Tudo começou a mudar numa tarde quente de novembro.
Júlio saiu esbaforido pelo portão verde, com as barras da calça de moletom erguidas quase até os joelhos -- mesmo naquele calor, os meninos não tinham permissão para usar bermuda no colégio de freiras. Sentia-se meio empanturrado com o x-tudo e a Fanta engolidos às pressas na cantina. Às quintas-feiras, sua classe tinha Educação Física no último horário e a maioria aproveitava para ir embora mais cedo. Mas não ele. Aquela era a única aula na qual conseguia se destacar. Em todas as outras, seu desempenho ia de mediano a ruim. Especialmente ruim em Exatas.
Olhou o relógio: estava atrasado. Ia estudar em grupo para os exames finais. Sabia que não tinha muita chance de escapar da recuperação, mas, para ele, os encontros serviam mais como uma oportunidade de reunir sua pequena turma fora do ambiente da escola. Eram dois casais. Pelo menos, era assim que gostava de enxergá-los.
Embora não tivessem muito em comum, Rodrigo era o que estava mais próximo de ser um melhor amigo. Franzino e desengonçado, compensava a total falta de coordenação para atividades físicas com um rico arsenal de opiniões formadas sobre qualquer assunto. A única que conseguia fazê-lo se calar era Tânia, por quem Rodrigo era óbvia, mas não declaradamente, apaixonado.
Tânia era a mais inteligente e também a mais estranha. Sua bipolaridade beirava o inacreditável: ria de um jeito escandaloso e, literalmente no segundo seguinte, quedava quieta e amuada sem razão aparente. Era capaz de se tornar a pessoa mais meiga e afável logo depois de uma incontrolável explosão de nervos. Nem mesmo os professores sabiam como lidar com seu humor intempestivo.
E tinha Verônica... Ela costumava prestigiar as partidas de basquete. Júlio lembrava-se de uma, em particular, na qual, após ouvir a voz da garota gritando seu nome em pleno ginásio, ficara desconcertado e perdera a bola, fazendo com que a equipe adversária encostasse no placar e o treinador fosse obrigado a pedir tempo. Quando estavam só os dois juntos, no entanto, o efeito era o contrário. Verônica o fazia dizer coisas engraçadas, interessantes, profundas. Ao lado dela, sentia-se uma pessoa melhor.
Chegou ao prédio em que Tânia morava. Era um daqueles conjuntos antigos em que não havia porteiro, apenas campainhas diretas para cada apartamento. Ia apertar o botão referente ao número doze, mas uma senhora que saía, vendo aquele rapaz alto e bonito, de mochila nas costas e uniforme escolar, sorriu e gentilmente segurou o portão para que ele entrasse. Mais tarde, lembrando-se desse gesto, ele presumiria que, se não fosse aquela senhora, as coisas poderiam ter sido diferentes.
Nem bem havia chegado ao saguão de entrada, ouviu um grito. Era Verônica. Não pensou duas vezes. Subiu as escadas num piscar de olhos, com suas passadas largas de atleta. A porta do apartamento doze estava entreaberta. Irrompeu na sala. Verônica com as duas mãos cobrindo a boca, paralisada de medo. Rodrigo no chão, o rosto coberto de dor. Em pé, diante dele, trôpego e visivelmente embriagado, o pai de Tânia, com uma expressão colérica, segurando um bastão de madeira. Nenhum sinal da filha.
De repente, algumas imagens vieram à mente de Júlio em um flash, conferindo novo significado a acontecimentos aos quais, até então, dera pouca atenção. As ocasiões em que Tânia chegava vestindo blusas de mangas compridas, parecendo ainda mais arisca do que o habitual e fazendo com que Rodrigo ficasse apreensivo e agitado. O dia em que Rodrigo chegou com o braço engessado e, hesitante, contou que havia caído da árvore no sítio de um tio -- logo ele, tão pouco afeito a aventuras na natureza e reuniões de família.
A conclusão podia ser cruel, mas praticamente se confirmava ali, naquela sala, e impeliu Júlio a agir.
Em uma série de movimentos rápidos e precisos, como em uma jogada ensaiada, o armador da equipe de basquete avançou em direção ao velho bêbado e acertou-lhe um pontapé no estômago. Aproveitando-se do momento de fraqueza do homem, tomou-lhe o pedaço de pau. Girou o corpo e tentou repetir a coreografia dos rebatedores que via nas transmissões de beisebol na tevê a cabo, só que direcionando a mira para baixo. Jogou o peso do corpanzil e deixou toda a energia do movimento ser transferida para o bastão, sem se dar conta de que aquilo era Física pura. Atingiu em cheio o joelho do pai de Tânia.
O velho tombou, gritando. Júlio estava pronto para nova investida, mas sentiu a mão de Verônica em seu ombro.
— A gente precisa levar ele pro hospital.
Ela se referia, é claro, a Rodrigo. Júlio balançou a cabeça, afirmativamente. Com um golpe firme contra a própria perna, partiu o pedaço de madeira em dois e atirou as metades para longe, dirigindo um olhar de desprezo para o pai de Tânia, que gemia no chão. Enquanto ajudava o amigo a descer a escada, teve a impressão de ouvir a porta de um dos apartamentos ao lado se fechando. Imaginou que os vizinhos deviam estar habituados a ouvir as brigas no número doze sem jamais tomar uma atitude.
No pronto-socorro, disseram que Júlio havia se machucado em uma dividida sem maldade no jogo de futebol. Enquanto ele era atendido, o casal ficou na sala de espera. Júlio pensou em perguntar se Verônica já tinha testemunhado algum outro episódio como aquele, mas acabou desistindo. Estava prestes a dizer algo trivial para quebrar o silêncio quando reparou que uma lágrima escorria pelo rosto da garota. Quando tocou em sua mão, ela imediatamente o abraçou e começou a soluçar.
Ficaram assim, calados, durante um bom tempo. Mesmo depois de se acalmar, Verônica manteve a cabeça apoiada no ombro de Júlio, segurando seu braço forte. Ele, de vez em quando, acariciava o rosto dela. Do ângulo em que estava, conseguia espiar, através do decote em vê da blusa da escola, a curva dos seios e o sutiã branco que ela usava. Júlio fechou os olhos e torceu para que Verônica não notasse sua respiração ofegante.
* * *
Os quatro só se reuniram novamente na segunda-feira e, mesmo assim, por um breve instante. Na hora do intervalo, Júlio avistou de longe os três sentados na escada perto do parquinho. Aproximou-se, mas antes que pudesse cumprimentá-los, Tânia se levantou e saiu resmungando algo sobre "covardia". Olhou, confuso, para os outros dois, que não disseram nada. Sentou-se com eles na escada. Depois de alguns instantes, Rodrigo começou, enfim, a relutantemente contar que o pai de Tânia tivera que ir para o hospital para cuidar do joelho e, com isso, perdera uma entrevista de emprego em uma empresa de transportes.
Júlio entendeu. Era a ele que Tânia se referia; achava-o um covarde por ter agredido e prejudicado um velho inocente e indefeso. Um pai alcólatra que abusava dela, mas que mesmo assim ela defendia. Sentiu raiva. Sentiu-se terrivelmente injustiçado. Em parte por causa de Tânia. Em parte porque Verônica tinha o braço entrelaçado com o de Rodrigo, a mão repousando sobre a coxa dele, em intimidade excessiva. Cerrou os punhos com força, até sentir as unhas cravando sua própria carne.
Júlio saiu esbaforido pelo portão verde, com as barras da calça de moletom erguidas quase até os joelhos -- mesmo naquele calor, os meninos não tinham permissão para usar bermuda no colégio de freiras. Sentia-se meio empanturrado com o x-tudo e a Fanta engolidos às pressas na cantina. Às quintas-feiras, sua classe tinha Educação Física no último horário e a maioria aproveitava para ir embora mais cedo. Mas não ele. Aquela era a única aula na qual conseguia se destacar. Em todas as outras, seu desempenho ia de mediano a ruim. Especialmente ruim em Exatas.
Olhou o relógio: estava atrasado. Ia estudar em grupo para os exames finais. Sabia que não tinha muita chance de escapar da recuperação, mas, para ele, os encontros serviam mais como uma oportunidade de reunir sua pequena turma fora do ambiente da escola. Eram dois casais. Pelo menos, era assim que gostava de enxergá-los.
Embora não tivessem muito em comum, Rodrigo era o que estava mais próximo de ser um melhor amigo. Franzino e desengonçado, compensava a total falta de coordenação para atividades físicas com um rico arsenal de opiniões formadas sobre qualquer assunto. A única que conseguia fazê-lo se calar era Tânia, por quem Rodrigo era óbvia, mas não declaradamente, apaixonado.
Tânia era a mais inteligente e também a mais estranha. Sua bipolaridade beirava o inacreditável: ria de um jeito escandaloso e, literalmente no segundo seguinte, quedava quieta e amuada sem razão aparente. Era capaz de se tornar a pessoa mais meiga e afável logo depois de uma incontrolável explosão de nervos. Nem mesmo os professores sabiam como lidar com seu humor intempestivo.
E tinha Verônica... Ela costumava prestigiar as partidas de basquete. Júlio lembrava-se de uma, em particular, na qual, após ouvir a voz da garota gritando seu nome em pleno ginásio, ficara desconcertado e perdera a bola, fazendo com que a equipe adversária encostasse no placar e o treinador fosse obrigado a pedir tempo. Quando estavam só os dois juntos, no entanto, o efeito era o contrário. Verônica o fazia dizer coisas engraçadas, interessantes, profundas. Ao lado dela, sentia-se uma pessoa melhor.
Chegou ao prédio em que Tânia morava. Era um daqueles conjuntos antigos em que não havia porteiro, apenas campainhas diretas para cada apartamento. Ia apertar o botão referente ao número doze, mas uma senhora que saía, vendo aquele rapaz alto e bonito, de mochila nas costas e uniforme escolar, sorriu e gentilmente segurou o portão para que ele entrasse. Mais tarde, lembrando-se desse gesto, ele presumiria que, se não fosse aquela senhora, as coisas poderiam ter sido diferentes.
Nem bem havia chegado ao saguão de entrada, ouviu um grito. Era Verônica. Não pensou duas vezes. Subiu as escadas num piscar de olhos, com suas passadas largas de atleta. A porta do apartamento doze estava entreaberta. Irrompeu na sala. Verônica com as duas mãos cobrindo a boca, paralisada de medo. Rodrigo no chão, o rosto coberto de dor. Em pé, diante dele, trôpego e visivelmente embriagado, o pai de Tânia, com uma expressão colérica, segurando um bastão de madeira. Nenhum sinal da filha.
De repente, algumas imagens vieram à mente de Júlio em um flash, conferindo novo significado a acontecimentos aos quais, até então, dera pouca atenção. As ocasiões em que Tânia chegava vestindo blusas de mangas compridas, parecendo ainda mais arisca do que o habitual e fazendo com que Rodrigo ficasse apreensivo e agitado. O dia em que Rodrigo chegou com o braço engessado e, hesitante, contou que havia caído da árvore no sítio de um tio -- logo ele, tão pouco afeito a aventuras na natureza e reuniões de família.
A conclusão podia ser cruel, mas praticamente se confirmava ali, naquela sala, e impeliu Júlio a agir.
Em uma série de movimentos rápidos e precisos, como em uma jogada ensaiada, o armador da equipe de basquete avançou em direção ao velho bêbado e acertou-lhe um pontapé no estômago. Aproveitando-se do momento de fraqueza do homem, tomou-lhe o pedaço de pau. Girou o corpo e tentou repetir a coreografia dos rebatedores que via nas transmissões de beisebol na tevê a cabo, só que direcionando a mira para baixo. Jogou o peso do corpanzil e deixou toda a energia do movimento ser transferida para o bastão, sem se dar conta de que aquilo era Física pura. Atingiu em cheio o joelho do pai de Tânia.
O velho tombou, gritando. Júlio estava pronto para nova investida, mas sentiu a mão de Verônica em seu ombro.
— A gente precisa levar ele pro hospital.
Ela se referia, é claro, a Rodrigo. Júlio balançou a cabeça, afirmativamente. Com um golpe firme contra a própria perna, partiu o pedaço de madeira em dois e atirou as metades para longe, dirigindo um olhar de desprezo para o pai de Tânia, que gemia no chão. Enquanto ajudava o amigo a descer a escada, teve a impressão de ouvir a porta de um dos apartamentos ao lado se fechando. Imaginou que os vizinhos deviam estar habituados a ouvir as brigas no número doze sem jamais tomar uma atitude.
No pronto-socorro, disseram que Júlio havia se machucado em uma dividida sem maldade no jogo de futebol. Enquanto ele era atendido, o casal ficou na sala de espera. Júlio pensou em perguntar se Verônica já tinha testemunhado algum outro episódio como aquele, mas acabou desistindo. Estava prestes a dizer algo trivial para quebrar o silêncio quando reparou que uma lágrima escorria pelo rosto da garota. Quando tocou em sua mão, ela imediatamente o abraçou e começou a soluçar.
Ficaram assim, calados, durante um bom tempo. Mesmo depois de se acalmar, Verônica manteve a cabeça apoiada no ombro de Júlio, segurando seu braço forte. Ele, de vez em quando, acariciava o rosto dela. Do ângulo em que estava, conseguia espiar, através do decote em vê da blusa da escola, a curva dos seios e o sutiã branco que ela usava. Júlio fechou os olhos e torceu para que Verônica não notasse sua respiração ofegante.
* * *
Os quatro só se reuniram novamente na segunda-feira e, mesmo assim, por um breve instante. Na hora do intervalo, Júlio avistou de longe os três sentados na escada perto do parquinho. Aproximou-se, mas antes que pudesse cumprimentá-los, Tânia se levantou e saiu resmungando algo sobre "covardia". Olhou, confuso, para os outros dois, que não disseram nada. Sentou-se com eles na escada. Depois de alguns instantes, Rodrigo começou, enfim, a relutantemente contar que o pai de Tânia tivera que ir para o hospital para cuidar do joelho e, com isso, perdera uma entrevista de emprego em uma empresa de transportes.
Júlio entendeu. Era a ele que Tânia se referia; achava-o um covarde por ter agredido e prejudicado um velho inocente e indefeso. Um pai alcólatra que abusava dela, mas que mesmo assim ela defendia. Sentiu raiva. Sentiu-se terrivelmente injustiçado. Em parte por causa de Tânia. Em parte porque Verônica tinha o braço entrelaçado com o de Rodrigo, a mão repousando sobre a coxa dele, em intimidade excessiva. Cerrou os punhos com força, até sentir as unhas cravando sua própria carne.


