Quinta-feira, Novembro 22, 2007

[O vermelho que abre este dia]

Encolhido na poltrona de revestimento desbotado e meio puído do quarto de hotel, ele despeja o restinho de vinho no copo. Em seguida, deita aquela garrafa vazia no chão e a empurra com força moderada, fazendo-a rolar em direção à outra, que jaz enconstada perto do armário desde o início da madrugada. O tilintar provocado pelo choque entre as duas o faz lembrar do pai, que sempre andava para cima e para baixo com um engradado de vasilhames no porta-malas da perua. Olha para a cômoda e se certifica de que resta a terceira e última garrafa de vinho, ainda lacrada, dentro do saco plástico de supermercado.
Vira-se para trás e fica de joelhos sobre a poltrona. Aproxima o rosto da janela e sua respiração embaça o vidro, que do lado de fora está enfeitado por dezenas de gotículas de orvalho. Sinal de que será mais um dia frio naquelas bandas. Pensa num bule fumegante despejando chocolate quente numa xícara branca – justo ele, que não bebe leite. De uns tempos para cá, isso tem se repetido com cada vez mais freqüência: coisas que ele nunca fez surgem de repente em sua mente, como se fossem lembranças vívidas, quase palpáveis.
A vista da janela o agrada, embora imagine que se sentiria satisfeito qualquer que fosse a paisagem lá fora. É esse tipo de efeito e fascínio que as cidades desconhecidas exercem sobre ele. Tudo ainda está silencioso e adormecido e as ruas estão desertas. Contém o ímpeto repentino de pegar o MP3-player na bolsa. A música tem o poder de definir o humor do dia – e naquela manhã em especial, ele prefere deixar que o dia escolha seu próprio ritmo. Uma balada da Gillian Welch. Um midtempo do Clem Snide. Uma paulada dos Drive-By Truckers.
Do outro lado da rua, um muro branco descascado separa a calçada de um extenso terreno vazio. Ao longe, um salgueiro-chorão solitário guarda a ribanceira do rio. Ele gosta daquela árvore – sua aparência melancólica e seus contornos imprecisos o fazem pensar num quadro de Monet, impressão esta reforçada pela luz difusa dos tímidos primeiros raios de sol daquela manhã. Melhor seria se conseguisse enxergar o leito do rio. Seu estômago ronca, avisando-o que a última refeição foi feita na tarde anterior. O jantar foi cancelado em virtude da chuva que caiu no começo da noite. Bebe o último gole.
Lembra-se da história do velho que vivia numa cabana nas margens de um rio parecido com aquele e que era capaz de dizer se iria chover ou não apenas farejando o ar e olhando para as águas barrentas. Balança a cabeça negativamente, sem conseguir se lembrar se alguém tinha lhe contado essa história, se tinha lido-a em algum lugar ou se tudo não passava de mera invenção sua. Não importa, ele pensa; de um jeito ou de outro, o velho existe em algum lugar. Levanta-se, tira o canivete do bolso, caminha até a cômoda e abre a terceira garrafa, enquanto decide se enche a banheira com água quente ou se sai para procurar uma padaria que esteja aberta.

0 Como estou dirigindo?: