O tempo parecia ter se firmado e Gabriel finalmente começou a aproveitar as férias do jeito que havia imaginado. No domingo, porém, no final do dia, a chuva voltou a cair. O menino foi dormir emburrado, maldizendo a chuva e sua falta de sorte – aquele parecia ser o verão mais chuvoso que ele já tinha visto, o que, levando-se em conta sua pouca idade, não estava lá muito longe da verdade. O dia seguinte amanheceu nublado, mas pelo menos não estava mais chovendo. Ainda assim, a mãe não deixou que ele saísse para muito longe, então Gabriel teve que se contentar em ficar brincando no jardim.
Durante um bom tempo, manteve-se entretido contando as inúmeras minhocas que haviam aparecido na superfícia fofa da terra. Apenas as enumerava e observava, sem mexer com elas – passara a simpatizar com as bichinhas depois que descobriu que, assim como as lagartixas, elas eram capazes de regenerar partes de seus corpos. A contagem já estava na oitava minhoca quando escutou um ruído atrás de si. Quando virou-se, deu de cara com uma ave estranha – tinha mais ou menos metade de sua altura, pernas compridas avermelhadas, cauda longa e uma grande crista de penas na cabeça. Sua primeira reação foi ficar com medo, mas a ave parecia alheia à sua presença. Lentamente, foi caminhando para trás, em direção à área de serviço, até chegar à porta da cozinha. A ave continuava no jardim e agora havia começado a ciscar o chão.
Num sussurro, chamou a mãe, mas ela não ouviu, pois estava na sala. Foi até lá e contou que tinha um bicho estranho no jardim. A mãe levantou-se da poltrona, perguntando que tipo de bicho era, Gabriel respondeu que era uma ave. Quando a mãe chegou na porta da cozinha, tomou um susto – ela esperava encontrar um bicho bem menor. Apanhou a vassoura pendurada num suporte na área de serviço e começou a gritar e correr atrás da ave. Esta, por sua vez, iniciou a fuga numa cômica mistura de passos desajeitados e pequenos saltos. O menino também correu junto da mãe, gritando "xô, xô!" e achando tudo muito divertido. Finalmente, conseguiram tocar a ave para fora e a mãe pôde voltar para dentro de casa, reclamando que aquilo ia acabar virando um zoológico. Primeiro, tinha sido o "rato"; agora, uma "galinha". A mãe, resmungando, perguntava-se que bicho mais faltava aparecer, mas Gabriel não estava mais escutando. Tinha tido um estalo.
Até aquele momento, não havia ligado as duas aparições misteriosas: o "rato" que não era "rato", mas sim um porquinho-da-índia, e a "galinha" que não era "galinha", mas sim uma... Uma... O que era mesmo aquela ave? Gabriel lembrou-se de um documentário sobre o cerrado que assistira certa vez na tevê. Lembrava-se bem da fauna típica daquela região: o tamanduá-bandeira, o tatu-canastra, a onça-pintada, o cachorro-vinagre... Dentre as espécies de aves, havia a siriema, que era bem parecida com aquela que acabara de ver, com as pernas compridas, a cauda e a crista de penas. Procurou por "siriema" e "cerrado" na enciclopédia que tinham em casa, mas não encontrou nenhuma foto da ave. Pensou que, se não estivesse no meio das férias, podia ir à biblioteca de escola e procurar por mais informações.
Mesmo assim, estava plenamente convencido de que se tratava de uma siriema. Só que algumas coisas o intrigavam. Sua casa ficava muito longe do cerrado (pelo que ele se lembrava, era perto do Pantanal). O que aquela ave estaria fazendo ali? Como havia chegado? Teria ela alguma relação com o porquinho-da-índia? Decidiu aproveitar o dia sem chuva para encontrar respostas para essas perguntas, fazendo uma investigação tal qual os detetives dos livros e dos programas da tevê. Começou pela área de serviço, onde o porquinho-da-índia havia aparecido, mas não achou nenhuma pista. Depois, passou para o jardim, onde tinha topado com a siriema, mas a única coisa fora do comum que encontrou foram as minhocas.
Uma hipótese começou a se formar em sua cabeça. Porquinhos-da-índia, até onde ele sabia, eram animais de estimação, não costumavam vagar por aí sozinhos e, provavelmente, não deviam sobreviver por muito tempo sem ninguém cuidando deles. Por outro lado, siriemas eram animais selvagens, mas só viviam no cerrado. E era muito improvável, para não dizer impossível, que aquela ave tivesse vindo andando do cerrado até o jardim de sua casa (afinal, segundo se lembrava de ter visto no documentário, siriemas, assim como as galinhas, não voavam). Isso só poderia significar que tanto o porquinho-da-índia quanto a siriema pertenciam a alguém e deviam ter fugido.
Mas será que ambos os bichos eram da mesma pessoa? Será que o dono não estaria preocupado, procurando por eles? Só havia uma coisa a se fazer. Gabriel foi até seu quarto, apanhou seu bloco de notas e um lápis e os colocou num dos bolsos da bermuda. No outro, colocou uma barra de chocolate. Aproveitou que a mãe estava no telefone e mentiu para ela, dizendo que ia até o campinho de futebol e que não demorava a voltar. Saiu o mais rápido que pôde, antes que a mãe começasse a fazer muitas perguntas.
Durante um bom tempo, manteve-se entretido contando as inúmeras minhocas que haviam aparecido na superfícia fofa da terra. Apenas as enumerava e observava, sem mexer com elas – passara a simpatizar com as bichinhas depois que descobriu que, assim como as lagartixas, elas eram capazes de regenerar partes de seus corpos. A contagem já estava na oitava minhoca quando escutou um ruído atrás de si. Quando virou-se, deu de cara com uma ave estranha – tinha mais ou menos metade de sua altura, pernas compridas avermelhadas, cauda longa e uma grande crista de penas na cabeça. Sua primeira reação foi ficar com medo, mas a ave parecia alheia à sua presença. Lentamente, foi caminhando para trás, em direção à área de serviço, até chegar à porta da cozinha. A ave continuava no jardim e agora havia começado a ciscar o chão.
Num sussurro, chamou a mãe, mas ela não ouviu, pois estava na sala. Foi até lá e contou que tinha um bicho estranho no jardim. A mãe levantou-se da poltrona, perguntando que tipo de bicho era, Gabriel respondeu que era uma ave. Quando a mãe chegou na porta da cozinha, tomou um susto – ela esperava encontrar um bicho bem menor. Apanhou a vassoura pendurada num suporte na área de serviço e começou a gritar e correr atrás da ave. Esta, por sua vez, iniciou a fuga numa cômica mistura de passos desajeitados e pequenos saltos. O menino também correu junto da mãe, gritando "xô, xô!" e achando tudo muito divertido. Finalmente, conseguiram tocar a ave para fora e a mãe pôde voltar para dentro de casa, reclamando que aquilo ia acabar virando um zoológico. Primeiro, tinha sido o "rato"; agora, uma "galinha". A mãe, resmungando, perguntava-se que bicho mais faltava aparecer, mas Gabriel não estava mais escutando. Tinha tido um estalo.
Até aquele momento, não havia ligado as duas aparições misteriosas: o "rato" que não era "rato", mas sim um porquinho-da-índia, e a "galinha" que não era "galinha", mas sim uma... Uma... O que era mesmo aquela ave? Gabriel lembrou-se de um documentário sobre o cerrado que assistira certa vez na tevê. Lembrava-se bem da fauna típica daquela região: o tamanduá-bandeira, o tatu-canastra, a onça-pintada, o cachorro-vinagre... Dentre as espécies de aves, havia a siriema, que era bem parecida com aquela que acabara de ver, com as pernas compridas, a cauda e a crista de penas. Procurou por "siriema" e "cerrado" na enciclopédia que tinham em casa, mas não encontrou nenhuma foto da ave. Pensou que, se não estivesse no meio das férias, podia ir à biblioteca de escola e procurar por mais informações.
Mesmo assim, estava plenamente convencido de que se tratava de uma siriema. Só que algumas coisas o intrigavam. Sua casa ficava muito longe do cerrado (pelo que ele se lembrava, era perto do Pantanal). O que aquela ave estaria fazendo ali? Como havia chegado? Teria ela alguma relação com o porquinho-da-índia? Decidiu aproveitar o dia sem chuva para encontrar respostas para essas perguntas, fazendo uma investigação tal qual os detetives dos livros e dos programas da tevê. Começou pela área de serviço, onde o porquinho-da-índia havia aparecido, mas não achou nenhuma pista. Depois, passou para o jardim, onde tinha topado com a siriema, mas a única coisa fora do comum que encontrou foram as minhocas.
Uma hipótese começou a se formar em sua cabeça. Porquinhos-da-índia, até onde ele sabia, eram animais de estimação, não costumavam vagar por aí sozinhos e, provavelmente, não deviam sobreviver por muito tempo sem ninguém cuidando deles. Por outro lado, siriemas eram animais selvagens, mas só viviam no cerrado. E era muito improvável, para não dizer impossível, que aquela ave tivesse vindo andando do cerrado até o jardim de sua casa (afinal, segundo se lembrava de ter visto no documentário, siriemas, assim como as galinhas, não voavam). Isso só poderia significar que tanto o porquinho-da-índia quanto a siriema pertenciam a alguém e deviam ter fugido.
Mas será que ambos os bichos eram da mesma pessoa? Será que o dono não estaria preocupado, procurando por eles? Só havia uma coisa a se fazer. Gabriel foi até seu quarto, apanhou seu bloco de notas e um lápis e os colocou num dos bolsos da bermuda. No outro, colocou uma barra de chocolate. Aproveitou que a mãe estava no telefone e mentiu para ela, dizendo que ia até o campinho de futebol e que não demorava a voltar. Saiu o mais rápido que pôde, antes que a mãe começasse a fazer muitas perguntas.
(Continua...)


