Terça-feira, Janeiro 30, 2007

[Dias mais longos - Parte 2]

O tempo parecia ter se firmado e Gabriel finalmente começou a aproveitar as férias do jeito que havia imaginado. No domingo, porém, no final do dia, a chuva voltou a cair. O menino foi dormir emburrado, maldizendo a chuva e sua falta de sorte – aquele parecia ser o verão mais chuvoso que ele já tinha visto, o que, levando-se em conta sua pouca idade, não estava lá muito longe da verdade. O dia seguinte amanheceu nublado, mas pelo menos não estava mais chovendo. Ainda assim, a mãe não deixou que ele saísse para muito longe, então Gabriel teve que se contentar em ficar brincando no jardim.
Durante um bom tempo, manteve-se entretido contando as inúmeras minhocas que haviam aparecido na superfícia fofa da terra. Apenas as enumerava e observava, sem mexer com elas – passara a simpatizar com as bichinhas depois que descobriu que, assim como as lagartixas, elas eram capazes de regenerar partes de seus corpos. A contagem já estava na oitava minhoca quando escutou um ruído atrás de si. Quando virou-se, deu de cara com uma ave estranha – tinha mais ou menos metade de sua altura, pernas compridas avermelhadas, cauda longa e uma grande crista de penas na cabeça. Sua primeira reação foi ficar com medo, mas a ave parecia alheia à sua presença. Lentamente, foi caminhando para trás, em direção à área de serviço, até chegar à porta da cozinha. A ave continuava no jardim e agora havia começado a ciscar o chão.
Num sussurro, chamou a mãe, mas ela não ouviu, pois estava na sala. Foi até lá e contou que tinha um bicho estranho no jardim. A mãe levantou-se da poltrona, perguntando que tipo de bicho era, Gabriel respondeu que era uma ave. Quando a mãe chegou na porta da cozinha, tomou um susto – ela esperava encontrar um bicho bem menor. Apanhou a vassoura pendurada num suporte na área de serviço e começou a gritar e correr atrás da ave. Esta, por sua vez, iniciou a fuga numa cômica mistura de passos desajeitados e pequenos saltos. O menino também correu junto da mãe, gritando "xô, xô!" e achando tudo muito divertido. Finalmente, conseguiram tocar a ave para fora e a mãe pôde voltar para dentro de casa, reclamando que aquilo ia acabar virando um zoológico. Primeiro, tinha sido o "rato"; agora, uma "galinha". A mãe, resmungando, perguntava-se que bicho mais faltava aparecer, mas Gabriel não estava mais escutando. Tinha tido um estalo.
Até aquele momento, não havia ligado as duas aparições misteriosas: o "rato" que não era "rato", mas sim um porquinho-da-índia, e a "galinha" que não era "galinha", mas sim uma... Uma... O que era mesmo aquela ave? Gabriel lembrou-se de um documentário sobre o cerrado que assistira certa vez na tevê. Lembrava-se bem da fauna típica daquela região: o tamanduá-bandeira, o tatu-canastra, a onça-pintada, o cachorro-vinagre... Dentre as espécies de aves, havia a siriema, que era bem parecida com aquela que acabara de ver, com as pernas compridas, a cauda e a crista de penas. Procurou por "siriema" e "cerrado" na enciclopédia que tinham em casa, mas não encontrou nenhuma foto da ave. Pensou que, se não estivesse no meio das férias, podia ir à biblioteca de escola e procurar por mais informações.
Mesmo assim, estava plenamente convencido de que se tratava de uma siriema. Só que algumas coisas o intrigavam. Sua casa ficava muito longe do cerrado (pelo que ele se lembrava, era perto do Pantanal). O que aquela ave estaria fazendo ali? Como havia chegado? Teria ela alguma relação com o porquinho-da-índia? Decidiu aproveitar o dia sem chuva para encontrar respostas para essas perguntas, fazendo uma investigação tal qual os detetives dos livros e dos programas da tevê. Começou pela área de serviço, onde o porquinho-da-índia havia aparecido, mas não achou nenhuma pista. Depois, passou para o jardim, onde tinha topado com a siriema, mas a única coisa fora do comum que encontrou foram as minhocas.
Uma hipótese começou a se formar em sua cabeça. Porquinhos-da-índia, até onde ele sabia, eram animais de estimação, não costumavam vagar por aí sozinhos e, provavelmente, não deviam sobreviver por muito tempo sem ninguém cuidando deles. Por outro lado, siriemas eram animais selvagens, mas só viviam no cerrado. E era muito improvável, para não dizer impossível, que aquela ave tivesse vindo andando do cerrado até o jardim de sua casa (afinal, segundo se lembrava de ter visto no documentário, siriemas, assim como as galinhas, não voavam). Isso só poderia significar que tanto o porquinho-da-índia quanto a siriema pertenciam a alguém e deviam ter fugido.
Mas será que ambos os bichos eram da mesma pessoa? Será que o dono não estaria preocupado, procurando por eles? Só havia uma coisa a se fazer. Gabriel foi até seu quarto, apanhou seu bloco de notas e um lápis e os colocou num dos bolsos da bermuda. No outro, colocou uma barra de chocolate. Aproveitou que a mãe estava no telefone e mentiu para ela, dizendo que ia até o campinho de futebol e que não demorava a voltar. Saiu o mais rápido que pôde, antes que a mãe começasse a fazer muitas perguntas.

(Continua...)

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

[Dias mais longos - Parte 1]

Logo no primeiro dia das férias de verão caiu o maior temporal, obrigando Gabriel a ficar confinado dentro de casa. Ele ficou andando de um lado para o outro, impaciente, sem conseguir inventar nenhuma brincadeira decente e nem se concentrar nas atividades que sua mãe lhe sugeriu – arrumar o quarto, assistir tevê, ajudá-la a descascar grão-de-bico. Volta e meia, ia até a sala e colava o rosto no vidro da janela, observando a chuva cair implacável, imaginando o mundo de aventuras que o esperava lá fora, lamentando todos os planos que tinha feito durante os últimos dias de aula e que agora estavam indefinidamente adiados. A mãe tentou consolá-lo, dizendo que ainda tinha muitos dias de sol pela frente. Mas ele pensou que, se as férias estavam começando daquele jeito, é porque provavelmente iam ser uma droga.
Dois dias depois, a chuva resolveu dar uma trégua. Mas não foi por isso que Gabriel acordou cedo – foram os gritos da mãe que o tiraram da cama. Correu até a cozinha, onde a encontrou olhando pela janela, ainda assustada. Tinha visto um rato. Apesar dos protestos dela, Gabriel saiu até a área de serviço, onde encontrou o pai agachado, usando uma lanterna para espiar debaixo da máquina de lavar roupa. Definitivamente, não era um rato, disse o pai, mas sim um porquinho-da-índia. Sem nenhuma dificuldade, sob a supervisão atenta de Gabriel e o olhar ainda desconfiado da mãe, o bichinho foi transferido para dentro de uma caixa de sapatos vazia. O pai concluiu que ele devia ter fugido de alguma casa das redondezas e disse que ia perguntar para os vizinhos se alguém tinha dado falta do animal de estimação. Franziu a testa e acrescentou que o bicho parecia meio doente, pois quase não se mexia.
Aquilo deixou Gabriel preocupado. Depois que o pai saiu para trabalhar, o menino ficou vigiando a caixa de sapatos. Foi até o armário da cozinha e pegou a tampa de um dos vários potes de maionese vazios que mãe guardava, encheu-a com água do filtro e colocou-a para que o porquinho-da-índia a usasse como bebedouro. Temendo que o bicho pegasse uma pneumonia (estava todo molhado por causa da chuva), pediu que a mãe arrumasse um pedaço qualquer de trapo velho, só para que o novo amiguinho pudesse usar como cobertor.
Queria sair naquela mesma hora, mas a mãe obrigou-o a almoçar primeiro. Tão logo terminou o prato, foi fazer uma visita a Seu Jurandir, o único veterinário da região. Gabriel relatou-lhe toda a história. Seu Jurandir sorriu, pegou uma revista de dentro de um armário e mostrou-lhe uma foto, perguntando se o bichinho era parecido com aquele. Gabriel disse que sim, que era bem parecido. O veterinário disse que então realmente se tratava de um porquinho-da-índia. Acrescentou que é um tipo de animal bastante resistente a doenças; por outro lado, é também bastante ativo. Assim, o fato de o bicho não estar se mexendo muito era mesmo preocupante. Podia ser apenas estresse por causa da mudança de ambiente, mas era melhor não arriscar. Gabriel devia trazê-lo para uma consulta no dia seguinte. Até lá, tinha que alimentá-lo com capim e pedacinhos de cenoura. Seu Jurandir também entregou-lhe uma garrafinha de suplemento alimentar que deveria ser misturado – cerca de dez gotas – com a água.
O menino voltou para a casa e contou tudo para a mãe, mas arrependeu-se logo em seguida. Ela ficou uma fera, disse que se aquele "rato" estava mesmo doente, Gabriel não devia ficar mexendo com ele – na verdade, a partir daquele momento, ele estava terminantemente proibido de chegar perto do bicho. O menino protestou mas não teve jeito. Restou-lhe apenas ficar atazanando a mãe até que ela concordasse em colocar algumas folhas de capim dentro da caixa de sapatos (ela recusou-se a colocar pedaços de cenoura, disse que não ia ficar dando comida para um "rato") e pingar as dez gotinhas de suplemento alimentar na água que estava na tampa do pote de maionese.
Quando o pai chegou do serviço, Gabriel foi correndo lhe contar tudo o que tinha acontecido durante a tarde, na esperança de que ele revogasse a proibição de chegar perto do porquinho-da-índia – o que, obviamente, não aconteceu. O pai, todavia, se compadeceu do bichinho, e disse que no dia seguinte o levaria para Seu Jurandir dar uma olhada. A mãe, contrariada, disse que era melhor o veterinário ficar com o "rato" logo duma vez.
Pela manhã, conforme o pai havia prometido, a caixa de sapatos já não estava mais lá. Escondido da mãe, Gabriel telefonou para Seu Jurandir, que contou-lhe que, infelizmente, o porquinho-da-índia estava mesmo bem doente por causa de uma bactéria (nada contagioso para seres humanos, fez questão de dizer) e que por ser ainda filhote provavelmente não ia resistir muito tempo. Seu Jurandir garantiu que o bicho já estava mal há algum tempo, bem antes de aparecer na área de serviço, e ressaltou que Gabriel devia ficar orgulhoso de si mesmo, pois tinha feito direitinho tudo o que estava ao seu alcance, como um bom veterinário. Mesmo assim, o menino não pôde deixar de se sentir impotente e um pouco culpado quando o porquinho-da-índia morreu no dia seguinte.

(Continua...)

Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

[Nosce te ipsum]

Ela ficou observando enquanto ele tombava o copo e despejava o líquido dourado sem fazer muita espuma, repetindo a operação em seu próprio copo. Ela disse:
— Outro dia vi uma matéria na tevê falando sobre o quanto os elefantes são inteligentes. Pegaram um elefante, pintaram um "x" branco na testa dele e o puseram em frente a um espelho. Sabe o que ele fez? Passou a tromba na testa, bem em cima do "x". Isso quer dizer que o elefante é inteligente o bastante pra reconhecer o próprio reflexo num espelho. São poucos os animais, além do homem, capazes de fazer isso. Acho que só os macacos e os golfinhos, se não me engano.
— Que ótimo. Agora vamos ter elefantes vaidosos, preocupados com a aparência, querendo perder peso...
— Ai, como você é bobo. Só tava te contando uma coisa que eu achei interessante.
— Desculpa. É claro que é interessante sim.
— Humpf.
Alguns segundos de silêncio. Ele tentou se redimir:
— Sabe o que mais é interessante? Desde criança, você apredende a reconhecer o reflexo no espelho como sendo você. Mas, já parou pra pensar que, na verdade, aquela imagem não é você?
— Ah, não? E quem é então?
— Bom, é você sim. Mas é você ao contrário. Porque é isso o que um espelho faz – mostra o objeto refletido ao contrário.
— Quer dizer que, se eu quiser me ver do jeito certo, tenho que usar dois espelhos? Aí eu posso ver o reflexo do meu reflexo e eu já não vou estar mais ao contrário. Ou então tenho que olhar pra uma foto minha. Credo, odeio minhas fotos! Então, na verdade, eu sou daquele jeito? Putz, por isso que eu ainda tô solteira...
— Ai, como você é boba.
Ela fez uma careta e mostrou a língua. Ele retomou o assunto:
— Mas isso que você disse faz sentido.
— Isso o quê?
— O lance da foto. Às vezes, quando você olha uma foto sua, você fica mesmo com uma sensação meio estranha. Tipo, achando que tem alguma coisa fora do lugar... É porque sua foto mostra o jeito como as pessoas te vêem, que é diferente do jeito como você se vê no espelho. É que nem ouvir uma gravação da sua própria voz. Você ouve aquilo e se pergunta: "Nossa, eu falo assim?". Porque as pessoas te escutam de um jeito, mas você se escuta de outro. Se não me engano, é por causa das ondas mais graves, que não se propagam direito no ar. Quando você fala, você é a única pessoa que consegue ouvir as freqüências graves da sua voz, porque para chegar até você ela não se propaga só no ar, mas também ressoa num meio sólido, que é a sua cabeça.
— Hum, entendi... Mas qual é o jeito certo de se ouvir? Ou o jeito certo de se enxergar? Do jeito que você se vê no espelho ou do jeito que os outros te vêem? Quem é você de verdade? Não é uma questão meio relativa?
— Acho que, apesar do reflexo no espelho ser uma imagem invertida, você é aquilo que você enxerga. É aquilo que você é na intimidade, sozinho no banheiro da sua casa, sem maquiagem. Não importa o que os outros enxergam ou como os outros te vêem.
— É, acho que isso é válido na maioria das vezes. Mas também acho que tem um monte de gente que é dura demais consigo mesma. Que exige demais de si, que é auto-crítica ao extremo. Essas pessoas acabam não vendo coisas boas nelas mesmas – coisas que os outros, provavelmente, conseguem enxergar, por causa do distanciamento e tal. Nesses casos, você não acha que a visão dos outros devia ser levada um pouco mais em consideração?
— É... Talvez...
Ele não parecia muito convencido. Ela fez uma cara meio pensativa, depois sorriu e inclinou-se para frente, em direção a ele. Beijou-o suavemente nos lábios. Ele ficou com uma expressão aparvalhada, sem saber o que dizer. Ela riu e disse:
— Rá! Tá vendo só? Você provavelmente tá se perguntando por quê eu fiz isso. Se eu realmente queria te beijar ou se eu só queria ilustrar meu argumento. Definitivamente, você tem que prestar mais atenção no jeito como os outros te enxergam.
Ele não respondeu nada. Apenas ficou sorrindo e encarando-a fixamente, dum jeito que ela nunca tinha visto – o que a deixou um pouco encabulada. Ela olhou para o chão e murmurou:
— E acho que o mesmo vale pra mim...
Ficaram os dois ali em silêncio, escutando seus próprios corações batendo, como vozes ressoando em suas cabeças.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

[O mar]

"Em todo o samba que faço,
tem espaço, eu ponho o mar
."
(Teresa Cristina)

* * *

Amo o mar tanto quanto o temo.

* * *

Piso na areia.
Apesar do frio, dobro as barras da calça.
A água está morna.
Os olhos, rasos.
Penso na primavera.
Setembro custa a chegar.
Chega?
Até lá, um oceano inteiro.

* * *

Parece que foi ontem que vi o mar pela primeira vez.
Os braços da mãe conduzindo os passos, ora vacilantes, ora apressados.
A marola lambendo os pés, arrancando gritos estridentes de criança.
Deitei-me ali na água rasa e brinquei com ela.
Uma onda maior veio arrebentar-se em minhas costas.
— Luisa riu pra mim!
O sal cobria meu corpo e – por que não confessar? – havia um pouco em meus olhos também.
Por um instante, tudo era simples.
E me lembrei...
Parece que foi ontem que vi o mar pela primeira vez.

* * *

Amo o mar tanto quanto o tenho.

* * *

"A gente que enfrenta o mal,
quando a gente fica em frente ao mar,
a gente se sente melhor
."
(Nando Reis)

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

[Carpe diem]

— Você já tem um deste?
A garota trazia um sorriso no rosto e alguma coisa na mão. Era um calendário: um triângulo de cartolina com o vértice superior transpassado por uma espiral de plástico, à qual estavam presas, tal qual em um bloco de anotações, estreitas folhas de papel, uma para cada mês do ano. Aquele era seu tipo preferido de calendário – ele gostava do ritual de virar a folhinha ao final dos meses. E gostava igualmente da idéia de que o passado ficava de fato para trás, invisível para os olhos, ao mesmo tempo em que a única coisa que permanecia diante de si era o futuro mais imediato. Devolveu o sorriso para a garota e respondeu:
— Não, ainda não.
Estendeu a mão para pegar o calendário que ela oferecia, mas ela repentinamente o trouxe de volta para perto de si, como se tivesse mudado de idéia. Com um sorriso matreiro, ela segurou todas as folhinhas dos meses na mão direita, enquanto segurava o triângulo de cartolina com a esquerda. Com um único movimento meio desajeitado, arrancou as doze folhinhas. Dobrou-as e trouxe-as para junto do peito, como se fossem algo de muito valor. Estendeu para ele o agora inútil triângulo de cartolina. Com um risinho, ela disse:
— Pronto, aqui está!
Ele abriu a boca para protestar, mas a garota explodiu numa risada irresistível e insolente, como a de uma criança que acabou de pregar uma peça. No mesmo instante, ele compreendeu o significado do gesto. Não era apenas uma brincadeira; era o jeito dela de dizer: "Ei, quer saber duma coisa? Quero que seus dias sejam todinhos meus!". Sorriu e, para simbolizar que aceitava o trato, pegou o triângulo de cartolina. Fez uma mesura exagerada em agradecimento e guardou seu novo calendário sem folhinhas no bolso de trás da calça.

* * *

Acordou no meio da madrugada. Olhou para o teto e depois virou-se para o lado. A garota estava ali deitada, dormindo. O lençol a cobria até a cintura, a camisola movia-se em longos intervalos, acompanhando o calmo ritmo respiratório de quem está mergulhado num sono profundo. Fitou-a durante longos minutos, imaginando se conseguiria acordá-la assim, somente com um olhar embevecido. Colocou a mão perto do rosto dela, próximo o suficiente para sentir o calor de sua pele. Fez um movimento giratório, como se acariciasse sua bochecha. Depois, foi a vez da boca – as pontas dos dedos quase tocando aqueles lábios, a moldura perfeita para o sorriso que o encantava.
Suspirou. Sim, tinha entregue seus dias para ela. Mas sabia que aquelas horas – espremidas entre o hoje e o amanhã; horas dos sonhos; horas de velar o sono dos entes queridos – ah, aquelas horas continuavam suas.