Acordou com um sobressalto numa cama que não era sua. Murmurou um palavrão, maldizendo sua estupidez e a dor de cabeça que prenunciava uma ressaca monstruosa. Ficou quieta durante alguns instantes, atenta a qualquer ruído que lhe informasse onde estaria o dono daquela cama. Talvez no banheiro (que, imaginou, ficava detrás de uma das portas que havia no quarto). Nada. Quem sabe na cozinha, preparando o café da manhã. Riu do pensamento disparatado e se arrependeu quando a cabeça começou a latejar. Fechou os olhos e procurou ficar imóvel.
Vasculhou suas lembranças da noite anterior, mas, ironicamente, a última cena da qual recordava com clareza era dela própria dizendo à amiga Clarisse que não iria beber -- pensou que isso era obra do seu cérebro tentando bancar o engraçadinho ou lhe ensinar uma lição. Havia a imagem nebulosa de si mesma conversando com um carinha, mas não conseguia atribuir um rosto àquela noção de pessoa. Tampouco se lembrava de ter aceito ir para a casa de um estranho ou do trajeto percorrido até ali. Podia até estar em outra cidade.
Percebeu uma coisa estranha: à exceção dos pés, descalços, estava completamente vestida. Perguntou-se se, depois da trepada, teria tido alguma espécie de ataque de pudor tardio. Ou se o sujeito teria se dado ao trabalho de vesti-la, sabe-se lá por que motivo. A explicação mais simples era a de que ambos estavam bêbados demais e não havia acontecido coisa alguma. Tomou coragem e sentou-se. A cabeça ameaçou explodir.
Procurando evitar movimentos bruscos, olhou ao redor. Sua bolsa estava sobre a cômoda. Checou o celular: funcionando, com sinal, sem mensagens ou chamadas perdidas. Sentiu-se meio tola, mas conferiu se o dinheiro e os documentos estavam na carteira. Estavam. Levantou-se e pisou em suas sandálias, que estavam diante da cama. Afastou a cortina e olhou pela janela. Descobriu que era um apartamento, mas, para seu azar, deparou-se com um prédio logo em frente, atrapalhando a visão. Nas laterais, havia terrenos de outros edifícios e casas e uma rua genérica. Nada que lhe parecesse familiar ou desse uma pista de onde estava.
Dirigiu-se até uma das portas e, depois de hesitar um pouco, bateu de leve. Ninguém respondeu. Abriu-a lentamente. Era o banheiro. Sobre a pia, havia aparelho de barbear e uma lata de espuma; um copo onde respousavam escova de dente e tubo de pasta; desodorante, loção pós-barba e hidratante para o rosto. Parecia tudo limpo e arrumado, exceto por uma garrafa de Listerine sem tampa. Abriu o armarinho e, entre vidros de perfume, pacotes de algodão e caixas de cotonete e Band-aid, encontrou um tesouro: uma pequena farmácia, onde logo identificou a embalagem de analgésico. Pegou um comprimido e o engoliu a seco, sentindo a garganta arranhar um pouco.
Ficou mais animada com a ideia de que ao menos a dor de cabeça dali a pouco daria uma trégua. Baixou as calças e sentou-se no vaso. Quando terminou, puxou a descarga, mas imediatamente se arrependeu. O barulho poderia alertar seu anfitrião de que havia acordado. Permaneceu calada, congelada numa posição meio ridícula: uma das mãos puxado a blusa para baixo, numa tentativa de se cobrir, e a outra no botão da descarga. Nenhum barulho. Recompôs-se e decidiu que era hora de se mandar.
Voltou ao quarto, calçou as sandálias e apanhou a bolsa. Um pouco receosa, abriu a outra porta e saiu, pé ante pé. Viu-se em um corredor com paredes cheias de fotos em preto-e-branco de paisagens. Dava para uma sala ampla, decorada com sobriedade e algum estilo -- vasos de plantas, móveis modernos e um quadro minimalista e geométrico, querendo emular Mondrian. Assustou-se ao perceber que havia alguém no sofá. Era o dono do apartamento, dormindo.
O sujeito parecia ter sua idade ou um pouco menos. Não era exatamente bonito, mas alguns de seus traços eram marcantes. Tinha os cabelos ligeiramente compridos, que ele talvez usasse meio desgrenhados (era assim, pelo menos, que ela imaginava que lhe cairiam melhor). Levantou as cobertas. Usava camiseta e samba-canção. Parecia magro e atlético. E tinha pernas bonitas. Cobriu-o. Definitivamente, fazia seu tipo. Agora entendia por que tinha topado vir até a casa dele.
Tomou novo susto ao sentir o celular vibrando dentro da bolsa. Era Clarisse, provavelmente querendo saber se estava tudo bem. Não atendeu. Olhou para a porta: a chave estava na fechadura. Podia sair e descobrir como ir embora para casa. Ou podia ficar e descobrir por que aquele sujeito não quis tirar proveito de uma garota bêbada.
* * *
Ela o beijava, sôfrega, e tentava puxá-lo para algum lugar. Entendeu que ela queria ser levada até a cama. Conduziu-a até seu quarto. Deteve-se por um instante, contemplando-a. Com os olhos semicerrados, a garota sorriu. Em seguida, franziu o cenho e, com a voz mole, balbuciou alguma coisa. Teve que pedir que ela repetisse. Era algo sobre "toalete". Apontou para a porta atrás dela. A garota fez sinal com a mão para que esperasse e entrou no banheiro.
Sentou-se na cama. Deu um tapa na testa quando ouviu aqueles ruídos -- ela estava vomitando. Bateu de leve na porta e perguntou se estava tudo bem. "Um-hum", ela respondeu. Depois de alguns instantes, o som da descarga. Pelo menos, tinha sido no vaso. Ela novamente balbuciou alguma coisa. Novamente teve que pedir que ela repetisse. Era algo sobre "Listerine". "Pode usar, tá em cima da pia", respondeu. Barulho de tampa caindo, bochechos, pia sendo aberta e fechada. Mais alguns instantes e então a garota finalmente saiu. Ela sorriu e, trôpega, caminhou em sua direção. Abraçaram-se, beijaram-se e desabaram na cama.
Foi sua vez de pedir um instante. Levantou-se e entrou no banheiro. Usou o vaso e puxou a descarga. Abriu o armarinho e, de dentro da pequena farmácia, pegou uma camisinha. Olhou-se no espelho. Lavou as mãos, jogou uma água no rosto e ajeitou o cabelo. Conferiu o hálito. Voltou para o quarto. Suspirou: a garota tinha apagado. Aproximou-se e ficou observando-a. Não era exatamente bonita, mas alguns de seus traços eram marcantes. Definitivamente, fazia seu tipo. Mas havia algo a mais nela que o fazia se sentir atraído e estranhamente à vontade em sua presença.
Tirou-lhe as sandálias e colocou-as diante da cama. Sentiu-se tentado a tirar-lhe também as calças para ver suas pernas e o tipo de calcinha que usava. Em vez disso, apenas cobriu-a. Aproximou-se e beijou-lhe o rosto. Foi então que se deu conta. Era o perfume, vagamente familiar, que lhe transmitia algo parecido com a lembrança nostálgica de uma época feliz, porém indefinida. Inspirou novamente aquele cheiro, que se misturava com um odor de fumaça de cigarro. Pensou em deitar-se ali, com a garota, mas desistiu.
Levantou-se, dirigiu-lhe um último olhar e saiu do quarto. Enquanto encostava a porta, murmurou um palavrão, maldizendo sua estupidez.