"Um homem não vai menos perdido por caminhar em linha recta."
O ar está impregnado com cheiro de inseticida, o que, no fundo, talvez seja um bom sinal. O máximo que pode acontecer é aparecer uma ou outra barata morta sobre o chão de tacos (que parece não ver cera há tempos) ou dentro do armário – é um daqueles embutidos, com portas de madeira escura e puxadores dourados, já descascados. As paredes são de um branco encardido; uma delas, a lateral esquerda, que obviamente dá para o banheiro, apresenta escandalosos sinais de infiltração. Para sua surpresa, não há nenhum quadro pendurado – ele poderia jurar que encontraria pelo menos uma natureza morta. Ocupando uma posição central, com a cabeceira encostada na parede oposta à porta, está a cama, coberta por uma colcha puída, de cor e estampa berrantes, que mesmo na época em que foi comprada provavelmente já era considerada de mau gosto. Mais à direita, junto à outra parede lateral, há uma pequena cômoda com um abajur em cima.
Ele pensa em dar uma espiada nas condições do banheiro, mas percebe a expressão de impaciência do gerente do hotel. É quase possível adivinhar o que se passa pela cabeça daquele homem: "Por esse preço, o que esperava?", ou algo do tipo. Sente-se incomodado, mas termina por suspirar e conclui que, de fato, não há tanto assim o que considerar. Um chuveiro, um vaso sanitário e uma pia já serão o suficiente; um box, um espelho e toalhas decentes serão lucro. Esboça um sorriso e anuncia que ficará com o quarto. O gerente apenas balança a cabeça. Talvez numa tentativa de arrancar uma reação um pouco mais entusiasmada daquele sujeito ranzina, ele acrescenta que pagará adiantado o valor equivalente a uma semana de estadia. Sente uma ponta de frustração quando o gerente simplesmente pede, sem alteração de humor, que o acompanhe até a recepção.
Depois de acertar antecipadamente sua conta, retorna ao quarto, desta vez carregando sua bolsa. Larga-a sobre a cama, leva as mãos à cintura e examina o recinto mais uma vez, como se tentasse torná-lo, com um único olhar, um pouco mais familiar. Decide finalmente averiguar o banheiro. O piso vermelho-sangue forma um contraste nada agradável com as paredes, cobertas até certa altura por azulejos esverdeados. O restante leva uma tinta branca em estado ainda pior do que a do quarto, quase totalmente tomada pelas marcas de umidade. Não há box ou cortina, apenas um rodo, provavelmente inútil. Mas pelo menos há um espelho. Vai até o quarto e pega na bolsa o estojo onde guarda seus objetos de higiene pessoal. Volta ao banheiro, pega o sabonete, lava o rosto e molha os cabelos. Usa a toalha pendurada num gancho ao lado da pia, apenas para confirmar suas suspeitas: fina e áspera demais.
Os cabelos molhados e o frescor no rosto enganam bem. Essa é sua estratégia. Sabe que se tomasse banho agora, se sentiria excessivamente relaxado, deitaria na cama, acabaria dormindo e acordaria no meio da noite; a única garrafa que lhe resta não duraria até a manhã; e então seria tarde demais para encontrar algum mercado aberto. Subitamente, a idéia de sair e fazer um reconhecimento da cidade lhe parece a melhor opção. O passeio poderá, quem sabe, lhe trazer um pouco mais de ânimo. E, claro, lhe dará oportunidade de se reabastecer de bebida. Sorri ao lembrar que, em inglês, a palavra "spirit" é usada para se referir tanto a ânimo quanto a destilados alcóolicos. Espírito.
Tão repentinamente quanto veio, a vontade de sair desaparece. Abre a bolsa mais uma vez, agora para pegar a garrafa quase cheia de uísque nacional vagabundo. Não há interfone ou serviço de quarto naquele hotel e nem mesmo um bar ou restaurante. Ironicamente, quando ainda conhecia esses luxos, o uísque era bom o suficiente para dispensar o gelo. Resolve dar um pulo até a recepção e consultar o gerente ranzinza, que o instrui a seguir o corredor até a área dos fundos, onde há um refeitório e, mais adiante, uma pequena cozinha com fogão e refrigerador.
Percebe que a fachada estreita do hotel o enganou; o terreno é bem mais comprido do que esperava. O refeitório, relativamente amplo, fica numa área aberta, com apenas um trecho coberto por telhas metálicas, onde ficam duas mesas compridas cercadas por bancos, lembrando uma cantina de escola ou acampamento. Há algumas pessoas sentadas: um velho solitário e uma moça que conversa animadamente com dois rapazes. A moça, apesar das medidas fartas do corpo, parece à vontade com o top e o shortinho que veste. Mesmo sem encará-los quando passa, ele é capaz de sentir os olhares de curiosidade (da moça), animosidade (dos rapazes) e indiferença (do velho) em sua direção. Balança a cabeça, numa saudação abreviada, que não chega a ser respondida. Na cozinha, pega dois copos de plástico do pacote junto ao bebedouro e abre a porta do congelador. Encontra duas fôrmas, uma cheia e outra com algumas pedrinhas faltando. Enche os dois copos com gelo e completa a fôrma com água do bebedouro. Quando passa novamente pelo refeitório, não se preocupa em ser educado e ignora os olhares.
De volta ao quarto, senta-se na cama e enche um dos copos com uísque. Bebe um gole e faz uma careta, mas imagina que, na próxima rodada, a bebida barata já não estará tão ruim assim. Pela primeira vez em muitos dias, pergunta-se que diabos está fazendo ali. Não tem saudades de casa e não chega a nutrir sentimentos nostálgicos de espécie alguma; também não se preocupa tanto assim com o dia de amanhã. O que mais o aflige, no momento, é a sensação de estar à deriva, de seguir o fluxo, de estar à mercê do acaso ou de alguma outra força que foge de sua compreensão. Como todo o resto, aliás. Já percebeu que não adianta se debater; isso apenas o cansaria. A única saída, ao seu ver, é continuar, deixar-se ser arrastado pela correnteza e torcer para que saiba o momento certo de começar a nadar e tentar alcançar a margem.
Enche novamente o copo que tem na mão. Olha para o outro, que repousa sobre a cômoda com o abajur, e nota que o gelo já começa a derreter. Bebe mais um gole e sorri, satisfeito, ao constatar que ainda existem pelo menos algumas pequenas certezas na vida: a segunda rodada realmente já lhe parece um pouco melhor. Sente-se disposto outra vez, o suficiente para tomar uma decisão. Assim que terminar aquele copo, irá tomar uma providência concreta a respeito do dia de amanhã: sairá do quarto, se dirigirá à cidade, comprará outra garrafa de uísque vagabundo no mercado e uma cartela de aspirinas na farmácia.
(José Saramago, em O Ano da Morte de Ricardo Reis)
O ar está impregnado com cheiro de inseticida, o que, no fundo, talvez seja um bom sinal. O máximo que pode acontecer é aparecer uma ou outra barata morta sobre o chão de tacos (que parece não ver cera há tempos) ou dentro do armário – é um daqueles embutidos, com portas de madeira escura e puxadores dourados, já descascados. As paredes são de um branco encardido; uma delas, a lateral esquerda, que obviamente dá para o banheiro, apresenta escandalosos sinais de infiltração. Para sua surpresa, não há nenhum quadro pendurado – ele poderia jurar que encontraria pelo menos uma natureza morta. Ocupando uma posição central, com a cabeceira encostada na parede oposta à porta, está a cama, coberta por uma colcha puída, de cor e estampa berrantes, que mesmo na época em que foi comprada provavelmente já era considerada de mau gosto. Mais à direita, junto à outra parede lateral, há uma pequena cômoda com um abajur em cima.
Ele pensa em dar uma espiada nas condições do banheiro, mas percebe a expressão de impaciência do gerente do hotel. É quase possível adivinhar o que se passa pela cabeça daquele homem: "Por esse preço, o que esperava?", ou algo do tipo. Sente-se incomodado, mas termina por suspirar e conclui que, de fato, não há tanto assim o que considerar. Um chuveiro, um vaso sanitário e uma pia já serão o suficiente; um box, um espelho e toalhas decentes serão lucro. Esboça um sorriso e anuncia que ficará com o quarto. O gerente apenas balança a cabeça. Talvez numa tentativa de arrancar uma reação um pouco mais entusiasmada daquele sujeito ranzina, ele acrescenta que pagará adiantado o valor equivalente a uma semana de estadia. Sente uma ponta de frustração quando o gerente simplesmente pede, sem alteração de humor, que o acompanhe até a recepção.
Depois de acertar antecipadamente sua conta, retorna ao quarto, desta vez carregando sua bolsa. Larga-a sobre a cama, leva as mãos à cintura e examina o recinto mais uma vez, como se tentasse torná-lo, com um único olhar, um pouco mais familiar. Decide finalmente averiguar o banheiro. O piso vermelho-sangue forma um contraste nada agradável com as paredes, cobertas até certa altura por azulejos esverdeados. O restante leva uma tinta branca em estado ainda pior do que a do quarto, quase totalmente tomada pelas marcas de umidade. Não há box ou cortina, apenas um rodo, provavelmente inútil. Mas pelo menos há um espelho. Vai até o quarto e pega na bolsa o estojo onde guarda seus objetos de higiene pessoal. Volta ao banheiro, pega o sabonete, lava o rosto e molha os cabelos. Usa a toalha pendurada num gancho ao lado da pia, apenas para confirmar suas suspeitas: fina e áspera demais.
Os cabelos molhados e o frescor no rosto enganam bem. Essa é sua estratégia. Sabe que se tomasse banho agora, se sentiria excessivamente relaxado, deitaria na cama, acabaria dormindo e acordaria no meio da noite; a única garrafa que lhe resta não duraria até a manhã; e então seria tarde demais para encontrar algum mercado aberto. Subitamente, a idéia de sair e fazer um reconhecimento da cidade lhe parece a melhor opção. O passeio poderá, quem sabe, lhe trazer um pouco mais de ânimo. E, claro, lhe dará oportunidade de se reabastecer de bebida. Sorri ao lembrar que, em inglês, a palavra "spirit" é usada para se referir tanto a ânimo quanto a destilados alcóolicos. Espírito.
Tão repentinamente quanto veio, a vontade de sair desaparece. Abre a bolsa mais uma vez, agora para pegar a garrafa quase cheia de uísque nacional vagabundo. Não há interfone ou serviço de quarto naquele hotel e nem mesmo um bar ou restaurante. Ironicamente, quando ainda conhecia esses luxos, o uísque era bom o suficiente para dispensar o gelo. Resolve dar um pulo até a recepção e consultar o gerente ranzinza, que o instrui a seguir o corredor até a área dos fundos, onde há um refeitório e, mais adiante, uma pequena cozinha com fogão e refrigerador.
Percebe que a fachada estreita do hotel o enganou; o terreno é bem mais comprido do que esperava. O refeitório, relativamente amplo, fica numa área aberta, com apenas um trecho coberto por telhas metálicas, onde ficam duas mesas compridas cercadas por bancos, lembrando uma cantina de escola ou acampamento. Há algumas pessoas sentadas: um velho solitário e uma moça que conversa animadamente com dois rapazes. A moça, apesar das medidas fartas do corpo, parece à vontade com o top e o shortinho que veste. Mesmo sem encará-los quando passa, ele é capaz de sentir os olhares de curiosidade (da moça), animosidade (dos rapazes) e indiferença (do velho) em sua direção. Balança a cabeça, numa saudação abreviada, que não chega a ser respondida. Na cozinha, pega dois copos de plástico do pacote junto ao bebedouro e abre a porta do congelador. Encontra duas fôrmas, uma cheia e outra com algumas pedrinhas faltando. Enche os dois copos com gelo e completa a fôrma com água do bebedouro. Quando passa novamente pelo refeitório, não se preocupa em ser educado e ignora os olhares.
De volta ao quarto, senta-se na cama e enche um dos copos com uísque. Bebe um gole e faz uma careta, mas imagina que, na próxima rodada, a bebida barata já não estará tão ruim assim. Pela primeira vez em muitos dias, pergunta-se que diabos está fazendo ali. Não tem saudades de casa e não chega a nutrir sentimentos nostálgicos de espécie alguma; também não se preocupa tanto assim com o dia de amanhã. O que mais o aflige, no momento, é a sensação de estar à deriva, de seguir o fluxo, de estar à mercê do acaso ou de alguma outra força que foge de sua compreensão. Como todo o resto, aliás. Já percebeu que não adianta se debater; isso apenas o cansaria. A única saída, ao seu ver, é continuar, deixar-se ser arrastado pela correnteza e torcer para que saiba o momento certo de começar a nadar e tentar alcançar a margem.
Enche novamente o copo que tem na mão. Olha para o outro, que repousa sobre a cômoda com o abajur, e nota que o gelo já começa a derreter. Bebe mais um gole e sorri, satisfeito, ao constatar que ainda existem pelo menos algumas pequenas certezas na vida: a segunda rodada realmente já lhe parece um pouco melhor. Sente-se disposto outra vez, o suficiente para tomar uma decisão. Assim que terminar aquele copo, irá tomar uma providência concreta a respeito do dia de amanhã: sairá do quarto, se dirigirá à cidade, comprará outra garrafa de uísque vagabundo no mercado e uma cartela de aspirinas na farmácia.



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