Sexta-feira, Abril 13, 2007

[In my hour of darkness - Final]

É uma típica tarde de outono, ensolarada mas com a temperatura amena. Crianças brincam pelas ruas de Kenner, um subúrbio de New Orleans. Um homem com pinta de motoqueiro e uma moça bonita, com longos cabelos negros e lisos, caminham lado a lado pela calçada. A moça diz, polidamente:
— Sinto muito não ter ido à festa, Phil. Eu não tinha com quem deixar a Hallie...
— Não tem problema algum, Emmylou! Além do mais, acho que você não ia curtir, de qualquer maneira. Festa de gente maluca, sabe como é...
— Mas vocês conseguiram arrecadar a grana, não foi?
— Rá! Setecentas pratas pra mim, setecentas pro Mike. E ainda sobrou um pouco pra comprar mais uma rodada de birita pra todo mundo!
Emmylou ri da disposição do amigo. Acrescenta, pensativa:
— Sabe, fico muito feliz que tenha dado tudo certo pra você e pro Mike. Digo, que bom que vocês não tiveram que ficar presos e tal. Mas, se você for pensar bem, uma multa de setecentos dólares é uma punição leve pra quem rouba um cadáver... Não acha isso uma loucura?
— Acho. Mas loucura mesmo é essa história de que, tecnicamente, roubar um cadáver não é crime. A multa foi pelo roubo e destruição do caixão. Do caixão! Era o único motivo que eles tinham pra punir a gente. Rá! Dava pra ver o quanto o juiz e o promotor tavam contrariados. Se dependesse deles, tenho certeza que iam deixar a gente na cadeia por um bom tempo.
Dobram a esquina e se aproximam de uma grande área arborizada, cercada por uma grade de ferro. Emmylou diz:
— Ouvi falar que foi a Gretchen que dedurou vocês...
— Aquela bruxa? Duvido! Ela nem sabia o que a gente ia fazer. O que deve ter acontecido foi o seguinte: a polícia tava investigando o sumiço do corpo, pegou a nossa descrição com o pessoal do LAX e, com base nisso, a Gretchen identificou a gente. Enquanto isso, alguém viu as chamas lá em Joshua Tree, achou que era um incêndio e avisou as autoridades do Parque. Chegando lá, encontraram o que sobrou do caixão. Daí, avisaram a polícia, que a essa altura já tava à nossa procura.
— Mas vocês já tinham voltado pra Los Angeles, não é?
— É. A gente ainda tava no Parque quando viu umas luzes de carro se aproximando. Achamos melhor dar o fora dali rapidinho. Rá! Os tiras foram bater lá na porta de casa. A mesma coisa aconteceu com o Mike. Agora, eu tenho essa “mancha” no meu currículo.
Os dois dão risada, mas logo se calam ao cruzar o portão de ferro do cemitério. Instintivamente, passam a conversar em voz baixa, como que temendo perturbar o sono dos mortos. Phil sussurra:
— Mas a gente não teria conseguido sem a sua ajuda.
— Phil, eu não faço a menor idéia do que você tá falando...
— Ah, é, claro, claro...
Trocam um olhar de cumplicidade. Caminham pela alameda principal, decorada com imponentes ciprestes, a árvore símbolo do estado da Louisiana. Phil olha ao redor e resmunga:
— Aquele velho safado... Conseguiu trazer o Cecil pra cá.
— O padrasto? Bom, mas foi só isso que ele conseguiu. Pelo que eu soube, ele não vai ficar com o espólio.
— Bem feito!
— Ah, Phil, mas você tem que admitir: até que é bonito aqui.
— Humpf. Mas não era isso o que o Cecil queria.
Emmylou sorri. Suspira e diz:
— Lembra quando vocês inventaram essa história de chamá-lo de Cecil?
Phil solta uma risada. Responde:
— Lembro. Rá, o Cecil ficava puto! Não sei por que. Era o nome dele... Aliás, que nome fresco, hein? Cecil Ingram Connor.
— Terceiro.
— Hein? Ah, é! Rarará! E ainda tinha mais essa, eu tinha esquecido: Cecil Ingram Connor III. É, se eu fosse ele, também tinha adotado um nome artístico.
Os dois se desviam do caminho principal e entram por uma alameda mais estreita, que fica quase na escuridão total sob a sombra dos ciprestes. Phil diz:
— Sabe, no começo, eu chamava ele de Cecil só por sacanagem mesmo, pra tirar um sarro. Mas depois, isso ganhou um outro significado. Numa noite, num show em que ele tava particularmente inspirado, eu olhei pra vocês no palco, conquistando totalmente o público, e pensei: “Cara, vai dar certo!”. Naquele momento, eu tive a certeza de que ele ia ficar famoso. A partir daí, chamá-lo de Cecil era uma forma de guardar alguma coisa só pra mim, sabe? O Cecil era o meu amigo, o cara que eu respeitava e admirava. O público podia ficar com o cantor e com o nome artístico.
Emmylou sorri tristemente e envolve os braços de Phil com suas mãos. Caminham por mais alguns instantes, até que ela anuncia:
— É aqui.
Eles param. Não há mausoléu e nem mesmo lápide, apenas uma pequena placa circular de metal no chão, em meio à grama bem aparada. Nela, se lê o nome, as datas de nascimento e de morte e uma inscrição: God’s Own Singer. Phil aperta os olhos para ter certeza de que não leu errado. Olha, incrédulo, para Emmylou e depois volta-se novamente para a placa. Não consegue se conter e rebenta numa gargalhada:
— Puta merda! Além de tudo, o velho é burro! Isso é pra ver o quanto ele tava a par do trabalho do enteado. Tudo bem, os Burrito Brothers gravaram God’s Own Singer, mas será que ninguém avisou pra esse velho pilantra que essa música não era do Cecil? Não era nem mesmo ele que cantava!
Emmylou ri com o amigo:
— Quem não deve ter gostado nada dessa história foi a família do Bernie.
— Rarará! Pobre Bernie. O cara compõe uma música bonita, grava, canta com emoção... E tudo pra quê? Pra depois ela virar epitáfio de outra pessoa.
Ficam ali, parados, até o riso se esgotar. Depois, apenas olham para aquele pedaço de chão. Emmylou quebra o silêncio:
— Ei, quer saber duma coisa legal?
— O que?
— Fiquei sabendo que uns garotos estiveram lá em Joshua Tree. Não sei como, mas parece que eles descobriram o lugar onde você e o Mike fizeram a cremação. Eles passaram lá e deixaram um cartaz, preso com umas pedras.
— Sério?! E o que diz o cartaz?
Safe at home.
Phil sorri, satisfeito. Pensa que a aventura, enfim, valeu a pena. Deixa escapar uma lágrima. Emmylou coloca a mão em seu ombro e diz:
— Ei, grandalhão. Acho que ele não ia gostar de ver você assim.
— É. Tem razão.
Ele enxuga a lágrima. Respira fundo e pergunta:
— Que tal a gente fazer uma homenagem dum jeito que o Cecil aprovaria?
— Como?
— Vamos tomar um porre!
Emmylou suspira. Diz:
— Phil, você sabe que eu não bebo. Mas... Quer saber? Pro diabo! A gente tem que respeitar a vontade dos mortos!
Phil ri, satisfeito, e oferece o braço, como um cavalheiro. Emmylou aceita. E os dois saem caminhando para fora do cemitério.

FIM.

Quarta-feira, Abril 11, 2007

[In my hour of darkness - Parte 6]

O sol já se põe no horizonte quando o carro funerário finalmente chega ao Parque Nacional Joshua Tree. Trata-se de uma grande extensão de terra no sudeste da Califórnia, localizada entre os condados de San Bernardino e Riverside. A paisagem é desértica, repleta de exemplares da planta que dá nome ao Parque – a Yucca brevifolia, cujos galhos sempre apontam para cima e que por isso acabou sendo apelidada pelos mórmons de “Joshua tree”, ou “árvore de Josué”, uma referência ao líder hebreu que teria erguido os braços aos céus, implorando a Deus que parasse o sol.
O carro sai da trilha e segue trepidante pelo deserto, desviando das pedras e das yuccas. Depois de algum tempo, pára ao lado de uma enorme formação rochosa conhecida como Cap Rock. Os dois ocupantes descem, trôpegos. Abrem o bagageiro e, com alguma dificuldade, removem o caixão, colocado-o no chão. Phil encontra no porta-malas a última garrafa de Jack Daniel’s que ainda não está vazia e estica o corpo para alcançá-la, enquanto Mike senta-se em uma pedra um pouco mais lisa, cansado de tanto dirigir. Phil junta-se a ele e oferece um gole de bourbon. Mike recusa e começa a enrolar um baseado. A escuridão já começa a envolvê-los, mas Phil ainda está com os óculos de sol. Ele diz:
— Lembro direitinho do dia em que conheci o Cecil.
Mike não responde, apenas olha para o amigo, enquanto lambe o papel de seda. Phil continua:
— Foi na época em que eu trabalhava com os Stones. Tava com o pessoal no estúdio, quando o Keith chegou com o Cecil e nos apresentou. Rá! A primeira impressão que eu tive foi que ele era meio afeminado. Ele já usava aquelas calças de veludo e aqueles lenços de seda, lembra? Naquela época, eu não curtia música country, achava que era coisa de caipira. Mas com o tempo, conforme o Cecil foi mostrando umas coisas pro Keith e pros caras, eu acabei aprendendo um pouco também, por tabela.
Mike acende o baseado, fuma um pouco e depois passa para Phil, que dá um trago, prende e, enquanto solta a fumaça lentamente, olha ao redor e diz:
— O Cecil e o Keith costumavam vir bastante pra cá. Eles chapavam e depois ficavam olhando pro céu, procurando disco voador. Rá! Disco voador... Com o tanto de droga que eles traziam pra cá, devem ter visto de tudo.
Cala-se por um instante. Cospe no chão e depois toma um generoso gole de bourbon. Devolve o baseado para Mike. Quando fala novamente, seu tom de voz é ligeiramente diferente:
— Aquele puto do padrasto do Cecil... Eu sei bem por que ele queria levar o corpo pra New Orleans. Ele queria era enrolar a lei. Queria estabelecer a residência do Cecil na Louisiana enterrando ele lá. Assim, pela lei do estado, o velho ia poder tentar ficar com o espólio.
Mike tosse. Passa o baseado para Phil e pergunta, confuso:
— Isso é sério, Phil? Que merda! Como você ficou sabendo? Ah, já sei, você prometeu à pessoa que não ia contar... Mas você acha que o velho ia ser mesmo capaz de alguma coisa assim?
— Parece que sim. Nunca conheci o sujeito pessoalmente, mas pelo que o Cecil falava, ele não deve ser flor que se cheire. Bom, a única coisa que eu tenho certeza é que o Cecil não ia querer que o velho ficasse com o espólio. E, além disso, o Cecil também não tinha nada a ver com New Orleans.
Phil se levanta. Dá um trago no baseado e o devolve para Mike. Bebe outro gole e diz, apontando para a paisagem:
— O Cecil tinha a ver com isso daqui. Foi pra cá que ele quis vir pra comemorar a finalização do disco novo. Foi aqui que ele... Foi aqui que ele descansou. E é aqui que ele vai ficar, pra se encontrar com as forças cósmicas ou seja lá que diabo que ele acreditava.
Ele vai até o carro. Mike tenta acompanhá-lo com o olhar, mas já está escuro demais. Quando volta, Phil deixa um objeto pesado próximo ao caixão e atira alguma coisa para Mike, enquanto diz:
— Isso aqui é um funeral, amigo. Vamos nos vestir apropriadamente pra ocasião.
Mike examina o objeto que Phil lhe jogou. É sua jaqueta, a que traz a inscrição Sin City bordada nas costas. Phil tem uma igual, que ele está vestindo. Mike acha uma boa idéia e imita o amigo – afinal, a noite é fria ali no deserto. Além disso, Phil tem razão: são os trajes apropriados para a ocasião. A inscrição na jaqueta é o título de uma música escrita por Cecil, em parceria com Chris Hillman, que foi gravada pelos Flying Burrito Brothers. Todos que viajavam com a banda tinham uma jaqueta daquela. Era uma espécie de uniforme. E eles eram uma espécie de gangue. Uma espécie de família.
Phil deixa a garrafa com o amigo e pega o objeto pesado. Mike bebe um gole e pergunta:
— O que é isso?
— Gasolina. Peguei quando paramos lá no posto.
Mike abre a boca, parece querer dizer algo, mas permanece calado. Phil tira os óculos e abre o caixão. Mike vira o rosto. Phil começa a jogar gasolina sobre o corpo. Ele se concentra na idéia de que aquilo ali, aquela massa inerte de carne e ossos, não é seu amigo. Depois de ensopar o cadáver, joga o líquido no próprio caixão, na parte de dentro e de fora também, até esvaziar o galão. Enfia a mão na jaqueta e pega uma caixa de fósforos, daquelas de hotel. Acende um, usa-o para acender os outros e joga tudo dentro do caixão. Dá um chute no tampo para fechá-lo. Depois de algum tempo, a fumaça começa a subir, juntamente com o cheiro – uma mistura de tecido, madeira e carne queimados. Mike vomita.
Ficam ali, em silêncio, durante algum tempo. As chamas agora já estão altas. Os olhos de Phil estão lacrimejando, um pouco por causa da fumaça, um pouco por causa do momento. Ele respira fundo e olha em torno de si. Vê as silhuetas das yuccas e algumas fagulhas que escapam daquela pira funerária, formando um cenário um tanto quanto fantasmagórico, sobrenatural. Pode ser apenas efeito do THC, misturado com a enorme quantidade de álcool que consumiu ao longo do dia, mas Phil pensa enxergar algumas luzes ao longe, no horizonte. Ele sorri, imaginando que talvez seja algum disco voador que reconheceu Cecil pela cor da fumaça e veio prestar sua última homenagem.
Um lampejo de sobriedade atinge Phil como um raio. Aquelas luzes, que de fato estão brilhando no horizonte, não são de um disco voador. São de um automóvel. Talvez seja a polícia.

(Continua...)

Segunda-feira, Abril 09, 2007

[In my hour of darkness - Parte 5]

Impaciente, Phil acende mais um cigarro e toma outro gole de bourbon. A essa altura, já desistiu do copo e bebe direto do gargalo. Sentado na varanda de sua casa, ele olha, a cada cinco minutos, para os dois lados da rua, esperando por alguém. Até que um carro preto encosta e Phil aperta os olhos, como se não acreditasse no que está vendo – um carro funerário todo caindo aos pedaços, empoeirado, com a lataria amassada e os vidros traseiros ausentes. Ele se levanta e tudo o que consegue dizer é:
— Mas que merda é...
A porta do motorista se abre e quem salta é Mike, que o cumprimenta, risonho:
— E aí, Phil, o que achou?
— Você tá atrasado.
— Qual é, dá um tempo. Você acha que foi fácil convencer a Dale a me emprestar o carro sem contar pra onde eu ia?
— Ah, é? Eu jurava que a Dale não tinha emprestado e aí você passou num ferro-velho e arrumou isso daí.
— Bom, ele tá meio judiado mesmo, mas...
— “Judiado”?! Você acha que alguém vai acreditar que isso aí é... Ah, quer saber? Que se dane! Trouxe o terno?
Mike faz uma careta:
— Trouxe.
— Então vamos nos trocar.
Eles entram na casa. Phil vai para o quarto, onde largou seu único traje social pendurado num cabide. Mike fica no banheiro, usa o espelho para tentar fazer um nó de gravata minimamente decente. Os dois se esbarram no corredor e se medem – nenhum deles consegue conter o riso.
— Porra, Phil, você tá ridículo...
— Ah, e você acha que tá bonito?
Phil se olha no espelho e balança a cabeça. Diz:
— É o seguinte: vamos tirar essa merda. Nossas roupas normais combinam melhor com aquela lata velha que você arrumou.
— Tem certeza?
— Tenho. Mas vamos logo.
Depois de uma rápida troca, eles entram no carro e partem rumo ao LAX, Aeroporto Internacional de Los Angeles. Mike, que vai dirigindo, pergunta:
— Você tem certeza que a informação é quente?
— Tenho: LAX, hoje à tarde.
— E chegando lá, o que a gente faz?
— Deixa comigo. Tenho tudo planejado. Trouxe até a “papelada”.
Phil estende alguns papéis. Mike mantém uma das mãos no volante e examina os documentos com a outra. Pergunta:
— Falsificados?
— Lógico.
— Porra, onde você arrumou isso?!
— Prometi à pessoa que eu não contaria pra ninguém.
Chegando no Aeroporto, Mike, nervoso, deixa que Phil fale com os funcionários. E fica impressionado com a desenvoltura do amigo – por um instante, até ele chega a acreditar que estão numa “missão oficial”. Finalmente, encostam numa das docas de carregamento – uma espécie de hangar, onde uma caminhonete está estacionada com um caixão repousando na caçamba. Mike estaciona e Phil desce do carro. Estende seus papéis para os dois rapazes que estão ali e anuncia:
— Aí, pessoal. Viemos buscar o caixão. A família resolveu que vai embarcá-lo num vôo fretado.
Os dois funcionários parecem confusos. De onde está, Mike não consegue ouvir o que dizem, mas imagina que Phil esteja caprichando ainda mais na lábia. Após alguns minutos, que mais parecem uma eternidade, Phil lança um olhar para Mike, como que dizendo que está tudo certo, e entra com os dois homens em uma sala que funciona como escritório. Lá dentro, Phil inclina-se para assinar algum documento qualquer. Mike respira aliviado. Os três saem do escritório e se dirigem para a caminhonete. Mike desce do carro e rapidamente se junta a eles. Os quatro seguram o caixão, tiram-no da caçamba e o carregam em direção ao carro funerário.
Nesse exato momento, no entanto, um carro da polícia encosta na porta do hangar. Phil e Mike trocam um rápido olhar apreensivo, mas continuam carregando. Mike abre nervosamente o bagageiro, enquanto Phil discretamente observa o policial, que desce da viatura e permanece ali parado, em pé, durante alguns segundos. Depois, o policial caminha em direção a uma cadeira próxima à entrada do hangar e se senta calmamente. Phil suspira. Os quatro ajeitam o caixão dentro do rabecão. Phil aperta as mãos dos dois funcionários. Mike rapidamente volta para o banco do motorista. Phil abre a porta do passageiro, mas ao invés de entrar, volta-se para o policial sentado na cadeira:
— Oficial? O senhor poderia afastar o carro pra gente passar?
O policial levanta-se rapidamente, pede desculpas e entra na viatura. Dá ré, mas libera pouco espaço, apenas o suficiente para passar um veículo. Nervoso, Mike acelera demais e acaba batendo num muro do aeroporto, já do lado de fora do hangar. Sussura:
— Merda!
Eles observam os dois funcionários correndo até a porta do hangar para ver o que aconteceu, enquanto o policial sai novamente da viatura e caminha em direção ao carro funerário. Ele dá uma olhada no muro, avalia a traseira do rabecão e então pára ao lado da porta do motorista. Ele se inclina, balançando negativamente a cabeça, e diz para Mike:
— Rapaz, eu não queria estar no seu lugar nesse momento...
Como o policial não diz mais nada, Phil arrisca:
— Pois é, oficial. Esse cara aqui é muito “braço”. Reparou como a lataria já tá toda amassada?
O policial solta um riso curto e se afasta, caminhando de volta para o hangar. Da maneira mais calma que consegue, Mike manobra o carro preto. Ele e Phil permanecem calados até a saída do Aeroporto. Assim que observam LAX se distanciar pelo espelho retrovisor, os dois explodem numa gargalhada que mistura nervosismo e alívio. Mike suspira e pergunta:
— E agora?
Phil coloca seus óculos rayban, esparrama-se confortavelmente no banco e responde:
— Agora pega a interestadual 10. Vamos pra Joshua Tree.

(Continua...)

Quinta-feira, Abril 05, 2007

[In my hour of darkness - Parte 4]

O ar está impregnado com o cheiro enjoativo das flores, dúzias delas – todas arranjadas em coroas, que adornam o caixão de madeira escura colocado em frente ao altar. Pessoas com semblante grave – algumas trajando luto, outras vestidas informalmente – ocupam os bancos mais próximos. Poucos reparam na moça bonita, de cabelos negros, longos e lisos, que adentra a igreja. Ela caminha por um dos corredores laterais e observa os presentes, como se procurasse por alguém. Cumprimenta algumas pessoas com um meneio de cabeça, até que seu olhar se detém em uma das fileiras. Ela caminha até lá, pede licença a duas senhoras sentadas na ponta do banco e chega até Phil, que lhe saúda com um abraço afetuoso:
— Oi, Emmylou!
— Ei, Phil. Bom te ver.
— É. Pena que seja numa ocasião como essa.
Ambos lançam um olhar para o caixão. Emmylou suspira e diz:
— Que coisa horrível! Pobre Clarence! Morrer assim, atropelado... Ainda não caiu a ficha, sabe? Meses atrás, ele tava em turnê com a gente.
— Um desperdício. O Clarence era um músico fabuloso. E um cara muito doce.
Ficam em silêncio, cada um perdido em suas próprias lembranças do amigo morto. Phil olha ao redor, franze o cenho e volta-se para Emmylou:
— E cadê o Cecil? Achei que ele ia estar lá no primeiro banco. Ele e o Clarence se davam tão bem...
— Na hora em que eu cheguei, encontrei ele lá fora.
Phil vira-se para trás.
— Mas ele não vai entrar?
Emmylou dá de ombros e balança a cabeça resignadamente, como se estivesse se referindo a uma criança que não toma jeito:
— Sabe como ele é... Disse que prefere esperar lá fora.
Ela olha furtivamente para os lados, depois sussura para Phil:
— E acho bom mesmo. Ele tá completamente bêbado.
Phil tenta esconder o sorriso. O padre dá início ao serviço. Discursa sobre fatalidades e os desígnios de Deus. Convida todos os presentes a uma prece. Em seguida, chama os irmãos do morto para que digam algumas palavras. Dois rapazes dirigem-se ao púlpito – um deles tem os olhos vermelhos e o rosto inchado, o outro traz um dos braços enfaixado e apoiado numa tipóia. É o da tipóia quem fala – cita recordações de infância, lembra o talento musical do irmão. O outro permanece calado, com a cabeça baixa. Depois disso, retornam ao banco onde estavam, onde são recebidos com abraços e tapas nas costas. Mais algumas orações e o padre dá por encerrados os ritos. É hora de conduzir o caixão – os dois irmãos e outros quatro homens se encarregam da tarefa, o cortejo segue atrás.
Do lado de fora, Phil e Emmylou encontram Cecil e Mike, cumprimentam-se apenas com olhares e mãos nos ombros. Ninguém diz nada e assim permanecem até o jazigo, onde já está tudo preparado. Os irmãos choram, assim como algumas senhoras. Cecil, visivelmente abalado, também não consegue conter as lágrimas. E é dele a voz que quebra o silêncio, enquanto o caixão é levado para o fundo da sepultura:
— “When death has come and taken our loved ones, it leaves our homes so lonely and drear...
Todos os olhares se voltam para Cecil, que, de olhos fechados, continua entoando a velha canção country. Um dos presentes – um homem parado quase ao lado de Phil – passa a acompanhá-lo:
— “Then shall we wonder why others prosper living so wicked year after year...
Logo, todas aquelas pessoas estão cantando o refrão, ao mesmo tempo em que os funcionários do cemitério cobrem o caixão com terra:
— “Farther along we’ll know more about it. Farther along we’ll understand why. Cheer up, my brother, come sing in the sunshine. We’ll understand it all by and by...
Quando a cerimônia termina, o clima é um pouco mais leve, provavelmente graças à beleza da melodia, que ainda ecoa no ar. Um dos irmãos – o que permaneceu calado no púlpito – se aproxima de Cecil e diz, com sinceridade:
— Muito obrigado pela música. Foi comovente. Tenho certeza que meu irmão teria gostado.
Os dois se abraçam durante algum tempo. Emmylou se aproxima e fala com o homem. Cecil chama Phil para o canto e desabafa:
— Cara, eu não quero nada disso pra mim, tá entendendo?
Ele segura Phil pelo braço, aperta com força. Prossegue:
— Você tem que me prometer uma coisa.
— Pode falar, cara.
— A gente vai fazer um pacto. Quando um de nós dois morrer, o outro vai ter que levar o corpo até Joshua Tree...
— Joshua Tree? O Parque?
— É. Quando um morrer, o outro vai ter que levar o corpo até lá, dizer algumas palavras e cremar. E fim de papo. Sacou?
Phil fica incomodado com o tom lúgubre da conversa e tenta quebrar o gelo:
— Ei, Cecil, vai com calma, parceiro. Pelo tanto de uísque que eu imagino que você já tomou, é melhor tomar cuidado. Se alguém acender um cigarro perto de você, a cremação vai ser hoje mesmo.
Mike, que está perto e ouviu toda a conversa, deixa escapar um riso nervoso. Mas Cecil permanece sério. Ele estende a mão para Phil e pergunta:
— Temos um pacto ou não?
Phil hesita por alguns segundos. Depois, aperta a mão do amigo.

(Continua...)

Terça-feira, Abril 03, 2007

[In my hour of darkness - Parte 3]

Três pancadas secas (Phil faz tudo o que pode para evitar as campainhas; elas lembram-no do tinnitus) e depois de alguns instantes a porta do apartamento se abre, revelando Mike com um ar abatido. Sem dizer uma só palavra, os dois se abraçam e assim permanecem por longos minutos. Em seguida, com um tapa nas costas e um aceno com a cabeça, Mike convida o amigo para entrar. Pergunta:
— Vai um trago aí, Phil?
Phil já havia adivinhado o cheiro de bourbon no hálito de Mike. E mesmo tendo passado as últimas horas empenhado em esvaziar uma garrafa de vodka sozinho, ele aceita sem pestanejar:
— Claro.
Cada um pega seu copo e se ajeita na pequena e bagunçada sala do apartamento – o dono da casa se esparrama num sofá, enquanto Phil ocupa uma velha poltrona com o tecido todo puído. Novamente, o silêncio. Tudo o que se ouve é o barulho dos carros lá fora, na sempre agitada noite de Los Angeles. Enfim, Mike fala, titubeante:
— E... As garotas?
Phil sorve um pequeno gole e deixa o líquido aquecer a boca, apreciando calmamente o sabor do Jack Daniel’s. Com a mesma tranqüilidade, responde:
— Eu as trouxe pra cá ontem de madrugada. Deixei as duas na casa da Dale.
Mike franze o cenho:
— Mas... Deu tudo certo?
— Você quer dizer com a lei? Da nossa, parte sim. Mas o xerife deve estar lá esperando a gente até agora. Rá!
Faz uma pausa para mais um gole. Mike parece incrédulo:
— Então quer dizer que vocês... Fugiram?
— Ninguém fugiu de nada, Mike, porque não existe intimação. Ainda... O xerife queria que elas prestassem depoimento pra esclarecer, hum, as circunstâncias. E, pelo que a Margareth me contou, não tinha como elas dizerem a verdade sem complicar as coisas pra elas. Podia sobrar até pra você, se soubessem o que você veio fazer aqui. Enfim, eu fiz a única coisa que eu podia: cheguei lá no hotel, dispensei toda a droga no meio do deserto, pus as meninas no carro e trouxe elas de volta pra cá. E o xerife ficou a ver navios. Pelo menos por enquanto...
Phil interrompe-se ao perceber que o amigo está soluçando. Mike diz, choroso:
— Merda, Phil! A culpa é toda minha...
— Qual é, Mike, do quê você tá falando?
— Eu tinha que vigiar o Cecil, era minha obrigação. Mas ele me convenceu a voltar pra L.A. pra buscar maconha pra gente. Eu achei que tudo bem, que era melhor um fuminho do que qualquer outra coisa mais pesada. Eu não devia ter saído de lá, Phil. Não devia...
Mike cobre o rosto com as mãos. Phil inclina-se na poltrona para chegar mais perto do amigo. Diz, com firmeza:
— Ei, pára de falar bobagem. É normal se sentir culpado. Olha só, a Margareth me contou que, naquela noite, o Cecil já tinha apagado uma vez. Mas ela e a Dale conseguiram fazer ele recobrar a consciência. Depois, a Margareth saiu pra comprar alguma coisa pro jantar. Foi nesse hora que... Foi nessa hora que ele apagou de vez. A Margareth se culpa por ter saído. A Dale se culpa por não ter chamado logo o resgate, ao invés de tentar reanimar o Cecil de novo. Eu me culpo por não ter estado lá na hora. Todo mundo se culpa.
Phil faz uma pausa, enxuga uma lágrima solitária que escapa do olho e bebe num só gole todo o restante do conteúdo do copo. Acende um cigarro e prossegue:
— A verdade é que o Cecil vacilou. Cometeu um erro primário. Ele tava limpo há um tempão e, quando resolveu se drogar de novo, achou que podia agüentar a mesma quantidade que antes. Céus, a Margareth contou que ele mandou ver na heroína e na morfina. Sem falar que ele tinha passado o dia inteiro bebendo...
Os dois ficam em silêncio – Mike soluçando e Phil tentando conter as lágrimas que agora escorrem em profusão. Até que Phil se levanta, decidido, e diz:
— Não foi pra isso que eu vim aqui. Sabe o que eu descobri? Que o padrasto do Cecil quer levar o corpo pra New Orleans e enterrá-lo lá. New Orleans!
Mike parece confuso. Acende um cigarro e pergunta:
— Mas por que? Quem te contou isso? A Gretchen?
— Rá! Claro que não. Aquela mulher me odeia. Acho que ela pensa que eu é que levava o Cecil pro mau caminho. Eu seria muito presunçoso se pensasse que eu fui uma das causas pro divórcio deles, mas tenho certeza que eu ajudei. Não, eu soube disso por, hum, outras fontes. Mas não é isso o que importa.
Phil pega a garrafa de Jack Daniel’s na mesa e enche o seu copo. Dirige-se até a janela e observa as luzes da cidade. Solta uma baforada do cigarro e diz, mais para si mesmo do que para o amigo:
— O que importa é que eu fiz uma promessa. E pretendo cumprí-la.

(Continua...)