Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

[Veritas]

De volta do mercadinho, ele faz uma careta ao sentir o cheiro de mofo no quarto, o qual não havia percebido antes de sair para a rua. Deixa o garrafão de cinco litros em cima da cômoda e abre a janela. Olha rapidamente em direção à árvore solitária na beira do rio, apenas para não perder o costume, e somente então se senta na cama ainda desarrumada. Observa o brilho avermelhado provocado pelo raio de sol incidindo sobre o garrafão de vinho vagabundo e se lembra de uma conversa que teve alguns meses atrás.
Na verdade, foi mais um monólogo. Começou, como sempre, com divagações:
— Teve uma época em que eu queria ser sommelier, sabia? Tava encantado com os rituais, os detalhes, aquele misto de religião com ciência. Mas, ao mesmo tempo, eu ficava incomodado com aquela empáfia toda de decanter, bouquet, retrogosto e o caralho. Achava uma tremenda futilidade ficar babando por uma garrafa que custava quase um salário mínimo. Mas no fim das contas, eu acabava chegando à conclusão de que aquela minha implicância devia ser só dor-de-cotovelo, coisa de quem não podia ir à festa chique porque não tinha o traje apropriado.
Ele se levanta e se coloca diante da cômoda, tocando de leve no garrafão com as pontas dos dedos. E se lembra do que disse em seguida:
— Hoje, aquilo tudo soa como um pensamento besta. Como a lembrança dum desejo infantil de ser astronauta ou caubói. Porque hoje eu escolho a garrafa não a partir do rótulo, mas sim pela etiqueta do preço. Hoje o único varietal que eu conheço é o "de mesa". Hoje as minhas marcas preferidas são as que vêm lacradas com tampa de plástico, porque são mais baratas que um saca-rolhas. Hoje, em ocasiões muito especiais, eu me dou ao luxo de comprar um argentino meia-boca na promoção. E ainda me esforço pra ele durar pelo menos duas noites, pra valer a pena. Hoje o grande ritual do vinho não é antes de abrir, mas sim depois de entornar a garrafa toda. É assim: eu sento no vaso, cago e depois, ainda meio bêbado, fico lá dando risada da coloração escura da bosta. Aquela coisa meio preta, meio esverdeada.
Sorri ao se lembrar da cara de nojo que ela fez diante da conclusão escatológica. Mas sente uma pontada de melancolia ao pensar na única coisa que ela disse depois daquele monólogo:
— Mas, vem cá, você tá realmente falando de vinho?

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