Por incrível que pareça, Maria Angélica tinha ficado um pouco decepcionada nas primeiras semanas. Não com o trabalho em si – afinal, não podia esperar muito daquele emprego como caixa de supermercado. Mas ela achava que, pelo menos, veria um bocado de gente extravagante no turno da madrugada, para o qual havia sido escalada.
Uma vez, um mendigo apareceu por lá, mas mal passou da porta de entrada – o segurança logo tratou de botá-lo para correr. Noutra ocasião, percebeu um burburinho entre os funcionários, provocado por uma morena e uma loira tingida, que trajavam, respectivamente, microssaia e micro-top e vestido justíssimo e curtíssimo. Ambas cheiravam a cigarro e estavam excessivamente maquiadas. O comentário geral era de que tinham saído de um prostíbulo ali nas redondezas (elas compraram duas latinhas de energético e um chiclete de hortelã).
Acontece que putas e mendigos não eram novidade para Maria Angélica, que estava cansada de vê-los nas suas noites de folga, até mesmo perto de casa. No mais, as madrugadas no supermercado eram freqüentadas por uma clientela bem sem graça – jovens casais (ele com sono, ela tentando lembrar de alguma coisa), senhores e senhoras de meia-idade (calados e bem-vestidos) ou então uma molecada barulhenta (voltando do baile).
Talvez por isso, aquele sujeito acabou chamado sua atenção. Calçava chinelos e vestia um par de jeans surrados, uma camiseta amassada e um moletom que combinava tão pouco com o resto do conjunto que só podia ter sido apanhado a esmo numa pilha de roupas. Tinha os ombros curvados e não andava, arrastava-se. Os olhos eram fundos, de quem vinha enfrentando sérios problemas de insônia. Maria Angélica estava habituada aos tipos solitários que apareciam por lá de vez em quando, aparentando tédio ou até um certo grau de tristeza, dum jeito meio patético. Mas aquele sujeito era diferente – era como se houvesse uma nuvem de desespero à sua volta, acima da qual ele conseguia pairar, com a calma de quem já se deu conta de que é inútil lutar.
— Boa noite!
O sujeito não respondeu e nem mesmo dirigiu-lhe um olhar. Apenas colocou sobre a esteira duas caixas de Johnnie Walker Red Label vazias. Maria Angélica pediu licença e dirigiu-se ao balcão onde eram mantidas, trancadas a chave (sob poder do gerente), as bebidas importadas. Voltou com as duas garrafas de uísque.
— Deseja algo mais?
Uma fração de segundo antes de balançar a cabeça negativamente, o sujeito voltou-se para o painel ao lado da caixa registradora, onde ficavam penduradas as miudezas cuja única finalidade era tentar inspirar no cliente uma compra de última hora (tratava-se de um truque barato, mas que Maria Angélica já tinha visto funcionar uma porção de vezes). Ele tocou com a ponta do dedo numa embalagem de refil para aparelho de barbear.
— Já não fabricam mais aquelas lâminas avulsas? Aquelas que vinham numa caixinha pequena, enroladas uma por uma em papel?
Maria Angélica conhecia as tais lâminas. Eram as mesmas que seu pai usava. Ele desmontava o antiquado aparelho de barbear, soltando os pequenos parafusos, depois encaixava a lâmina nova e então montava tudo outra vez. Espalhava a espuma pelo rosto com o pincel e em seguida fazia o aparelho deslizar sobre a pele em movimentos rápidos. Era seu ritual de todas as manhãs. Exceto nos finais de semana. Nesses dias, Maria Angélica gostava de se sentar no colo do pai e acariciar seu rosto, sentindo os pêlos da barba pinicando sua mão. Era o sinal de que ficariam juntos, pelo menos até o domingo à noite.
Mas o sujeito que ela tinha diante de si no caixa do supermercado era o desleixo em pessoa, tanto no jeito de se vestir quanto nos cabelos desgrenhados e ensebados e na barba por fazer. Maria Angélica sentiu um calafrio ao se perguntar o que alguém como ele poderia querer fazer com lâminas de barbear e duas garrafas de uísque.
— Hã, acho que não. Mas esse aparelho aqui tá na promoção. É aquele com três lâminas, que dizem que...
Foi interrompida pelo sujeito, que recusou sua sugestão com um meneio de cabeça, deu um tapinha numa das caixas vazias e ergueu os cantos da boca, na pior imitação de sorriso que Maria Angélica já tinha visto na vida. Ela deu de ombros e passou uma das garrafas pelo leitor de código de barras repetidas vezes, sem obter sucesso. Talvez estivesse fazendo aquilo do jeito errado (de propósito?). O sujeito coçou o queixo com impaciência e ela então se viu forçada a digitar o código manualmente.
— São cento e vinte nove reais e oitenta centavos.
Maria Angélica deu uma rápida olhada no cartão de banco que o sujeito lhe entregou, antes de passá-lo pelo leitor magnético. Enquanto o pagamento era processado, ela guardou cada uma das garrafas numa caixa e colocou ambas num saco duplo. Pensou, com um pouco de raiva, que era um desperdício de papelão e plástico. Devolveu o cartão ao sujeito e lhe entregou a nota fiscal e o comprovante.
— Boa noite. Volte sempre!
Até ela se surpreendeu com a ênfase com que disse as duas últimas palavras. O sujeito também deve ter achado estranho, pois foi embora com o cenho franzido. Enquanto o observava se arrastando em direção à saída, Maria Angélica experimentou uma inexplicável sensação de impotência misturada com peso na consciência. No decorrer daquela semana, examinou atentamente o jornal, para ver se encontrava o nome que ela tinha lido no cartão do banco em alguma nota de óbito.
Uma vez, um mendigo apareceu por lá, mas mal passou da porta de entrada – o segurança logo tratou de botá-lo para correr. Noutra ocasião, percebeu um burburinho entre os funcionários, provocado por uma morena e uma loira tingida, que trajavam, respectivamente, microssaia e micro-top e vestido justíssimo e curtíssimo. Ambas cheiravam a cigarro e estavam excessivamente maquiadas. O comentário geral era de que tinham saído de um prostíbulo ali nas redondezas (elas compraram duas latinhas de energético e um chiclete de hortelã).
Acontece que putas e mendigos não eram novidade para Maria Angélica, que estava cansada de vê-los nas suas noites de folga, até mesmo perto de casa. No mais, as madrugadas no supermercado eram freqüentadas por uma clientela bem sem graça – jovens casais (ele com sono, ela tentando lembrar de alguma coisa), senhores e senhoras de meia-idade (calados e bem-vestidos) ou então uma molecada barulhenta (voltando do baile).
Talvez por isso, aquele sujeito acabou chamado sua atenção. Calçava chinelos e vestia um par de jeans surrados, uma camiseta amassada e um moletom que combinava tão pouco com o resto do conjunto que só podia ter sido apanhado a esmo numa pilha de roupas. Tinha os ombros curvados e não andava, arrastava-se. Os olhos eram fundos, de quem vinha enfrentando sérios problemas de insônia. Maria Angélica estava habituada aos tipos solitários que apareciam por lá de vez em quando, aparentando tédio ou até um certo grau de tristeza, dum jeito meio patético. Mas aquele sujeito era diferente – era como se houvesse uma nuvem de desespero à sua volta, acima da qual ele conseguia pairar, com a calma de quem já se deu conta de que é inútil lutar.
— Boa noite!
O sujeito não respondeu e nem mesmo dirigiu-lhe um olhar. Apenas colocou sobre a esteira duas caixas de Johnnie Walker Red Label vazias. Maria Angélica pediu licença e dirigiu-se ao balcão onde eram mantidas, trancadas a chave (sob poder do gerente), as bebidas importadas. Voltou com as duas garrafas de uísque.
— Deseja algo mais?
Uma fração de segundo antes de balançar a cabeça negativamente, o sujeito voltou-se para o painel ao lado da caixa registradora, onde ficavam penduradas as miudezas cuja única finalidade era tentar inspirar no cliente uma compra de última hora (tratava-se de um truque barato, mas que Maria Angélica já tinha visto funcionar uma porção de vezes). Ele tocou com a ponta do dedo numa embalagem de refil para aparelho de barbear.
— Já não fabricam mais aquelas lâminas avulsas? Aquelas que vinham numa caixinha pequena, enroladas uma por uma em papel?
Maria Angélica conhecia as tais lâminas. Eram as mesmas que seu pai usava. Ele desmontava o antiquado aparelho de barbear, soltando os pequenos parafusos, depois encaixava a lâmina nova e então montava tudo outra vez. Espalhava a espuma pelo rosto com o pincel e em seguida fazia o aparelho deslizar sobre a pele em movimentos rápidos. Era seu ritual de todas as manhãs. Exceto nos finais de semana. Nesses dias, Maria Angélica gostava de se sentar no colo do pai e acariciar seu rosto, sentindo os pêlos da barba pinicando sua mão. Era o sinal de que ficariam juntos, pelo menos até o domingo à noite.
Mas o sujeito que ela tinha diante de si no caixa do supermercado era o desleixo em pessoa, tanto no jeito de se vestir quanto nos cabelos desgrenhados e ensebados e na barba por fazer. Maria Angélica sentiu um calafrio ao se perguntar o que alguém como ele poderia querer fazer com lâminas de barbear e duas garrafas de uísque.
— Hã, acho que não. Mas esse aparelho aqui tá na promoção. É aquele com três lâminas, que dizem que...
Foi interrompida pelo sujeito, que recusou sua sugestão com um meneio de cabeça, deu um tapinha numa das caixas vazias e ergueu os cantos da boca, na pior imitação de sorriso que Maria Angélica já tinha visto na vida. Ela deu de ombros e passou uma das garrafas pelo leitor de código de barras repetidas vezes, sem obter sucesso. Talvez estivesse fazendo aquilo do jeito errado (de propósito?). O sujeito coçou o queixo com impaciência e ela então se viu forçada a digitar o código manualmente.
— São cento e vinte nove reais e oitenta centavos.
Maria Angélica deu uma rápida olhada no cartão de banco que o sujeito lhe entregou, antes de passá-lo pelo leitor magnético. Enquanto o pagamento era processado, ela guardou cada uma das garrafas numa caixa e colocou ambas num saco duplo. Pensou, com um pouco de raiva, que era um desperdício de papelão e plástico. Devolveu o cartão ao sujeito e lhe entregou a nota fiscal e o comprovante.
— Boa noite. Volte sempre!
Até ela se surpreendeu com a ênfase com que disse as duas últimas palavras. O sujeito também deve ter achado estranho, pois foi embora com o cenho franzido. Enquanto o observava se arrastando em direção à saída, Maria Angélica experimentou uma inexplicável sensação de impotência misturada com peso na consciência. No decorrer daquela semana, examinou atentamente o jornal, para ver se encontrava o nome que ela tinha lido no cartão do banco em alguma nota de óbito.



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