É uma típica tarde de outono, ensolarada mas com a temperatura amena. Crianças brincam pelas ruas de Kenner, um subúrbio de New Orleans. Um homem com pinta de motoqueiro e uma moça bonita, com longos cabelos negros e lisos, caminham lado a lado pela calçada. A moça diz, polidamente:
— Sinto muito não ter ido à festa, Phil. Eu não tinha com quem deixar a Hallie...
— Não tem problema algum, Emmylou! Além do mais, acho que você não ia curtir, de qualquer maneira. Festa de gente maluca, sabe como é...
— Mas vocês conseguiram arrecadar a grana, não foi?
— Rá! Setecentas pratas pra mim, setecentas pro Mike. E ainda sobrou um pouco pra comprar mais uma rodada de birita pra todo mundo!
Emmylou ri da disposição do amigo. Acrescenta, pensativa:
— Sabe, fico muito feliz que tenha dado tudo certo pra você e pro Mike. Digo, que bom que vocês não tiveram que ficar presos e tal. Mas, se você for pensar bem, uma multa de setecentos dólares é uma punição leve pra quem rouba um cadáver... Não acha isso uma loucura?
— Acho. Mas loucura mesmo é essa história de que, tecnicamente, roubar um cadáver não é crime. A multa foi pelo roubo e destruição do caixão. Do caixão! Era o único motivo que eles tinham pra punir a gente. Rá! Dava pra ver o quanto o juiz e o promotor tavam contrariados. Se dependesse deles, tenho certeza que iam deixar a gente na cadeia por um bom tempo.
Dobram a esquina e se aproximam de uma grande área arborizada, cercada por uma grade de ferro. Emmylou diz:
— Ouvi falar que foi a Gretchen que dedurou vocês...
— Aquela bruxa? Duvido! Ela nem sabia o que a gente ia fazer. O que deve ter acontecido foi o seguinte: a polícia tava investigando o sumiço do corpo, pegou a nossa descrição com o pessoal do LAX e, com base nisso, a Gretchen identificou a gente. Enquanto isso, alguém viu as chamas lá em Joshua Tree, achou que era um incêndio e avisou as autoridades do Parque. Chegando lá, encontraram o que sobrou do caixão. Daí, avisaram a polícia, que a essa altura já tava à nossa procura.
— Mas vocês já tinham voltado pra Los Angeles, não é?
— É. A gente ainda tava no Parque quando viu umas luzes de carro se aproximando. Achamos melhor dar o fora dali rapidinho. Rá! Os tiras foram bater lá na porta de casa. A mesma coisa aconteceu com o Mike. Agora, eu tenho essa “mancha” no meu currículo.
Os dois dão risada, mas logo se calam ao cruzar o portão de ferro do cemitério. Instintivamente, passam a conversar em voz baixa, como que temendo perturbar o sono dos mortos. Phil sussurra:
— Mas a gente não teria conseguido sem a sua ajuda.
— Phil, eu não faço a menor idéia do que você tá falando...
— Ah, é, claro, claro...
Trocam um olhar de cumplicidade. Caminham pela alameda principal, decorada com imponentes ciprestes, a árvore símbolo do estado da Louisiana. Phil olha ao redor e resmunga:
— Aquele velho safado... Conseguiu trazer o Cecil pra cá.
— O padrasto? Bom, mas foi só isso que ele conseguiu. Pelo que eu soube, ele não vai ficar com o espólio.
— Bem feito!
— Ah, Phil, mas você tem que admitir: até que é bonito aqui.
— Humpf. Mas não era isso o que o Cecil queria.
Emmylou sorri. Suspira e diz:
— Lembra quando vocês inventaram essa história de chamá-lo de Cecil?
Phil solta uma risada. Responde:
— Lembro. Rá, o Cecil ficava puto! Não sei por que. Era o nome dele... Aliás, que nome fresco, hein? Cecil Ingram Connor.
— Terceiro.
— Hein? Ah, é! Rarará! E ainda tinha mais essa, eu tinha esquecido: Cecil Ingram Connor III. É, se eu fosse ele, também tinha adotado um nome artístico.
Os dois se desviam do caminho principal e entram por uma alameda mais estreita, que fica quase na escuridão total sob a sombra dos ciprestes. Phil diz:
— Sabe, no começo, eu chamava ele de Cecil só por sacanagem mesmo, pra tirar um sarro. Mas depois, isso ganhou um outro significado. Numa noite, num show em que ele tava particularmente inspirado, eu olhei pra vocês no palco, conquistando totalmente o público, e pensei: “Cara, vai dar certo!”. Naquele momento, eu tive a certeza de que ele ia ficar famoso. A partir daí, chamá-lo de Cecil era uma forma de guardar alguma coisa só pra mim, sabe? O Cecil era o meu amigo, o cara que eu respeitava e admirava. O público podia ficar com o cantor e com o nome artístico.
Emmylou sorri tristemente e envolve os braços de Phil com suas mãos. Caminham por mais alguns instantes, até que ela anuncia:
— É aqui.
Eles param. Não há mausoléu e nem mesmo lápide, apenas uma pequena placa circular de metal no chão, em meio à grama bem aparada. Nela, se lê o nome, as datas de nascimento e de morte e uma inscrição: God’s Own Singer. Phil aperta os olhos para ter certeza de que não leu errado. Olha, incrédulo, para Emmylou e depois volta-se novamente para a placa. Não consegue se conter e rebenta numa gargalhada:
— Puta merda! Além de tudo, o velho é burro! Isso é pra ver o quanto ele tava a par do trabalho do enteado. Tudo bem, os Burrito Brothers gravaram God’s Own Singer, mas será que ninguém avisou pra esse velho pilantra que essa música não era do Cecil? Não era nem mesmo ele que cantava!
Emmylou ri com o amigo:
— Quem não deve ter gostado nada dessa história foi a família do Bernie.
— Rarará! Pobre Bernie. O cara compõe uma música bonita, grava, canta com emoção... E tudo pra quê? Pra depois ela virar epitáfio de outra pessoa.
Ficam ali, parados, até o riso se esgotar. Depois, apenas olham para aquele pedaço de chão. Emmylou quebra o silêncio:
— Ei, quer saber duma coisa legal?
— O que?
— Fiquei sabendo que uns garotos estiveram lá em Joshua Tree. Não sei como, mas parece que eles descobriram o lugar onde você e o Mike fizeram a cremação. Eles passaram lá e deixaram um cartaz, preso com umas pedras.
— Sério?! E o que diz o cartaz?
— Safe at home.
Phil sorri, satisfeito. Pensa que a aventura, enfim, valeu a pena. Deixa escapar uma lágrima. Emmylou coloca a mão em seu ombro e diz:
— Ei, grandalhão. Acho que ele não ia gostar de ver você assim.
— É. Tem razão.
Ele enxuga a lágrima. Respira fundo e pergunta:
— Que tal a gente fazer uma homenagem dum jeito que o Cecil aprovaria?
— Como?
— Vamos tomar um porre!
Emmylou suspira. Diz:
— Phil, você sabe que eu não bebo. Mas... Quer saber? Pro diabo! A gente tem que respeitar a vontade dos mortos!
Phil ri, satisfeito, e oferece o braço, como um cavalheiro. Emmylou aceita. E os dois saem caminhando para fora do cemitério.
FIM.
— Sinto muito não ter ido à festa, Phil. Eu não tinha com quem deixar a Hallie...
— Não tem problema algum, Emmylou! Além do mais, acho que você não ia curtir, de qualquer maneira. Festa de gente maluca, sabe como é...
— Mas vocês conseguiram arrecadar a grana, não foi?
— Rá! Setecentas pratas pra mim, setecentas pro Mike. E ainda sobrou um pouco pra comprar mais uma rodada de birita pra todo mundo!
Emmylou ri da disposição do amigo. Acrescenta, pensativa:
— Sabe, fico muito feliz que tenha dado tudo certo pra você e pro Mike. Digo, que bom que vocês não tiveram que ficar presos e tal. Mas, se você for pensar bem, uma multa de setecentos dólares é uma punição leve pra quem rouba um cadáver... Não acha isso uma loucura?
— Acho. Mas loucura mesmo é essa história de que, tecnicamente, roubar um cadáver não é crime. A multa foi pelo roubo e destruição do caixão. Do caixão! Era o único motivo que eles tinham pra punir a gente. Rá! Dava pra ver o quanto o juiz e o promotor tavam contrariados. Se dependesse deles, tenho certeza que iam deixar a gente na cadeia por um bom tempo.
Dobram a esquina e se aproximam de uma grande área arborizada, cercada por uma grade de ferro. Emmylou diz:
— Ouvi falar que foi a Gretchen que dedurou vocês...
— Aquela bruxa? Duvido! Ela nem sabia o que a gente ia fazer. O que deve ter acontecido foi o seguinte: a polícia tava investigando o sumiço do corpo, pegou a nossa descrição com o pessoal do LAX e, com base nisso, a Gretchen identificou a gente. Enquanto isso, alguém viu as chamas lá em Joshua Tree, achou que era um incêndio e avisou as autoridades do Parque. Chegando lá, encontraram o que sobrou do caixão. Daí, avisaram a polícia, que a essa altura já tava à nossa procura.
— Mas vocês já tinham voltado pra Los Angeles, não é?
— É. A gente ainda tava no Parque quando viu umas luzes de carro se aproximando. Achamos melhor dar o fora dali rapidinho. Rá! Os tiras foram bater lá na porta de casa. A mesma coisa aconteceu com o Mike. Agora, eu tenho essa “mancha” no meu currículo.
Os dois dão risada, mas logo se calam ao cruzar o portão de ferro do cemitério. Instintivamente, passam a conversar em voz baixa, como que temendo perturbar o sono dos mortos. Phil sussurra:
— Mas a gente não teria conseguido sem a sua ajuda.
— Phil, eu não faço a menor idéia do que você tá falando...
— Ah, é, claro, claro...
Trocam um olhar de cumplicidade. Caminham pela alameda principal, decorada com imponentes ciprestes, a árvore símbolo do estado da Louisiana. Phil olha ao redor e resmunga:
— Aquele velho safado... Conseguiu trazer o Cecil pra cá.
— O padrasto? Bom, mas foi só isso que ele conseguiu. Pelo que eu soube, ele não vai ficar com o espólio.
— Bem feito!
— Ah, Phil, mas você tem que admitir: até que é bonito aqui.
— Humpf. Mas não era isso o que o Cecil queria.
Emmylou sorri. Suspira e diz:
— Lembra quando vocês inventaram essa história de chamá-lo de Cecil?
Phil solta uma risada. Responde:
— Lembro. Rá, o Cecil ficava puto! Não sei por que. Era o nome dele... Aliás, que nome fresco, hein? Cecil Ingram Connor.
— Terceiro.
— Hein? Ah, é! Rarará! E ainda tinha mais essa, eu tinha esquecido: Cecil Ingram Connor III. É, se eu fosse ele, também tinha adotado um nome artístico.
Os dois se desviam do caminho principal e entram por uma alameda mais estreita, que fica quase na escuridão total sob a sombra dos ciprestes. Phil diz:
— Sabe, no começo, eu chamava ele de Cecil só por sacanagem mesmo, pra tirar um sarro. Mas depois, isso ganhou um outro significado. Numa noite, num show em que ele tava particularmente inspirado, eu olhei pra vocês no palco, conquistando totalmente o público, e pensei: “Cara, vai dar certo!”. Naquele momento, eu tive a certeza de que ele ia ficar famoso. A partir daí, chamá-lo de Cecil era uma forma de guardar alguma coisa só pra mim, sabe? O Cecil era o meu amigo, o cara que eu respeitava e admirava. O público podia ficar com o cantor e com o nome artístico.
Emmylou sorri tristemente e envolve os braços de Phil com suas mãos. Caminham por mais alguns instantes, até que ela anuncia:
— É aqui.
Eles param. Não há mausoléu e nem mesmo lápide, apenas uma pequena placa circular de metal no chão, em meio à grama bem aparada. Nela, se lê o nome, as datas de nascimento e de morte e uma inscrição: God’s Own Singer. Phil aperta os olhos para ter certeza de que não leu errado. Olha, incrédulo, para Emmylou e depois volta-se novamente para a placa. Não consegue se conter e rebenta numa gargalhada:
— Puta merda! Além de tudo, o velho é burro! Isso é pra ver o quanto ele tava a par do trabalho do enteado. Tudo bem, os Burrito Brothers gravaram God’s Own Singer, mas será que ninguém avisou pra esse velho pilantra que essa música não era do Cecil? Não era nem mesmo ele que cantava!
Emmylou ri com o amigo:
— Quem não deve ter gostado nada dessa história foi a família do Bernie.
— Rarará! Pobre Bernie. O cara compõe uma música bonita, grava, canta com emoção... E tudo pra quê? Pra depois ela virar epitáfio de outra pessoa.
Ficam ali, parados, até o riso se esgotar. Depois, apenas olham para aquele pedaço de chão. Emmylou quebra o silêncio:
— Ei, quer saber duma coisa legal?
— O que?
— Fiquei sabendo que uns garotos estiveram lá em Joshua Tree. Não sei como, mas parece que eles descobriram o lugar onde você e o Mike fizeram a cremação. Eles passaram lá e deixaram um cartaz, preso com umas pedras.
— Sério?! E o que diz o cartaz?
— Safe at home.
Phil sorri, satisfeito. Pensa que a aventura, enfim, valeu a pena. Deixa escapar uma lágrima. Emmylou coloca a mão em seu ombro e diz:
— Ei, grandalhão. Acho que ele não ia gostar de ver você assim.
— É. Tem razão.
Ele enxuga a lágrima. Respira fundo e pergunta:
— Que tal a gente fazer uma homenagem dum jeito que o Cecil aprovaria?
— Como?
— Vamos tomar um porre!
Emmylou suspira. Diz:
— Phil, você sabe que eu não bebo. Mas... Quer saber? Pro diabo! A gente tem que respeitar a vontade dos mortos!
Phil ri, satisfeito, e oferece o braço, como um cavalheiro. Emmylou aceita. E os dois saem caminhando para fora do cemitério.
FIM.


