezoito meses em que ficamos juntos. Ela sorri de maneira polida e me convida para entrar. O apartamento parece bastante familiar, embora novos elementos tenham entrado em cena para lembrar que eu provavelmente fui o único que permaneceu no mesmo lugar, enquanto todo mundo ao meu redor simplesmente seguiu em frente. Tento fazer uma rápida contabilização das novidades ali na sala: um quadro na parede, dois vasos de plantas, dois porta-retratos na estante, uma televisão e a disposição dos móveis ao redor dela. A tevê é maior do que antes (quarenta e duas polegadas?). Uma das poltronas me chama a atenção -- não tenho certeza se é nova ou se foi apenas reformada. Contenho o ímpeto de perguntar. Depois das saudações habituais, ela diz, alternando o olhar entre meu rosto e o chão:
— Olha, eu nem sei como te agradecer. Eu imagino o quanto essa situação deva parecer meio... Chata. Mas, como eu te falei antes, eu realmente não tinha mais ninguém a quem recorrer.
Está visivelmente constrangida com aquilo tudo. Ao contrário do que ela provavelmente imagina, eu não achei nem um pouco estranho quando ela me telefonou na semana anterior -- afinal, geralmente acabo me tornando amigo das mulheres com as quais já mantive um relacionamento um pouco mais longevo. Mas, no fundo, foi mesmo inusitado o pedido que ela me fez. Sua mãe estava em Maringá, cuidando de uma tia adoentada. Sua melhor amiga tinha ido viajar com o marido num tour pela Europa. Todas as outras pessoas de seu círculo de convivência inventaram algum tipo de compromisso para fugir da tarefa ingrata. Ela não conhecia nenhuma profissional realmente confiável, com referências seguras. Sobrou para o idiota aqui.
Sorrio e respondo com sinceridade:
— Tá tudo bem. Eu não tenho mesmo nada melhor pra fazer. Dum jeito ou de outro, ia ficar “bundando” em casa. Pelo menos aqui eu vou ter companhia.
Ela suspira:
— A maioria das pessoas da nossa idade não consideraria um garoto de onze anos como uma companhia das mais... Agradáveis.
— Relaxa. A gente costumava se dar bem. Pelo menos naquela época. Falando nisso, cadê o guri?
— Trancado no quarto, pra variar. Eu acredito que você não vá ter muito trabalho. Ele provavelmente vai ficar lá, fuçando no computador a noite inteira. É só você dar uma batidinha na porta de vez em quando pra se certificar de que ele tá vivo e que não começou a tocar fogo na casa. Ah, e não se preocupe se ele não se portar de maneira muito... Amistosa. Não é nada pessoal. É só que ele tá entrando naquela fase revoltadinha, sabe?
— Sei. Eu continuo nessa fase até hoje.
— Nem me fale... Bom, mais tarde você pode pedir uma pizza pra vocês dois. Acho que tem um folheto aqui, em algum lugar.
Ela se agacha para procurar na mesinha do telefone. A fenda lateral de seu vestido se abre, revelando uma porção generosa de sua perna. Uma perna comprida, torneada, com a coxa grossa. E envolta numa daquelas meias sete oitavos. Uma sensação de excitação misturada com raiva me invade. Tinha me esquecido do quão bem-feitas são as pernas de Roberta. Nos dezoito meses em que ficamos juntos, a desgraçada nunca usou meias sete oitavos para satisfazer as minhas fantasias. Ela se levanta e caminha em direção à cozinha, falando algo sobre o conteúdo da geladeira. Mas já não presto mais atenção no que diz. Sigo atrás dela, olhando fixamente para sua bunda, tentando identificar o contorno da calcinha que ela usa debaixo daquele vestido longo e justo. Não consigo. Fico me perguntando se ela está usando alguma coisa ali embaixo. Nos dezoito meses em que ficamos juntos, a desgraçada nunca saiu sem calcinha para satisfazer às minhas fantasias.
Roberta caminha pelo corredor que conduz aos quartos. Bate na primeira porta e grita:
— Filhão, já tô saindo. O Jonas vai fazer companhia pra você. Fica direitinho, tá bom?
De dentro do quarto, sai a voz abafada do garoto, respondendo um “tá, tchau” entediado. Acompanho-a até o hall, onde ela chama o elevador. Ela me entrega uma cópia da chave do apartamento.
— Então, é isso. Qualquer problema, me liga no celular. Não pretendo voltar muito tarde.
— Pode deixar. Boa festa, aproveite.
Ela me cumprimenta com um abraço. Envolvo sua cintura e acaricio suas costas, que estão nuas graças ao decote na parte de trás do vestido. Ao invés de lhe dar um beijo na bochecha, beijo-a bem perto da boca. Aperto-a com força e sinto seus seios espremidos contra o meu corpo. No momento em que vou tentar outro beijo, desta vez na boca, ela me empurra e se afasta.
— Pára com isso, Jonas! Deixa de besteira!
Num timing perfeito, o elevador chega. Roberta entra nele e vai embora sem me olhar nos olhos. Volto para o apartamento, sento na poltrona que não sei se é nova ou não e ligo a tevê. Os apresentadores do telejornal dão “boa-noite” e começa a novela. Zapeio pelos canais e vejo trechos de reprises de seriados americanos. Paro num documentário sobre o fundo do mar e as criaturas abissais. Ao final do programa, levanto-me, sigo até o corredor e bato na porta do quarto do garoto. Ele não responde.
— Escuta, você tá com fome? Vou pedir uma pizza. Quer escolher a sua metade?
Silêncio. Depois de alguns instantes, finalmente vem a voz abafada:
— Eu não como aliche.
Um porre, como todo pré-adolescente. Telefono para a pizzaria e peço meia quatro queijos, meia calabresa. O atendente pergunta se “bebida acompanha”. Penso em consultar o garoto, mas me irrito só de imaginar a resposta lacônica. Peço uma Coca-Cola. Se ele não quiser, dane-se; tem água no filtro. Volto para a tevê e para mais um programa instrutivo, agora sobre a savana africana. Aproveito o intervalo para examinar os dois novos porta-retratos sobre a estante. Numa das fotos, está o garoto, vestindo uniforme de futebol, provavelmente em algum campeonato da escola. Na outra, ele e Roberta sorriem abraçados em um churrasco ou almoço num sítio. Conheço de cor as outras fotografias. O pai do garoto só aparece em uma delas. Não cheguei a conhecê-lo. Quando comecei a sair com Roberta, ela já estava divorciada havia dois anos e o ex-marido tinha ido morar em Salvador. Só vinha para São Paulo duas vezes por ano, quando passava algumas semanas com o filho.
Vinte minutos depois, antes de o documentário terminar, o interfone toca. Atendo e aviso que já estou descendo. Vou até o corredor e grito para o garoto que vou buscar a pizza lá embaixo. Pego a cópia da chave e saio. Quando volto, bato a porta com força e faço bastante barulho para trancá-la -- a idéia é anunciar que já estou de volta sem ter que gritar novamente. Deixo a pizza e a garrafa de refrigerante na copa, onde já estão pratos, talheres, copos, guardanapos e o azeite. O espertinho deve ter aproveitado a minha ausência para pôr a mesa. Volto para a poltrona da sala, para deixá-lo à vontade para se servir.
A porta do quarto se abre. Apesar de tê-lo visto nas fotos recentes na estante, não deixo de me espantar com o quanto o garoto cresceu. Ele passa pela sala, olha rapidamente em minha direção e diz um “e aí” seco. Faço seu joguinho e economizo ainda mais nas palavras, apenas levantando o braço. Na copa, ele coloca logo dois pedaços de pizza no prato e (bingo!) serve-se de um copo de Coca. Como eu já havia imaginado, ele retorna para o seu esconderijo sem dizer mais nada. Minha vez. Vou até a copa, pego um pedaço de pizza de calabresa e pingo um pouco de azeite. Entro na cozinha e abro a geladeira para ver se, com alguma sorte, encontro uma cerveja. Nada. Só uma garrafa de vinho branco. Não é a combinação mais adequada, mas vai ter que servir. Vasculho as gavetas à procura do saca-rolhas. Abro a garrafa com um estalo e retorno à sala.
Depois de comer, dou uma olhada na coleção de DVDs na parte debaixo do móvel sobre o qual está a tevê: desenhos, filmes infantis, comédias românticas e blockbusters. Dentre as opções limitadas, escolho Um Sonho de Liberdade. Pego outro pedaço de pizza, reabasteço o copo e me instalo confortavelmente na poltrona.
O garoto sai novamente da toca e vai até a cozinha. Vai deixar o prato na pia, imagino. Na volta, se detém na passagem entre a sala e o corredor. Sem desviar o olhar da tela, percebo-o ali parado e fico me perguntando se ele irá fazer algum comentário a respeito da garrafa de vinho que está no chão, ao lado da minha poltrona.
— Esse filme é da minha mãe, né?
— É sim.
Talvez ele tenha se dado conta de que bancar o rebelde comigo não funciona. Talvez ele pense que eu pelo menos pareço respeitar o seu espaço. Talvez se lembre que, quando ele era menor e eu saía com sua mãe, nós nos dávamos bem e até nos divertíamos um bocado. Ou talvez ele simplesmente goste daquele filme. O fato é que, ao invés de se trancar novamente no quarto, o garoto se senta no sofá ao lado da minha poltrona. Nós não chegamos a conversar; apenas ficamos ali, calados, acompanhando as desventuras de Andy Dufresne. Mas já é um avanço.
Penso em puxar papo com o garoto e dizer que, no conto do Stephen King em que o filme é baseado, o personagem interpretado pelo Morgan Freeman é na verdade um ruivo -- daí o apelido “Red”. Mas chego à conclusão de que, para um pré-adolescente, nós já conversamos o bastante por uma noite. Quando o filme termina, vejo que ele está dormindo. Tento acordá-lo, mas ele apenas resmunga.
Com algum esforço, carrego-o até o quarto. Coloco-o na cama e o cubro. Olho à minha volta: computador, aquário com tartarugas, pôsteres de time de futebol, super-herói e banda de rock, roupas espalhadas em cima da cadeira, mancebo com uma porção de bonés pendurados. Um típico quarto de pré-adolescente. Saio e fecho a porta suavemente.
Guardo o DVD, abaixo o volume da tevê, sirvo o último gole de vinho e zapeio. Um clipe idiota na MTV. Mais documentários sobre a natureza. Um casal começa a se agarrar. Pelo visual dos atores (uma loira peituda e um moreno “saradão”) e pela trilha sonora (um solo manjado de saxofone), parece ser um daqueles filmes eróticos softcore. A suspeita se confirma quando o “saradão” arranca a blusa da loira e começa a massagear seus seios avantajados. Fico excitado e me pergunto se é efeito do álcool ou da lembrança das pernas de Roberta. Não importa. Desabotôo a calça, abro o zíper e me masturbo. Saciado aquele desejo fremente, vou até o banheiro me limpar. Em seguida, volto para a sala e recolho o prato, os talheres e o copo e levo a garrafa vazia até o grande saco de lixo na área de serviço. Instalo-me novamente na poltrona, escolho um canal qualquer e fico ali, assistindo a sucessão de imagens sem prestar atenção e nem pensar em nada de muito útil.
Devo ter cochilado. Acordo com o barulho na porta e uma voz sussurrante. Roberta não consegue entrar. Deduzo que é por causa da cópia da chave que eu acabei deixando na fechadura. Levanto-me e destranco a porta. Ela fica ali parada por alguns instantes e depois finalmente entra. Está acompanhada por um sujeito alto, meio calvo, com belos traços que lembram um pouco o ex-marido.
— Marcos, esse aqui é o Jonas. Jonas, Marcos.
Nós nos cumprimentamos e percebo que Marcos parece um pouco desconfortável com a situação. Roberta pergunta do filho. Respondo que vimos um filme juntos, que ele acabou dormindo e que tive que pô-lo na cama. Ela franze o cenho, um pouco surpresa diante da menção de que eu e o garoto interagimos de alguma forma. Seu olhar se volta para a embalagem de pizza que ainda repousa sobre a mesa da copa. Ela vacila um pouco e então pega aquele disco de papelão e o leva até a cozinha. Nesse meio tempo, eu encaro Marcos, que me devolve um sorriso amarelo. Examino-o de cima a baixo. Usa um terno fino e sapatos caros. É elegante, o maldito. Colega de trabalho? Provavelmente não. Aposto que eles vão transar. Ele irá tirar o vestido e as meias de Roberta, beijar todo o seu corpo, sussurrar palavras obscenas em seu ouvido e gozar num gemido contido. Aqueles filhos da puta! Fazendo sacanagem com uma criança dormindo no quarto ao lado. Se bem que eu não posso falar muito...
— Bom, mais uma vez: nem sei como te agradecer. Deixa eu pelo menos pagar o seu táxi. Nesse horário já não deve ter condução.
— Imagina, não precisa se incomodar. Foi um prazer.
— Eu faço questão.
Roberta me entrega uma nota.
— Mas isso aqui é muito.
— Fica pelo táxi e pela pizza.
Dou de ombros. Não posso me dar ao luxo de ser orgulhoso. Guardo a nota no bolso. Cumprimento Marcos, que desta vez aperta minha mão com mais firmeza. Roberta também me estende a mão ao invés de oferecer um abraço. Provavelmente quer evitar uma cena patética como a da nossa despedida anterior. Quem ela pensa que eu sou? Beijo sua mão de maneira afetada e me vou. A porta se fecha atrás de mim. Os pombinhos ficam a sós.
Entro no elevador, que ainda está parado ali no andar. Aperto o botão do térreo. Deixo escapar um sorriso ao imaginar que, naquele momento, Roberta deve estar se perguntando onde diabos foi parar a garrafa de vinho que ela tinha deixado para gelar.

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