Segunda-feira, Julho 30, 2007

[Sobre o hanami e as lembranças]

Atravesso a cidade.
É mais um daqueles lugares em que eu nunca pisei antes.
Mas o Horto acaba me fazendo lembrar de uma porção de outros lugares.
O lago com os pedalinhos me lembra Atibaia.
As enormes pedras no meio das árvores me lembram o Central Park.
O parquinho com os brinquedos de criança no meio das sombras me lembra o Ibirapuera.
Sento-me no banco de madeira e penso em uma porção de pessoas.
Atravesso a tarde.

* * *

Nos fundos da casa do meu tio havia uma sacada, da qual tinha-se uma boa vista da cidade. Lá embaixo, espalhava-se um enorme terreno baldio, coberto de mato, árvores, sucata, entulho e toda a sorte de coisas que atraem crianças curiosas.
Da lateral da sacada, descia uma escada em L, que conduzia ao portão de metal que separava a casa do meu tio do terreno baldio. O portão enferrujado vivia fechado. Mesmo assim, os primeiros degraus da escada também eram cobertos de mato e entulho, como se o terreno baldio simplesmente ignorasse o portão e tentasse subir.
Eu não podia descer a escada, pois todo mundo me dizia que lá embaixo provavelmente havia ratos, aranhas e até escorpiões.
Às vezes, penso que as lembranças são exatamente como a tal sacada na casa do meu tio.

* * *

O hanami é uma espécie de ritual japonês que consiste na apreciação da florada das cerejeiras.
Representa a efemeridade da vida, uma vez que as cerejeiras só florescem durante alguns poucos dias, ao longo do ano todo.
Quando chego ao arboreto, quase já não há mais flores.
Estou atrasado.
Contento-me em pensar que o hanami originalmente servia como uma bênção sobre a colheita do ano.
Representava, portanto, a esperança.

Quarta-feira, Julho 25, 2007

[Wash away my sorrow, take away my pain]

As calçadas estão molhadas.
Não tenho aonde ir, mas não quero ir pra casa.
Parece que a chuva só cai no feixe de luz que sai do poste.
Todo o resto é céu negro.
Tom Waits diz no meu ouvido:
"Huddle a doorway with the rain dogs... For I am a rain dog, too".
E eu, o que sou?
Chuva no feixe de luz?
Ou céu negro?

Segunda-feira, Julho 16, 2007

[À parte]

Não faço idéia do que vocês estão falando.
Não sei por que estão rindo
e nem que música é essa que estão cantando.
Vivo num mundo à parte.
Cubro-me com páginas de um livro
e me fecho em fones de ouvido.
Vou sozinho aos lugares mais bonitos.
Em frente à tela em branco, tenho todas as respostas.
E isso é tudo o que preciso.
Pelo menos é o que digo
à parte de mim que ainda se importa.

Domingo, Julho 08, 2007

[O viajar já é mais que a viagem]

Às vezes é fácil partir.
As ruas estão repletas de histórias passadas.
Cada esquina dispara uma recordação, um cheiro, uma canção.
Mas ainda há milhares de lugares em que nunca pisei antes.
Aqui mesmo, na própria cidade.
Ou a mil e cem quilômetros de distância.
A cada esquina, me deparo com rostos estranhos, aromas exóticos, um burburinho intermitente.
As ruas estão repletas de novas histórias a serem contadas.
E isso torna mais fácil voltar.