Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

[O Céu]

Era apenas uma caixa retangular azul, feita de papelão. Mas meu pai entrou em casa carregando-a com pompa suficiente para deixar todo mundo curioso. Dentro dela havia uma luneta branca e um tripé com pernas metálicas e pequenos pés de borracha preta. Meu irmão e eu ficamos alvoroçados, mas minha mãe nem deu bola. Terminado o jantar, meu pai montou a luneta no quintal. Era uma noite de céu limpo e, depois de um bom tempo posicionando e ajustando o foco, ele deixou a gente olhar. Vi a lua crescente, que de tão perto parecia caber na mão. Naquelas manchas cinzas, insondáveis a olho nu, era possível pereceber o contorno das crateras.
A partir de então, observar o céu tornou-se um hábito nosso, que logo extrapolou os muros do quintal. Toda que vez que íamos viajar, a luneta tinha seu cantinho reservado no porta-malas do carro. Longe das luzes e da poluição da cidade, a experiência se mostrava ainda mais emocionante. Foi assim, por exemplo, que descobri que existem estrelas de diferentes cores: brancas, azuis, vermelhas, douradas. Com o tempo (e, claro, depois de algumas visitas ao planetário), fui aprendendo a localizar uma ou outra constelação. Uma das minhas preferidas era o Cruzeiro do Sul, que, além de ser fácil de encontrar, era também a que eu achava mais divertida, pelo simples fato de a quinta estrela se chamar "Intrometida" – uma prova cabal do bom-humor dos astrônomos. Também gostava das Três Marias. Gabava-me de saber que elas formam, na verdade, o cinturão de Orion e de ter decorado seus nomes (Mintaka, Alnilan e Alnitaka).
Meu pai, no entanto, era bastante ciumento com a luneta. Só ele podia ajustá-la. Eu e meu irmão podíamos olhar, desde que lavássemos as mãos antes (meu pai dizia que, caso contrário, nós acabaríamos sujando-a e engordurando-a). Uma vez, fomos acampar. Eu e meu irmão estávamos brincando com outras crianças, até que começou a escurecer e achamos melhor voltar para a barraca. Notei que os primeiros pontinhos brilhantes já começavam a tingir o céu e pensei que o pai bem que podia aproveitar e montar a luneta. De fato, quando já estávamos chegando, pudemos vê-lo do lado de fora, sentado num banco, divertindo-se com seu brinquedinho. Fui até ele correndo, disse que também queria ver e, sem esperar a resposta, já fui me colocando diante do visor. Nem tive tempo de olhar coisa alguma – apenas senti um beliscão forte no meu braço, que imediatamente me fez gemer e chorar.
Ríspido, meu pai perguntou se por acaso eu tinha esquecido que só podia mexer na luneta depois de lavar as mãos. O banheiro do camping ficava longe da barraca e no percurso até lá meu irmão foi dando risada e tirando sarro por eu ter levado bronca. Como ele continuava a me encher a paciência, parei na metade do caminho e sentei-me debaixo duma árvore, deixando que ele seguisse sozinho. Irritado com a zombaria do meu irmão e ainda sentindo a dor do beliscão, abaixei a cabeça e comecei a soluçar. Não sei quanto tempo fiquei ali sozinho, até que ouvi uma voz:
— Você se perdeu?
Era uma mulher, estava parada bem diante de mim. Naquele momento, eu não estava nem um pouco a fim de conversar, por isso nem me dei ao trabalho de olhar para cima para ver seu rosto. Tudo o que enxerguei dela foi o que estava em meu campo de visão: seus pés descalços e suas canelas. Pude notar que usava um vestido branco. A pele também era alva, mas curiosamente não chegava a ser pálida. Como ao invés de responder eu continuei soluçando, ela disse:
— Se você está perdido, ficar aí olhando para o chão não vai ajudar em nada, sabia?
Abaixei ainda mais a cabeça, apoiando a testa nos joelhos, abracei minhas pernas e me encolhi todo. Gritei:
— Me deixa em paz!
Durante alguns instantes, não escutei nenhuma resposta. Depois de um tempo, senti um cutucão. Levantei a cabeça, pronto para perguntar se ela era surda, mas a mulher não estava mais lá. Era meu irmão quem havia me cutucado. Ele me chamou de bobo e perguntou se eu não ia lavar as mãos. Um pouco confuso, levantei-me e pus-me em direção ao banheiro. Não vi nem sinal da mulher. Quando voltei, meu pai e meu irmão estavam olhando na luneta, mas preferi entrar na barraca e deitar do lado da minha mãe, que fazia palavras cruzadas.
Os anos foram passando e as viagens em família foram se tornando cada vez mais raras. Nunca mais houve noites de céu limpo no quintal de casa. E a caixa retangular azul de papelão foi juntando poeira, guardada em algum canto do armário na área de serviço.

* * *

Pedi informação na banca de jornal e o rapaz me disse que era só seguir pela via em que os carros estavam estacionados. No final do pavilhão, avistei o prédio em formato de disco voador. Chegando mais perto, vi que já havia uma grande fila na entrada. Fui até a bilheteria reservada para retirada de ingressos comprados pela internet e peguei o meu. Entrei na fila, formada por um monte de crianças acompanhadas dos pais, idosos e algumas poucas pessoas da minha idade. Notei que, pintada no chão, bem em frente à entrada do planetário, havia um rosa dos ventos – tinha me esquecido completamente desse detalhe. Quando finalmente entrei, reparei que minha memória havia me traído mais uma vez: a sala era bem menor do que eu esperava.
Logo à frente, um sinal de modernização: o antigo projetor – que, nas minhas lembranças de criança, se parecia com uma enorme formiga – havia sido substituído por um menor, mais compacto e, segundo dizia o artigo na internet, muito mais potente. Outras coisas, no entanto, permaneciam antiquadamente iguais: na iminência do início da sessão, o único membro da equipe do planetário que permaneceu dentro da sala foi um rapaz segurando uma daquelas lanterninhas do tipo "laser pointer", cuja função certamente era apontar os corpos celestes aos quais o locutor iria se referir.
Lembrei-me de como o planetário simulava o pôr-do-sol no início de cada sessão, projetando uma luz avermelhada que ia sumindo aos poucos detrás da silhueta da cidade. Na nova versão, esse efeito foi substituído por um céu nublado que aos poucos vai se limpando, revelando as estrelas e provocando um impacto muito maior, que quase espremeu uma lágrima no canto do meu olho. O roteiro da apresentação é repetitivo e cansativo – uma prova cabal de que os astrônomos, apesar do seu bom-humor, definitivamente não sabem escrever. Mesmo assim, o programa foi tão emocionante quanto eu me lembrava. Saí do planetário prometendo a mim mesmo que não demoraria para voltar.
Lá fora, o sol já estava se pondo. Pensativo, fui caminhando e fuçando na mochila, à procura do celular. Acabei esbarrando em alguém. Voltei-me para pedir desculpas e dei de cara com uma mulher sorridente. Seus cabelos eram tão loiros que pareciam brancos como o vestido que ela usava. A pele, apesar de alva, não chegava a ser pálida. Ela abanou a cabeça e perguntou:
— Vale a pena?
Franzi a testa e fiz uma expressão confusa, de quem não tinha entendido a pergunta. Ela apontou para o planetário:
— O programa... Vale a pena?
— Ah, vale sim. Pra quem mora na cidade, com todas essas luzes e a poluição, é o único jeito de enxergar o céu.
Ela suspirou e sorriu de maneira triste.
— É? Mas quando foi a última vez que você olhou?
Voltei a fazer a expressão confusa. Desta vez, reparei que a mulher estava descalça. Pensei que ela devia ser uma riponga vendedora de artesanato ou uma daquelas loucas que moram na rua. Perguntei a mim mesmo como diabos ela conseguia manter aquele vestido branco tão limpo. Ela prosseguiu:
— As pessoas reclamam que não enxergam, mas nem se dão ao trabalho de olhar. O céu pode estar nublado, as luzes e a poluição realmente atrapalham, mas as estrelas continuam lá. É como os sonhos: só porque você não se lembra deles pela manhã, não quer dizer que não os tenha tido durante a noite.
Sorri polidamente e assenti com a cabeça. Sem dizer mais nada, virei as costas e voltei a caminhar, pensando que, pelo papo, ela de fato devia ser uma riponga. Detive-me por um instante ao perceber que havia algo estranhamente familiar naquela mulher. Voltei-me em sua direção, mas ela não estava mais lá. Olhei ao redor, mas não havia nem sinal dela. Nesse instante, algo no céu chamou minha atenção. O sol ainda não havia se posto completamente, mas a primeira estrela começou timidamente a brilhar sua luz branca. Continuei andando. E, como se tivesse acabado de despertar e lutasse para reter os últimos fragmentos de um sonho, percebi que já não me lembrava mais do rosto da mulher.

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

[Dias mais longos - Final]

Como já era de costume, acordaram cedo no domingo para ir à missa. Quando passou pela sala, Gabriel viu que tio Jorge estava dormindo num colchão estirado no chão. Deduziu que ele havia chegado na madrugada anterior. Procurou não fazer muito barulho, apesar de saber que o tio tinha sono bem pesado. Tomou café da manhã e deu uma olhada no cachorrinho, que gemia fininho. Pegou o tupperware e encheu de leite diluído em água, perguntando depois ao pai se um cão naquela idade já podia comer ração. O pai respondeu que era melhor perguntar para Seu Jurandir na semana seguinte. A mãe comentou que esperava que eles encontrassem logo um dono para o cachorro e assim acabar com aquele tormento. Quando saíram, caía uma garoa fina, o que fez o pai voltar para pegar um guarda-chuva.
A missa foi a chatice de sempre e Padre Inácio não contou nenhuma história interessante da Bíblia. Quando a cerimônia terminou, o menino foi até ele para perguntar se alguém tinha comentado algo sobre o cartaz. O Padre respondeu que não e disse que era preciso ter paciência. Gabriel respondeu que ele até que tinha paciência, mas sua mãe não. A mãe deu-lhe um tapinha no ombro e perguntou se aquilo era jeito de falar. Padre Inácio sorriu e acrescentou que todos nós tínhamos que ser pacientes, especialmente com os animais e com as crianças, o que deixou a mãe um pouco sem-graça. Gabriel pensou ter ouvido o pai deixar escapar um risinho.
A chuva agora caía com força e, por isso, os três foram caminhando lentamente, bem abraçados debaixo do guarda-chuva. Quando chegaram em casa, tio Jorge estava sentado na escadinha da varanda, segurando uma caneca de alumínio com uma das mãos e acariciando o cãozinho – que, pelo jeito, havia conseguido escapar do banheiro – com a outra. O tio deu bom-dia a todos e disse que não sabia que eles tinham arrumado um cachorro. A mãe respondeu que eles não tinham arrumado coisa nenhuma e o pai acrescentou que era uma longa história. A mãe deu uma olhada na caneca que Jorge segurava e comentou que ele tinha começado cedo. O tio de Gabriel respondeu apenas que estava brindando ao fato de seu original ter sido recusado por mais uma editora. A mãe rebateu dizendo que, caso o original tivesse sido aceito, ele estaria brindando do mesmo jeito e que, portanto, sempre haveria um motivo para beber. Jorge não disse nada.
Enquanto os pais entraram, Gabriel permaneceu na varanda. Jorge perguntou qual era o nome do cachorro e o menino respondeu que ainda não tinha pensado nisso. Em seguida, Gabriel disse que a "história longa" à qual o pai tinha se referido nem era tão longa assim e perguntou se ele queria ouvir. O tio fez que sim com a cabeça e o garoto contou tudo em detalhes. No final, concluiu:
— E agora tá chovendo de novo... Será que amanhã vai aparecer um outro bicho por aqui?
O tio ficou em silêncio durante alguns instantes. Disse então:
— Sabe, tem um cantor americano que eu gosto muito, que se chama Tom Waits. Há muito tempo, ele gravou um disco que ele batizou de "Rain Dogs". Significa "cachorros da chuva" e é uma expressão que se refere ao cães que se perdem depois de uma chuva. Sabe por que isso acontece? Porque quando os cachorros vão passear sozinhos, eles se guiam pelo próprio cheiro pra voltar pra casa depois. Só que quando chove, a água da chuva lava esse cheiro e aí os pobrezinhos não conseguem mais encontrar o caminho de volta.
— Caramba! Será que foi isso que aconteceu com esse cachorrinho aqui?
— É bem provável.
— Será que os porquinhos-da-índia e as siriemas também se guiam pelo cheiro?
— Aí eu já não sei.
Gabriel ficou quieto, pensativo. Finalmente, perguntou:
— Tio, o que é que é aquilo que você falou pra minha mãe? Do seu original?
— Meu original é meu livro, o livro que eu tava escrevendo. Bom, eu terminei. Só que a editora, que é quem publica, quem lança o livro, não gostou. Nenhuma editora gostou. Então, ele foi rejeitado por todo mundo até agora. Isso quer dizer que todo o tempo que eu dediquei a ele foi só desperdício.
— E por que você tá brindando então? Pensei que tivesse ficado triste.
— Claro que fiquei. Eu não tô... Foi só um jeito irônico de dizer. Não tenho nenhum motivo pra brindar, pra comemorar. Na verdade, tô perdido...
Jorge parou de falar. Depois de alguns momentos, continuou:
— Sabe, quando eu era criança, amava as férias de verão. Porque os dias são mais longos e eu tinha mais tempo pra brincar. Mas agora... Pensei que finalmente tivesse encontrado uma ocupação, algo que eu podia fazer de verdade com a minha vida. Algo que eu amo, que é escrever. Mas pelo jeito, eu tava enganado. E, quando você não sabe o que fazer com seu dia, parece que as horas se arrastam.
O menino entendeu o que o tio queria dizer. Sabia que a vida dos adultos era muito complicada e, na maioria das vezes, uma chatice só. Gabriel pensou que tinha gostado muito de ter bancado o veterinário, o detetive e o missionário nos últimos dias. Mas odiaria ter que acordar todos os dias e ser apenas veterinário, apenas detetive ou apenas missionário. Concluiu que tio Jorge devia estar se sentindo exatamente como ele, Gabriel, havia se sentido no primeiro dia das férias, quando teve que ficar o tempo inteiro trancado dentro de casa por causa da chuva, sem poder sair para viver todas as aventuras que tinha planejado.
Mas então, no mesmo instante, o menino percebeu que havia se enganado. Apesar daquele primeiro dia ruim, suas férias estavam sendo muito divertidas e cheias de aventuras surpreendentes, que ele nem sequer poderia ter sonhado. Apesar do começo cinza, as coisas logo melhoraram sem que ele se desse conta. Gabriel pensou em dizer aquilo tudo para o tio, para consolá-lo. Mas desistiu. Sabia que não adiantaria. Quando a gente fica triste, não há nada que os outros digam que possa fazer a gente se sentir melhor. Pelo menos, era assim com Gabriel. Portanto, o menino disse apenas:
— Tio, como é que chama mesmo o cantor que você falou? Tom "Uei"?
— Waits, Tom Waits. Por que?
— Você acha que a gente pode batizar o cachorrinho de Tom Waits?
O tio sorriu e deu uns tapinhas carinhosos na cabeça do cão. Respondeu:
— Eu acho que é um ótimo nome.
A mãe os chamou, dizendo que já ia servir o almoço, mas os três – Jorge, Gabriel e Tom Waits – ainda ficaram alguns minutos ali na varanda, olhando a chuva cair.

Fim.

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

[Dias mais longos - Parte 5]

Eis o que provavelmente aconteceu: o cachorrinho acordou, começou a se mexer, apoiou-se na lateral da caixa de papelão e acabou tombando-a, derrubando o tupperware com água e escancarando a porta do armário, que estava entreaberta. Deu uma xeretada pelo quarto e, sem cerimônias, fez xixi bem na porta. Ganhou a sala e xeretou por lá também. Interessou-se por um dos almofadões que estavam no chão, perto da cristaleira e começou a mordê-lo e a tentar puxá-lo. Foi nessa hora que o pai chegou, viu o cachorrinho e foi perguntar para a mãe do que se tratava aquilo. A mãe, incrédula, foi até a sala, viu o bicho e fez um escândalo, se perguntando como ele teria entrado em casa. Acharam a poça de xixi na porta do quarto de Gabriel e, logo em seguida, a bagunça dentro do armário.
Isso tudo foi o que o menino deduziu através das informações que ele já tinha e do que a mãe lhe contou. Na verdade, "gritou" seria o termo mais adequado – ela deu uma baita bronca em Gabriel. Disse que já tinha repetido mais de mil vezes que não queria bicho dentro de casa, que eles só fazem sujeira e bagunça. A prova era que, em questão de cinco minutos, aquele vira-lata já tinha aprontado toda aquela confusão. Perguntou onde Gabriel estava com a cabeça quando trouxe o cachorro e quis saber por que ele não tinha falado com ela antes. Completou afirmando categoricamente que Gabriel iria, naquele mesmo instante, devolver o cão ao lugar onde o tinha encontrado.
O garoto não era de contrariar os pais, mas achou aquilo muito injusto e desatou a falar. Disse que não era sua culpa que o porquinho-da-índia, a siriema e o cachorro tivessem aparecido por lá, mas que também não era culpa dos animaizinhos. Disse que lembrava sim que a mãe tinha dito que não queria bicho em casa e que jamais havia passado pela sua cabeça enganá-la. Queria apenas encontrar o dono do cachorrinho, da mesma forma como havia procurado pelo dono da siriema e do porquinho-da-índia na vizinhança nos últimos dias. Disse que, caso sua busca pelo dono do cão não desse certo, assim como a anterior também não tinha dado, sua idéia era apenas tentar encontrar alguém que quisesse ficar com o filhotinho. Porque o Padre Inácio tinha dito que ser misericordioso com todas as criaturas era uma missão que Deus tinha confiado a todos nós, inclusive a ele, Gabriel. E que ele só queria cumprí-la, já que achava que tinha falhado com o porquinho-da-índia e a siriema. Essas últimas frases tinham saído um pouco engasgadas pelo nervosismo e pela súbita vontade de chorar.
O pai, que já havia colocado o cachorrinho dentro duma outra caixa de papelão (desta vez, uma maior) e que tinha permanecido calado desde o início da conversa, virou-se para a mãe e perguntou o que era a siriema. A mãe respondeu que era aquela "galinha" que tinha aparecido em casa no começo da semana. O pai então agachou-se até ficar na altura de Gabriel e disse que era muito bacana da parte dele tentar encontrar um lar para o cachorrinho. Mas acrescentou que a mãe tinha razão, que Gabriel não devia ter feito nada sem falar com os pais antes. Disse que ele tinha que pedir desculpas à mãe e que depois tinha que arrumar a bagunça que o cachorrinho tinha feito no quarto. O menino foi até a mãe, que agora também estava agachada, deu um abraço nela e pediu desculpas por não ter contado sobre o cão e por tê-lo trazido para dentro de casa mesmo sabendo que ela não iria gostar. A mãe deu um beijo nele e disse que estava tudo bem, mas queria que ele prometesse que não faria nada parecido com aquilo de novo e que sempre falaria com os pais em situações como aquela. Ele respondeu que sim.
Foi até o quarto e não encontrou nenhum sinal do xixi do cachorro na porta (a mãe já devia ter se encarregado daquilo). Mas havia uma poça de água no chão do armário, perto da caixa de papelão tombada. Voltou à sala e perguntou para a mãe que pano poderia usar. A mãe disse que podia ser qualquer um que estivesse em cima da máquina de lavar. Foi até lá, pegou um dos panos, voltou para o quarto e secou a poça d'água. Pegou o tupperware vazio, levou-o até a cozinha e colocou-o em cima da pia. Em seguida, colocou o pano de chão dentro do tanque. Perguntou ao pai o que ele devia fazer com a caixa de papelão. O pai respondeu que Gabriel deveria rasgá-la em pedaços pequenos e jogá-la no lixo. O menino foi ao quarto, pegou a caixa e arrastou-a até a área de serviço, onde ele e o pai cortaram-na para que não ocupasse muito espaço dentro do latão de lixo. Terminada a limpeza, o pai disse para Gabriel que, no dia seguinte, iria ajudá-lo a arrumar um dono para o cachorrinho. O menino deu um pulo de satisfação e abraçou o pai.
No sábado, logo pela manhã, pai e filho levaram o cachorrinho para Seu Jurandir dar uma olhada. O veterinário examinou o filhote, viu que estava tudo bem e aplicou-lhe a vacina. Disse que não estava sabendo de ninguém que havia perdido um cãozinho recentemente, mas que mesmo assim iria perguntar para todo mundo que ele conhecia. Sugeriu ao pai de Gabriel que fizesse um pequeno cartaz e espalhasse pelas redondezas. Eles agradeceram a dica e voltaram para casa. Com Gabriel dando palpites, o pai escreveu numa folha de papel sulfite que um filhote de cachorro ("sem raça definida", como havia explicado Seu Jurandir) havia sido encontrado. Colocou uma breve descrição do bicho e também o telefone de casa.
Depois, cuidaram de arrumar um lugar para o bicho ficar temporariamente. Sob protestos da mãe, o local escolhido foi o banheirinho da área de serviço. Tomaram o cuidado de baixar a tampa da privada e de retirar tudo o que o cão pudesse alcançar: o rolo de papel higiênico, o vidro de desinfetante, o desentupidor e a escovinha. Decidiram que era melhor deixar a porta do banheirinho sempre aberta – primeiro, porque seria judiação deixar o bichinho trancado lá dentro; segundo, porque assim poderiam ver se ele não estava aprontando nada. O pai desmontou duas caixas de papelão e as usou para bloquear a passagem, colando as extremidades no batente da porta com fita crepe. Não era firme como uma grade, mas o pai confiava que aquilo impediria o cachorrinho de sair. No mesmo tupperware que Gabriel havia usado antes, colocaram leite diluído em água, que o filhote bebeu avidamente.
À tarde, depois do almoço, os dois foram até a papelaria, onde tiraram algumas cópias xerográficas do cartaz. Colaram uma lá mesmo e as outras foram espalhadas em pontos-chave: na clínica de Seu Jurandir, na delegacia de polícia, na igreja e em quase todos os estabelecimentos comerciais no entorno do Largo da Matriz. Gabriel, satisfeito consigo mesmo, sentia que estava cumprindo sua missão.

(Continua...)

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

[Dias mais longos - Parte 4]

Gabriel foi até o toca-discos, pegou um dos velhos LPs da coleção do pai – o que trazia na capa Roberto Carlos de blusa amarela dentro da cabine dum helicóptero – e o pôs para tocar. Entrou na cozinha com um pulo, dançando desengonçado e dublando o Rei, que cantava "Eu sou terrível!". A mãe deu risada, arriscou alguns passos daquela dança maluca e depois virou-se novamente de costas, voltando a misturar a massa da torta enquanto balançava os quadris. O menino voltou para o quarto, deitou-se na cama e ficou olhando para o teto. Ficou refletindo sobre tudo o que havia acontecido nos últimos dias. De repente, deu um tapa na própria testa. Existia uma coisa que ligava o surgimento do porquinho-da-índia, da siriema e do cachorro, e que ele não havia notado até aquele momento: a chuva. Os três animais tinham aparecido nas imediações de sua casa no dia seguinte a uma forte chuva.
Mas o que aquilo queria dizer? Levantou-se, foi até a prateleira em cima da escrivaninha e pegou a Bíblia Para Crianças que sua mãe havia lhe dado. Não gostava muito de ir à missa – achava uma chatice ter que ficar um tempão dentro da igreja, levantando, sentando, ajoelhando e levantando de novo. Porém, gostava quando o Padre contava histórias da Bíblia. Por isso, sua mãe havia lhe dado aquele exemplar adaptado para crianças e tinha mencionado a idéia de colocá-lo nas aulas de catecismo. Gabriel abriu o livro na parte que falava de Noé e da arca. Releu sobre o grande dilúvio e sobre como Noé, seguindo as instruções de Deus, tinha construído uma arca e colocado lá dentro um casal de cada espécie de animal que havia na Terra.
Será que os três bichinhos haviam cruzado o seu caminho por acaso? Ou será que havia algum outro significado? Se aquilo fosse algum tipo de missão, Gabriel sentia que já havia falhado nas duas primeiras partes: o porquinho-da-índia morreu e a siriema, bem, a siriema sumiu do mesmo jeito que tinha aparecido. Restava o cachorro. Mas o que ele tinha que fazer? Resolveu perguntar para única pessoa que poderia saber alguma coisa a respeito daquele assunto. Levantou-se, foi até o armário e olhou dentro da caixa. O cão estava dormindo. Deixou a porta do armário entreaberta para que o bicho não morresse sufocado. Foi até a cozinha e disse à mãe que ia dar uma volta de bicicleta. A mãe falou para ele não demorar, pois seu pai logo estaria em casa e o jantar seria servido. E mandou ele abaixar o volume do toca-discos, caso contrário ela não escutaria o telefone ou a campainha.
Pelos cálculos de Gabriel, a missa do dia já devia estar quase terminando, por isso apressou-se. Quando chegou na igreja, Padre Inácio já estava na bênção final. Encostou a bicicleta na porta, entrou, fez o sinal-da-cruz e dirigiu-se para a saleta que ficava perto da sacristia. Funcionava como uma espécie de recepção e escritório, onde eram encomendadas missas e marcadas cerimônias. Era lá que Padre Inácio permanecia durante um tempinho depois das missas para atender alguns fiéis. Gabriel sentou-se numa cadeira e ficou esperando. Alguns minutos depois, entraram na saleta duas velhinhas beatas que costumavam assistir todas as missas todos os dias. Estavam conversando, falando sobre uma terceira pessoa, que Gabriel deduziu ser a outra beata que de vez em quando andava com elas. O Padre Inácio entrou e as duas velhinhas o cercaram com uma avalanche de comentários. O Padre – que pelo jeito estava acostumado a lidar com aquele assédio diariamente – apenas balançava a cabeça e dizia "hum hum" e "amém". Enquanto tentava se desvencilhar das beatas, lançou um olhar a Gabriel, num misto de curiosidade e interesse. Despachou as velhinhas com um "até amanhã e que Deus as abençoe" e finalmente cumprimentou o menino, perguntando depois como estavam seus pais. Gabriel respondeu que estava tudo bem e o Padre perguntou em que poderia ajudá-lo.
O garoto então contou sobre o porquinho-da-índia e a siriema, dando ênfase ao detalhe da chuva. Contou sobre a investigação e sobre o encontro com o cachorrinho (citou a chuva de novo). Falou sobre Noé e a arca e, finalmente, sobre a idéia que tinha lhe ocorrido de que, talvez, Deus tivesse colocado aqueles três bichos em seu caminho com algum propósito. Que talvez ele, Gabriel, tivesse alguma espécie de missão a cumprir. Quando terminou, Padre Inácio sorriu e ficou calado durante alguns instantes. Depois, disse que coincidências, na grande maioria dos casos, são apenas coincidências. Mas, às vezes, nós enxergamos nelas algo a mais. Enxergamos sinais que, na verdade, apenas refletem um desejo que já se encontrava em nosso coração, escondido, e que precisava apenas de um "empurrãozinho" para vir à tona. Concluiu que era bem provável que o fato de os três bichos terem aparecido em sua casa fosse apenas coincidência. E que Gabriel estava tentando encontrar algum outro significado para aquilo porque, em seu coração, ele desejava ajudar aqueles bichinhos. E que ser misericordioso com todas as outras criaturas era uma missão que Deus havia confiado a todos nós – inclusive a Gabriel.
O menino voltou para casa pensativo e um tanto desapontado. Padre Inácio não tinha sido claro – disse que aquilo tudo era apenas coincidência, mas também disse que era uma missão. Ou seja, tinha voltado à estaca zero: não sabia o que fazer. Quando entrou na sala de casa, deu de cara com o pai, segurando o cachorrinho no colo, com o semblante sério, mas sem aparentar estar bravo. A mãe surgiu na porta que dava para a cozinha e, ao contrário do pai, parecia, sim, muito nervosa. A primeira coisa que ela disse foi "Gabriel!" – e, pelo tom de voz, o menino sabia que algo bem pior viria pela frente.

(Continua...)

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

[Dias mais longos - Parte 3]

O plano era o seguinte: Gabriel simplesmente iria de casa em casa perguntando se havia ali algum animal de estimação e colhendo informações. Excluiria, no entanto, os moradores de sua própria rua. Primeiro, porque todos o conheciam – alguém podia acabar comentando com seus pais que ele havia passado por lá e feito perguntas estranhas, o que comprometeria a investigação. Segundo, porque sabia que, dentre os vizinhos, apenas Dona Ilma tinha bicho de estimação – no caso, o beagle Charlie, que ela havia comprado algum tempo atrás, depois que o Pepe morrera atropelado. Não estabeleceu limites geográficos para a busca: iria tão longe quanto conseguisse, embora achasse que o Largo da Matriz fosse um pouco longe demais.
A tarefa mostrou-se mais difícil do que ele esperava. Em algumas casas, ninguém atendia a campainha. Em outras, as pessoas simplesmente respondiam que não tinham nenhum bicho, viravam as coistas e voltavam aos seus afazeres, sem que fossse possível levantar mais dados que pudessem levar a alguma pista. Na maioria dos casos, porém, antes de responder a qualquer pergunta, as pessoas queriam saber exatamente do que se tratava, por que o menino estava querendo saber se havia animais de estimação na casa, onde estava sua mãe e uma série de outras questões que, para Gabriel, não tinham absolutamente nada a ver com o que ele tinha perguntado. Geralmente, ele mentia que estava tentando convencer a mãe a comprar um bicho e que aquela pesquisa era para saber qual espécie dava menos trabalho.
Apesar dos percalços, Gabriel achava que estava progredindo bem, com duas excursões por dia. Pela manhã, dizia à mãe que ia jogar futebol; à tarde, fingia que ia dar uma volta de bicicleta. No terceiro dia, porém, começou a desanimar. As pessoas davam sempre as mesmas respostas e ele não conseguia nenhuma pista. Resolveu mudar um pouco a abordagem, incluindo mais uma pergunta: se por acaso elas sabiam o que era uma siriema. Apenas um senhor soube responder – disse que tinha visto na tevê que a siriema era uma ave do cerrado (provavelmente, tinha assistido ao mesmo documentário que Gabriel). Infelizmente, ele nunca tinha visto uma pessoalmente.
A quinta-feira amanheceu chuvosa, mas desta vez Gabriel nem se importou tanto assim. Era a desculpa que ele precisava para interromper a investigação inútil. Deu uma olhada em seu bloco de anotações e fez um levantamento geral dos resultados: havia, na vizinhança, onze cachorros, três gatos, cinco pássaros (sendo dois canários, um periquito e dois que ele não lembrava de que tipo eram, mas que eram pequenos demais para terem qualquer parentesco com a siriema) e duas tartarugas. Achou aquilo "inconclusivo" (tinha ouvido essa palavra num seriado de detetive) e abandonou as anotações. Passou a tarde toda assistindo tevê, sem pensar em siriemas ou porquinhos-da-índia.
O dia seguinte trouxe o sol de volta e o menino, animado, voltou às brincadeiras de antes, esquecendo-se da investigação. À tarde, a mãe pediu que ele desse um pulo no mercadinho e trouxesse uma latinha de fermento em pó. Em troca, poderia comprar um picolé. Gabriel foi de bicicleta, para chegar mais rápido. Voltou empurrando-a com uma das mãos, segurando o picolé com a outra e levando a latinha de fermento e o troco no bolso. Terminou o picolé, mas como fazia um dia bonito, resolveu continuar andando e pegou um caminho diferente do que estava habituado.
Quando estava quase chegando em casa, escutou um gemido fino. Era um cão vira-lata, ainda filhote, com ar de perdido. Gabriel parou, deitou a bicicleta no chão e agachou-se perto do bicho, que a princípio ficou um pouco desconfiado. O menino chamou o filhote, ele veio lentamente, cheirou sua mão e começou a lambê-la. Com a outra mão, Gabriel ficou acariciando o animal, que não se parecia com nenhum dos onze cachorros da vizinhança. Além disso, o garoto sabia que nenhum dos onze havia dado cria recentemente – a não ser, claro, que algum dos donos tivesse omitido informações importantes. As hipóteses mais prováveis, segundo concluiu, eram: ou aquele cachorro tinha vindo (fugido ou perdido) de uma parte mais distante da cidade, que Gabriel não chegara a investigar, ou então ele havia sido abandonado.
Não podia largar o cãozinho ali, mas não sabia se seria uma boa idéia levá-lo para casa – a mãe ficaria uma fera. Na dúvida, o próprio bichinho acabou tomando a decisão e seguiu Gabriel pelo resto do caminho. No portão de casa, o menino ainda tentou, sem muita convicção, espantá-lo, mas o cão continuou lá. Se entrasse com ele agora, Gabriel certamente levaria bronca e a mãe ainda o faria se livrar do animal. O melhor a fazer era dar um jeito de escondê-lo, pelo menos até o pai chegar do serviço. Levaria bronca do mesmo jeito, mas pelo menos sabia que o pai seria menos severo com o cachorro. Deixou-o ali mesmo e entrou para saber do paradeiro da mãe.
Encontrou-a na cozinha, entretida, separando os ingredientes para uma torta doce. Ele entregou para ela o fermento e largou o troco em cima do balcão. Foi até o armário, pegou um copo e, discretamente, pegou também uma vasilha tupperware (achou que a tampa de pote de maionese não seria suficiente), colocando-a no bolso. Foi até o balcão e encheu o copo de água. Saiu pela porta dos fundos para a área de serviço. Perguntou à mãe se podia pegar uma caixa de papelão vazia para fazer um forte para seus soldadinhos. A mãe deixou. Deu a volta pelo corredor lateral até chegar novamente à parte da frente da casa e encontrou o cãozinho onde havia o deixado. Colocou-o dentro da caixa de papelão e foi puxando-a com uma das mãos (com a outra, segurava o copo d'água) até seu quarto. Deixou o copo em cima da cômoda, empurrou a caixa para dentro de seu armário. Despejou um pouco de água dentro do tupperware, colocou-o dentro da caixa e bebeu o resto que havia ficado no copo. Agora, era só esperar o pai chegar. E torcer para que o cachorrinho não fizesse muito barulho até lá.

(Continua...)