"A história só depende de quem a conta", costuma dizer um amigo meu. E tenho que concordar. Outra pessoa poderia descrever o misterioso personagem central do episódio que vou narrar como sendo alguma entidade de origem africana. Ou uma alma penada. Para mim, parecia mais uma encarnação do Robert Johnson -- do lugar em que me esperava (uma encruzilhada) à poeira que maculava seu terno alinhado, tudo remetia a uma estrada perdida no Delta do Mississippi.
Sorriu-me com dentes brancos, reluzentes sob a luz do poste, e ergueu-me o chapéu em saudação. Avançou um passo em minha direção; em resposta, ofereci minha melhor cara de "pois não, o que deseja?". Ele franziu a testa e me disse, numa voz rouca, curtida em tonéis de carvalho:
— Geralmente eu é que faço essa pergunta, rapaz.
Não cheguei a me surpreender com a demonstração de telepatia. Era de se esperar que algo assim acontecesse -- como se toda a literatura fantástica devorada nos anos de formação houvesse me preparado para aquele instante. A seguir, eu sabia, viria uma proposta de pacto com o além. Ele balançou a cabeça:
— Não, não é assim que funciona. Primeiro você me oferece uma bebida.
Mais uma vez, não houve espanto ao perceber que a rua, outrora morta, revelava uma tímida luz vinda de um estabelecimento comercial ainda aberto naquele horário avançado: um bar, é claro. Dirigimo-nos até lá e sentamo-nos em uma das muitas mesas disponíveis. Aliás, não havia cliente algum além de nós e, apesar disso, o garçom não parecia aborrecido. Imaginei que meu convidado gostaria de Tennessee whiskey e pedi duas doses, mas ele corrigiu:
— Melhor trazer a garrafa.
Puxou, em seguida, algo do bolso interno do paletó: um cigarro enrolado à mão, que acendeu com um daqueles fósforos de cartela. Pensei em alertá-lo de que era proibido fumar ali, mas acabei concluindo que minha observação fatalmente seria ignorada. Permanecemos calados e, pela posição em que estava, não conseguia enxergar seus olhos, ocultos pela aba do chapéu e pela fumaça.
O garçom voltou com nosso pedido e serviu uma dose dupla para cada, mesmo não tendo sido instruído para tal. Bebi um gole, enquanto meu conviva sorveu tudo de uma só vez, estalando a língua, satisfeito. Finalmente, voltou-se para mim e passou a me fitar com interesse:
— E então, rapaz, o que vai ser? Dinheiro? Fama? Mulheres? Hum, quem sabe uma mulher, em especial...
Mexi-me na cadeira, desconfortável com a invasão de privacidade mental, e concentrei-me na ideia de que não teria a menor graça acordar num belo dia e simplesmente ter tudo. Ele riu:
— Nada disso. As coisas não caem no seu colo da noite para o dia -- você tem que conquistá-las. Você continua sendo você mesmo, só que... Só que com um empurrãozinho, digamos assim. E, claro, com a certeza de que, eventualmente, vai ter tudo o que deseja.
Antes que eu pudesse abrir a boca, ele acrescentou:
— Já sei, já sei, você vai perguntar por que, então, precisa de mim. Mas sou eu que pergunto: por que você precisa de mim?
Com o ar triunfante de quem pôs fim a uma discussão, ele reabasteceu o copo. Supus que aquela seria a hora em que ele colocaria seu preço: minha alma, provavelmente. Ele explodiu em uma gargalhada zombeteira:
— Alma? E ficar no prejuízo? Você tem muito mais blues do que soul...
Entornei num gole o que restava no meu copo.
— Ah, vamos lá, foi só uma brincadeira. Achei que você gostaria do trocadilho. É o seguinte: você fica com tudo o que quiser -- inclusive com a sua preciosa alma. E eu volto algum dia para cobrar a dívida. Não posso adiantar agora o que vai ser, porque eu só decido na hora. Talvez seja um favor ou algo que eu queira muito. Veremos.
Servi-me outra dose, conjeturando se o outro sujeito teria, por acaso, uma contraproposta. O pensamento exasperou meu convidado:
— Vocês, sempre com esse maniqueísmo imbecil. Isto aqui não é uma disputa entre mocinhos e bandidos. Muito menos um leilão.
Quedamo-nos em silêncio. Procurei avaliar a situação. Nunca fui muito religioso, então isso não chegava a ser um problema. A questão toda era moral. Do outro lado da mesa, meu companheiro de bebida parecia ignorar minha presença. Mas eu sabia que ele acompanhava cada pensamento meu. Já havíamos quase liquidado a garrafa quando ele, enfim, bufou, resignado:
— Você realmente quer envolver o "outro sujeito" no nosso pequeno negócio, não é? Então aqui está.
Retirou algo de um dos bolsos e atirou para mim. Era uma moeda. Não uma moeda qualquer -- era pesada, aparentemente de prata, com um rosto gravado em uma das faces e uma coroa na outra. Uma tradução literal do velho jogo. Antes que eu pudesse formular a pergunta, ele disse, entediado:
— Que pensamento mais limitado. Eu não esperava isso de você. Não, o "outro sujeito" não se manifesta por meio do acaso. Nada de acerto em linhas tortas. O jogo aqui é diferente: a moeda descobre o que você realmente quer e mostra a resposta. As opções? Coroa: você paga a conta. Eu lhe dou uma das coisas que ofereci antes, mas você sempre vai se sentir culpado por ter trapaceado, por não merecer o que ganhou. Cara: eu pago a conta. Você nunca vai conquistar nada do que deseja, mas sempre vai ter a lembrança deste nosso encontro. E vai poder atribuir o seu fracasso a mim. Ou ao "outro sujeito". Como quiser.
Despejei o restante do conteúdo da garrafa no meu copo. Ele soltou uma interjeição de desprezo:
— Se eu quisesse enganá-lo, teria feito isso desde o começo.
Bebi o whiskey, bati o copo na mesa com força desnecessária e, sem pensar muito, atirei a moeda para o alto. Deixei-a cair no dorso da mão esquerda e, imediatamente, cobri-a com a direita. Quando tomei coragem e vi o resultado, não soube dizer se havia ganhado ou perdido. Achei que viria um riso de escárnio, mas meu convidado simplesmente deu de ombros e disse:
— A história só depende de quem a conta.