Quinta-feira, Maio 31, 2007

[Passatempo]

Coleciono garrafas vazias.
Eu mesmo as fiz.
Na verdade, eu as comprei.
Mas estavam cheias.
Eu mesmo as esvaziei.
São verdes, marrons, cor de âmbar.
Nenhuma delas é totalmente transparente.
(Pois não há nenhuma razão para isso. Há?)
Pensando bem, não estão completamente vazias.
Para cada gole tirado, deixei algo de mim lá dentro.
Troca justa.
Um pouco embriagado, cantarolo baixinho.
"I hope that someone gets my... message in a bottle".

Segunda-feira, Maio 28, 2007

[In-a-gadda-da-vida]

"We are stardust
We are golden
And we've got to get ourselves back to the garden"
(Joni Mitchell, em Woodstock)

O velho professor de paisagismo disserta sobre seres urbanos e a necessidade de se retomar uma maior intimidade com a natureza como forma de combater o estresse e os males da vida moderna.
Penso em Rousseau, que dizia que o homem, em seu estado natural e selvagem, nasceu bom, mas acabou sendo corrompido pela sociedade que ele próprio estabeleceu, trazendo consigo conceitos como orgulho, vaidade e inveja.
Penso nos meus anos de educação católica, durante os quais me disseram que o homem nasceu corrompido pelo pecado original, mas depois acabou tendo seus próprios erros absolvidos pela crucificação de Jesus, de quem ele deve seguir o exemplo, se quiser obter a redenção final e voltar à morada do criador no Éden.
Penso no meu próprio jardim, no qual um dia, ainda criança, encontrei uma chave enterrada; fiquei então me perguntando que portas ela abriria, que segredos enconderia, que tesouros guardaria, sem nunca sequer cogitar a hipótese de que ela poderia simplesmente ter sido jogada ali, sem nenhum propósito específico.
Crianças nunca se contentam com as respostas mais fáceis.

Terça-feira, Maio 15, 2007

[Jet lag]

Olho o relógio.
Tarde demais – não faz mais diferença conseguir dormir ou não.
Deve ser a noite mais fria do ano.
Cogito a hipótese de calçar outro par de meias por cima do que já estou usando.
Durante o verão, meus pés descascam.
No frio, eles parecem estar sempre gelados.
É estranho pensar que a parte do meu corpo responsável por me manter no chão seja assim tão suscetível a mudanças.
Regojizo-me por estar dentro de casa, debaixo das cobertas.
O vento faz a vidraça do quarto vibrar, não sem antes cantar pela fresta na janela do banheiro.
Com um arrepio, lembro-me de uma calçada, uma garrafa de vinho barato e planos grandiosos para mudar a minha vida.
Quando estou bêbado, sou verborrágico.
Bêbado ou com raiva.
Quando estou feliz, sou...
Não sei.
Lembro-me do mar, da praia.
Lembro-me de um verso da canção.
"The world is turning, I hope it don't turn away".
Levanto-me, abro a vidraça e a janela.
Um golpe de ar gelado me atinge no rosto, um tapa.
Logo, vai amanhecer.
E enquanto todo mundo vira a folhinha do calendário, estarei dormindo.
Quando eu finalmente abrir os olhos, será tarde.
Tarde demais.