Era apenas uma caixa retangular azul, feita de papelão. Mas meu pai entrou em casa carregando-a com pompa suficiente para deixar todo mundo curioso. Dentro dela havia uma luneta branca e um tripé com pernas metálicas e pequenos pés de borracha preta. Meu irmão e eu ficamos alvoroçados, mas minha mãe nem deu bola. Terminado o jantar, meu pai montou a luneta no quintal. Era uma noite de céu limpo e, depois de um bom tempo posicionando e ajustando o foco, ele deixou a gente olhar. Vi a lua crescente, que de tão perto parecia caber na mão. Naquelas manchas cinzas, insondáveis a olho nu, era possível pereceber o contorno das crateras.
A partir de então, observar o céu tornou-se um hábito nosso, que logo extrapolou os muros do quintal. Toda que vez que íamos viajar, a luneta tinha seu cantinho reservado no porta-malas do carro. Longe das luzes e da poluição da cidade, a experiência se mostrava ainda mais emocionante. Foi assim, por exemplo, que descobri que existem estrelas de diferentes cores: brancas, azuis, vermelhas, douradas. Com o tempo (e, claro, depois de algumas visitas ao planetário), fui aprendendo a localizar uma ou outra constelação. Uma das minhas preferidas era o Cruzeiro do Sul, que, além de ser fácil de encontrar, era também a que eu achava mais divertida, pelo simples fato de a quinta estrela se chamar "Intrometida" – uma prova cabal do bom-humor dos astrônomos. Também gostava das Três Marias. Gabava-me de saber que elas formam, na verdade, o cinturão de Orion e de ter decorado seus nomes (Mintaka, Alnilan e Alnitaka).
Meu pai, no entanto, era bastante ciumento com a luneta. Só ele podia ajustá-la. Eu e meu irmão podíamos olhar, desde que lavássemos as mãos antes (meu pai dizia que, caso contrário, nós acabaríamos sujando-a e engordurando-a). Uma vez, fomos acampar. Eu e meu irmão estávamos brincando com outras crianças, até que começou a escurecer e achamos melhor voltar para a barraca. Notei que os primeiros pontinhos brilhantes já começavam a tingir o céu e pensei que o pai bem que podia aproveitar e montar a luneta. De fato, quando já estávamos chegando, pudemos vê-lo do lado de fora, sentado num banco, divertindo-se com seu brinquedinho. Fui até ele correndo, disse que também queria ver e, sem esperar a resposta, já fui me colocando diante do visor. Nem tive tempo de olhar coisa alguma – apenas senti um beliscão forte no meu braço, que imediatamente me fez gemer e chorar.
Ríspido, meu pai perguntou se por acaso eu tinha esquecido que só podia mexer na luneta depois de lavar as mãos. O banheiro do camping ficava longe da barraca e no percurso até lá meu irmão foi dando risada e tirando sarro por eu ter levado bronca. Como ele continuava a me encher a paciência, parei na metade do caminho e sentei-me debaixo duma árvore, deixando que ele seguisse sozinho. Irritado com a zombaria do meu irmão e ainda sentindo a dor do beliscão, abaixei a cabeça e comecei a soluçar. Não sei quanto tempo fiquei ali sozinho, até que ouvi uma voz:
— Você se perdeu?
Era uma mulher, estava parada bem diante de mim. Naquele momento, eu não estava nem um pouco a fim de conversar, por isso nem me dei ao trabalho de olhar para cima para ver seu rosto. Tudo o que enxerguei dela foi o que estava em meu campo de visão: seus pés descalços e suas canelas. Pude notar que usava um vestido branco. A pele também era alva, mas curiosamente não chegava a ser pálida. Como ao invés de responder eu continuei soluçando, ela disse:
— Se você está perdido, ficar aí olhando para o chão não vai ajudar em nada, sabia?
Abaixei ainda mais a cabeça, apoiando a testa nos joelhos, abracei minhas pernas e me encolhi todo. Gritei:
— Me deixa em paz!
Durante alguns instantes, não escutei nenhuma resposta. Depois de um tempo, senti um cutucão. Levantei a cabeça, pronto para perguntar se ela era surda, mas a mulher não estava mais lá. Era meu irmão quem havia me cutucado. Ele me chamou de bobo e perguntou se eu não ia lavar as mãos. Um pouco confuso, levantei-me e pus-me em direção ao banheiro. Não vi nem sinal da mulher. Quando voltei, meu pai e meu irmão estavam olhando na luneta, mas preferi entrar na barraca e deitar do lado da minha mãe, que fazia palavras cruzadas.
Os anos foram passando e as viagens em família foram se tornando cada vez mais raras. Nunca mais houve noites de céu limpo no quintal de casa. E a caixa retangular azul de papelão foi juntando poeira, guardada em algum canto do armário na área de serviço.
* * *
Pedi informação na banca de jornal e o rapaz me disse que era só seguir pela via em que os carros estavam estacionados. No final do pavilhão, avistei o prédio em formato de disco voador. Chegando mais perto, vi que já havia uma grande fila na entrada. Fui até a bilheteria reservada para retirada de ingressos comprados pela internet e peguei o meu. Entrei na fila, formada por um monte de crianças acompanhadas dos pais, idosos e algumas poucas pessoas da minha idade. Notei que, pintada no chão, bem em frente à entrada do planetário, havia um rosa dos ventos – tinha me esquecido completamente desse detalhe. Quando finalmente entrei, reparei que minha memória havia me traído mais uma vez: a sala era bem menor do que eu esperava.
Logo à frente, um sinal de modernização: o antigo projetor – que, nas minhas lembranças de criança, se parecia com uma enorme formiga – havia sido substituído por um menor, mais compacto e, segundo dizia o artigo na internet, muito mais potente. Outras coisas, no entanto, permaneciam antiquadamente iguais: na iminência do início da sessão, o único membro da equipe do planetário que permaneceu dentro da sala foi um rapaz segurando uma daquelas lanterninhas do tipo "laser pointer", cuja função certamente era apontar os corpos celestes aos quais o locutor iria se referir.
Lembrei-me de como o planetário simulava o pôr-do-sol no início de cada sessão, projetando uma luz avermelhada que ia sumindo aos poucos detrás da silhueta da cidade. Na nova versão, esse efeito foi substituído por um céu nublado que aos poucos vai se limpando, revelando as estrelas e provocando um impacto muito maior, que quase espremeu uma lágrima no canto do meu olho. O roteiro da apresentação é repetitivo e cansativo – uma prova cabal de que os astrônomos, apesar do seu bom-humor, definitivamente não sabem escrever. Mesmo assim, o programa foi tão emocionante quanto eu me lembrava. Saí do planetário prometendo a mim mesmo que não demoraria para voltar.
Lá fora, o sol já estava se pondo. Pensativo, fui caminhando e fuçando na mochila, à procura do celular. Acabei esbarrando em alguém. Voltei-me para pedir desculpas e dei de cara com uma mulher sorridente. Seus cabelos eram tão loiros que pareciam brancos como o vestido que ela usava. A pele, apesar de alva, não chegava a ser pálida. Ela abanou a cabeça e perguntou:
— Vale a pena?
Franzi a testa e fiz uma expressão confusa, de quem não tinha entendido a pergunta. Ela apontou para o planetário:
— O programa... Vale a pena?
— Ah, vale sim. Pra quem mora na cidade, com todas essas luzes e a poluição, é o único jeito de enxergar o céu.
Ela suspirou e sorriu de maneira triste.
— É? Mas quando foi a última vez que você olhou?
Voltei a fazer a expressão confusa. Desta vez, reparei que a mulher estava descalça. Pensei que ela devia ser uma riponga vendedora de artesanato ou uma daquelas loucas que moram na rua. Perguntei a mim mesmo como diabos ela conseguia manter aquele vestido branco tão limpo. Ela prosseguiu:
— As pessoas reclamam que não enxergam, mas nem se dão ao trabalho de olhar. O céu pode estar nublado, as luzes e a poluição realmente atrapalham, mas as estrelas continuam lá. É como os sonhos: só porque você não se lembra deles pela manhã, não quer dizer que não os tenha tido durante a noite.
Sorri polidamente e assenti com a cabeça. Sem dizer mais nada, virei as costas e voltei a caminhar, pensando que, pelo papo, ela de fato devia ser uma riponga. Detive-me por um instante ao perceber que havia algo estranhamente familiar naquela mulher. Voltei-me em sua direção, mas ela não estava mais lá. Olhei ao redor, mas não havia nem sinal dela. Nesse instante, algo no céu chamou minha atenção. O sol ainda não havia se posto completamente, mas a primeira estrela começou timidamente a brilhar sua luz branca. Continuei andando. E, como se tivesse acabado de despertar e lutasse para reter os últimos fragmentos de um sonho, percebi que já não me lembrava mais do rosto da mulher.
A partir de então, observar o céu tornou-se um hábito nosso, que logo extrapolou os muros do quintal. Toda que vez que íamos viajar, a luneta tinha seu cantinho reservado no porta-malas do carro. Longe das luzes e da poluição da cidade, a experiência se mostrava ainda mais emocionante. Foi assim, por exemplo, que descobri que existem estrelas de diferentes cores: brancas, azuis, vermelhas, douradas. Com o tempo (e, claro, depois de algumas visitas ao planetário), fui aprendendo a localizar uma ou outra constelação. Uma das minhas preferidas era o Cruzeiro do Sul, que, além de ser fácil de encontrar, era também a que eu achava mais divertida, pelo simples fato de a quinta estrela se chamar "Intrometida" – uma prova cabal do bom-humor dos astrônomos. Também gostava das Três Marias. Gabava-me de saber que elas formam, na verdade, o cinturão de Orion e de ter decorado seus nomes (Mintaka, Alnilan e Alnitaka).
Meu pai, no entanto, era bastante ciumento com a luneta. Só ele podia ajustá-la. Eu e meu irmão podíamos olhar, desde que lavássemos as mãos antes (meu pai dizia que, caso contrário, nós acabaríamos sujando-a e engordurando-a). Uma vez, fomos acampar. Eu e meu irmão estávamos brincando com outras crianças, até que começou a escurecer e achamos melhor voltar para a barraca. Notei que os primeiros pontinhos brilhantes já começavam a tingir o céu e pensei que o pai bem que podia aproveitar e montar a luneta. De fato, quando já estávamos chegando, pudemos vê-lo do lado de fora, sentado num banco, divertindo-se com seu brinquedinho. Fui até ele correndo, disse que também queria ver e, sem esperar a resposta, já fui me colocando diante do visor. Nem tive tempo de olhar coisa alguma – apenas senti um beliscão forte no meu braço, que imediatamente me fez gemer e chorar.
Ríspido, meu pai perguntou se por acaso eu tinha esquecido que só podia mexer na luneta depois de lavar as mãos. O banheiro do camping ficava longe da barraca e no percurso até lá meu irmão foi dando risada e tirando sarro por eu ter levado bronca. Como ele continuava a me encher a paciência, parei na metade do caminho e sentei-me debaixo duma árvore, deixando que ele seguisse sozinho. Irritado com a zombaria do meu irmão e ainda sentindo a dor do beliscão, abaixei a cabeça e comecei a soluçar. Não sei quanto tempo fiquei ali sozinho, até que ouvi uma voz:
— Você se perdeu?
Era uma mulher, estava parada bem diante de mim. Naquele momento, eu não estava nem um pouco a fim de conversar, por isso nem me dei ao trabalho de olhar para cima para ver seu rosto. Tudo o que enxerguei dela foi o que estava em meu campo de visão: seus pés descalços e suas canelas. Pude notar que usava um vestido branco. A pele também era alva, mas curiosamente não chegava a ser pálida. Como ao invés de responder eu continuei soluçando, ela disse:
— Se você está perdido, ficar aí olhando para o chão não vai ajudar em nada, sabia?
Abaixei ainda mais a cabeça, apoiando a testa nos joelhos, abracei minhas pernas e me encolhi todo. Gritei:
— Me deixa em paz!
Durante alguns instantes, não escutei nenhuma resposta. Depois de um tempo, senti um cutucão. Levantei a cabeça, pronto para perguntar se ela era surda, mas a mulher não estava mais lá. Era meu irmão quem havia me cutucado. Ele me chamou de bobo e perguntou se eu não ia lavar as mãos. Um pouco confuso, levantei-me e pus-me em direção ao banheiro. Não vi nem sinal da mulher. Quando voltei, meu pai e meu irmão estavam olhando na luneta, mas preferi entrar na barraca e deitar do lado da minha mãe, que fazia palavras cruzadas.
Os anos foram passando e as viagens em família foram se tornando cada vez mais raras. Nunca mais houve noites de céu limpo no quintal de casa. E a caixa retangular azul de papelão foi juntando poeira, guardada em algum canto do armário na área de serviço.
* * *
Pedi informação na banca de jornal e o rapaz me disse que era só seguir pela via em que os carros estavam estacionados. No final do pavilhão, avistei o prédio em formato de disco voador. Chegando mais perto, vi que já havia uma grande fila na entrada. Fui até a bilheteria reservada para retirada de ingressos comprados pela internet e peguei o meu. Entrei na fila, formada por um monte de crianças acompanhadas dos pais, idosos e algumas poucas pessoas da minha idade. Notei que, pintada no chão, bem em frente à entrada do planetário, havia um rosa dos ventos – tinha me esquecido completamente desse detalhe. Quando finalmente entrei, reparei que minha memória havia me traído mais uma vez: a sala era bem menor do que eu esperava.
Logo à frente, um sinal de modernização: o antigo projetor – que, nas minhas lembranças de criança, se parecia com uma enorme formiga – havia sido substituído por um menor, mais compacto e, segundo dizia o artigo na internet, muito mais potente. Outras coisas, no entanto, permaneciam antiquadamente iguais: na iminência do início da sessão, o único membro da equipe do planetário que permaneceu dentro da sala foi um rapaz segurando uma daquelas lanterninhas do tipo "laser pointer", cuja função certamente era apontar os corpos celestes aos quais o locutor iria se referir.
Lembrei-me de como o planetário simulava o pôr-do-sol no início de cada sessão, projetando uma luz avermelhada que ia sumindo aos poucos detrás da silhueta da cidade. Na nova versão, esse efeito foi substituído por um céu nublado que aos poucos vai se limpando, revelando as estrelas e provocando um impacto muito maior, que quase espremeu uma lágrima no canto do meu olho. O roteiro da apresentação é repetitivo e cansativo – uma prova cabal de que os astrônomos, apesar do seu bom-humor, definitivamente não sabem escrever. Mesmo assim, o programa foi tão emocionante quanto eu me lembrava. Saí do planetário prometendo a mim mesmo que não demoraria para voltar.
Lá fora, o sol já estava se pondo. Pensativo, fui caminhando e fuçando na mochila, à procura do celular. Acabei esbarrando em alguém. Voltei-me para pedir desculpas e dei de cara com uma mulher sorridente. Seus cabelos eram tão loiros que pareciam brancos como o vestido que ela usava. A pele, apesar de alva, não chegava a ser pálida. Ela abanou a cabeça e perguntou:
— Vale a pena?
Franzi a testa e fiz uma expressão confusa, de quem não tinha entendido a pergunta. Ela apontou para o planetário:
— O programa... Vale a pena?
— Ah, vale sim. Pra quem mora na cidade, com todas essas luzes e a poluição, é o único jeito de enxergar o céu.
Ela suspirou e sorriu de maneira triste.
— É? Mas quando foi a última vez que você olhou?
Voltei a fazer a expressão confusa. Desta vez, reparei que a mulher estava descalça. Pensei que ela devia ser uma riponga vendedora de artesanato ou uma daquelas loucas que moram na rua. Perguntei a mim mesmo como diabos ela conseguia manter aquele vestido branco tão limpo. Ela prosseguiu:
— As pessoas reclamam que não enxergam, mas nem se dão ao trabalho de olhar. O céu pode estar nublado, as luzes e a poluição realmente atrapalham, mas as estrelas continuam lá. É como os sonhos: só porque você não se lembra deles pela manhã, não quer dizer que não os tenha tido durante a noite.
Sorri polidamente e assenti com a cabeça. Sem dizer mais nada, virei as costas e voltei a caminhar, pensando que, pelo papo, ela de fato devia ser uma riponga. Detive-me por um instante ao perceber que havia algo estranhamente familiar naquela mulher. Voltei-me em sua direção, mas ela não estava mais lá. Olhei ao redor, mas não havia nem sinal dela. Nesse instante, algo no céu chamou minha atenção. O sol ainda não havia se posto completamente, mas a primeira estrela começou timidamente a brilhar sua luz branca. Continuei andando. E, como se tivesse acabado de despertar e lutasse para reter os últimos fragmentos de um sonho, percebi que já não me lembrava mais do rosto da mulher.


