Sábado, Outubro 31, 2009

[15]

Tudo começou a mudar numa tarde quente de novembro.
Júlio saiu esbaforido pelo portão verde, com as barras da calça de moletom erguidas quase até os joelhos -- mesmo naquele calor, os meninos não tinham permissão para usar bermuda no colégio de freiras. Sentia-se meio empanturrado com o x-tudo e a Fanta engolidos às pressas na cantina. Às quintas-feiras, sua classe tinha Educação Física no último horário e a maioria aproveitava para ir embora mais cedo. Mas não ele. Aquela era a única aula na qual conseguia se destacar. Em todas as outras, seu desempenho ia de mediano a ruim. Especialmente ruim em Exatas.
Olhou o relógio: estava atrasado. Ia estudar em grupo para os exames finais. Sabia que não tinha muita chance de escapar da recuperação, mas, para ele, os encontros serviam mais como uma oportunidade de reunir sua pequena turma fora do ambiente da escola. Eram dois casais. Pelo menos, era assim que gostava de enxergá-los.
Embora não tivessem muito em comum, Rodrigo era o que estava mais próximo de ser um melhor amigo. Franzino e desengonçado, compensava a total falta de coordenação para atividades físicas com um rico arsenal de opiniões formadas sobre qualquer assunto. A única que conseguia fazê-lo se calar era Tânia, por quem Rodrigo era óbvia, mas não declaradamente, apaixonado.
Tânia era a mais inteligente e também a mais estranha. Sua bipolaridade beirava o inacreditável: ria de um jeito escandaloso e, literalmente no segundo seguinte, quedava quieta e amuada sem razão aparente. Era capaz de se tornar a pessoa mais meiga e afável logo depois de uma incontrolável explosão de nervos. Nem mesmo os professores sabiam como lidar com seu humor intempestivo.
E tinha Verônica... Ela costumava prestigiar as partidas de basquete. Júlio lembrava-se de uma, em particular, na qual, após ouvir a voz da garota gritando seu nome em pleno ginásio, ficara desconcertado e perdera a bola, fazendo com que a equipe adversária encostasse no placar e o treinador fosse obrigado a pedir tempo. Quando estavam só os dois juntos, no entanto, o efeito era o contrário. Verônica o fazia dizer coisas engraçadas, interessantes, profundas. Ao lado dela, sentia-se uma pessoa melhor.
Chegou ao prédio em que Tânia morava. Era um daqueles conjuntos antigos em que não havia porteiro, apenas campainhas diretas para cada apartamento. Ia apertar o botão referente ao número doze, mas uma senhora que saía, vendo aquele rapaz alto e bonito, de mochila nas costas e uniforme escolar, sorriu e gentilmente segurou o portão para que ele entrasse. Mais tarde, lembrando-se desse gesto, ele presumiria que, se não fosse aquela senhora, as coisas poderiam ter sido diferentes.
Nem bem havia chegado ao saguão de entrada, ouviu um grito. Era Verônica. Não pensou duas vezes. Subiu as escadas num piscar de olhos, com suas passadas largas de atleta. A porta do apartamento doze estava entreaberta. Irrompeu na sala. Verônica com as duas mãos cobrindo a boca, paralisada de medo. Rodrigo no chão, o rosto coberto de dor. Em pé, diante dele, trôpego e visivelmente embriagado, o pai de Tânia, com uma expressão colérica, segurando um bastão de madeira. Nenhum sinal da filha.
De repente, algumas imagens vieram à mente de Júlio em um flash, conferindo novo significado a acontecimentos aos quais, até então, dera pouca atenção. As ocasiões em que Tânia chegava vestindo blusas de mangas compridas, parecendo ainda mais arisca do que o habitual e fazendo com que Rodrigo ficasse apreensivo e agitado. O dia em que Rodrigo chegou com o braço engessado e, hesitante, contou que havia caído da árvore no sítio de um tio -- logo ele, tão pouco afeito a aventuras na natureza e reuniões de família.
A conclusão podia ser cruel, mas praticamente se confirmava ali, naquela sala, e impeliu Júlio a agir.
Em uma série de movimentos rápidos e precisos, como em uma jogada ensaiada, o armador da equipe de basquete avançou em direção ao velho bêbado e acertou-lhe um pontapé no estômago. Aproveitando-se do momento de fraqueza do homem, tomou-lhe o pedaço de pau. Girou o corpo e tentou repetir a coreografia dos rebatedores que via nas transmissões de beisebol na tevê a cabo, só que direcionando a mira para baixo. Jogou o peso do corpanzil e deixou toda a energia do movimento ser transferida para o bastão, sem se dar conta de que aquilo era Física pura. Atingiu em cheio o joelho do pai de Tânia.
O velho tombou, gritando. Júlio estava pronto para nova investida, mas sentiu a mão de Verônica em seu ombro.
— A gente precisa levar ele pro hospital.
Ela se referia, é claro, a Rodrigo. Júlio balançou a cabeça, afirmativamente. Com um golpe firme contra a própria perna, partiu o pedaço de madeira em dois e atirou as metades para longe, dirigindo um olhar de desprezo para o pai de Tânia, que gemia no chão. Enquanto ajudava o amigo a descer a escada, teve a impressão de ouvir a porta de um dos apartamentos ao lado se fechando. Imaginou que os vizinhos deviam estar habituados a ouvir as brigas no número doze sem jamais tomar uma atitude.
No pronto-socorro, disseram que Júlio havia se machucado em uma dividida sem maldade no jogo de futebol. Enquanto ele era atendido, o casal ficou na sala de espera. Júlio pensou em perguntar se Verônica já tinha testemunhado algum outro episódio como aquele, mas acabou desistindo. Estava prestes a dizer algo trivial para quebrar o silêncio quando reparou que uma lágrima escorria pelo rosto da garota. Quando tocou em sua mão, ela imediatamente o abraçou e começou a soluçar.
Ficaram assim, calados, durante um bom tempo. Mesmo depois de se acalmar, Verônica manteve a cabeça apoiada no ombro de Júlio, segurando seu braço forte. Ele, de vez em quando, acariciava o rosto dela. Do ângulo em que estava, conseguia espiar, através do decote em vê da blusa da escola, a curva dos seios e o sutiã branco que ela usava. Júlio fechou os olhos e torceu para que Verônica não notasse sua respiração ofegante.

* * *

Os quatro só se reuniram novamente na segunda-feira e, mesmo assim, por um breve instante. Na hora do intervalo, Júlio avistou de longe os três sentados na escada perto do parquinho. Aproximou-se, mas antes que pudesse cumprimentá-los, Tânia se levantou e saiu resmungando algo sobre "covardia". Olhou, confuso, para os outros dois, que não disseram nada. Sentou-se com eles na escada. Depois de alguns instantes, Rodrigo começou, enfim, a relutantemente contar que o pai de Tânia tivera que ir para o hospital para cuidar do joelho e, com isso, perdera uma entrevista de emprego em uma empresa de transportes.
Júlio entendeu. Era a ele que Tânia se referia; achava-o um covarde por ter agredido e prejudicado um velho inocente e indefeso. Um pai alcólatra que abusava dela, mas que mesmo assim ela defendia. Sentiu raiva. Sentiu-se terrivelmente injustiçado. Em parte por causa de Tânia. Em parte porque Verônica tinha o braço entrelaçado com o de Rodrigo, a mão repousando sobre a coxa dele, em intimidade excessiva. Cerrou os punhos com força, até sentir as unhas cravando sua própria carne.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

[Efeito borboleta]

Um gesto aparentemente inofensivo como uma mão que escapa à outra pode provocar um temporal que coloca a cidade em estado de alerta e deixa ao menos um desabrigado.

Domingo, Outubro 18, 2009

[Candy, candy]

Achei Skittles em uma lojinha perdida na galeria.
Era caro, mas comprei um pacote.
Abri e despejei sobre a cama.
Agrupei por cores e comi de dois em dois, na ordem.
Laranja, amarelo, roxo, vermelho e verde.
Tem coisas que, apesar de infantis, não consigo deixar de fazer:
exagero no que gosto e finjo esquecer o que incomoda;
paro diante de janelas e jardins;
imagino cenas de filmes que não existem;
e me encanto com meninas que riem com os olhos.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

[Sheets of empty canvas]

Ela diz que sabe como eu escrevo.
E que é capaz de distinguir as histórias que eu quero contar das que eu preciso contar.
Mas desconhece as vontades natimortas que são cremadas e têm as cinzas espalhadas sobre o mar em cerimônias privadas.
E ignora o fato de que, às vezes, não é por estilo que eu visto preto.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

[Beneath the Matala moon]

A surpresa em seu rosto provavelmente o traiu, pois a garota cutucou-o com o cotovelo, triunfante:
— Viu, eu não disse?
A pintura de uma sereia na parede branca já meio descascada batizava o lugar. Não queria admitir, mas, de fato, não tinha botado muita fé quando ela contou que naquela pequena vila de pescadores havia mesmo um Mermaid Cafe, tal qual na música da Joni Mitchell. Estar diante de um bar que ele jamais havia imaginado existir, na companhia de uma completa estranha, era a conclusão mais adequada para um dia como aquele.
Não era do tipo de pessoa que acreditava em destino ou forças sobrenaturais, mas sentiu-se inexplicavelmente atraído pela imagem no cartão postal que viu de relance na recepção do hotel. De tão azul, o mar parecia artificial, como se alguém, numa tentativa de criar um cenário paradisíaco perfeito, houvesse carregado demais na tinta. No final da enseada, um enorme rochedo, ao longo do qual havia dezenas de pequenas cavernas que lhe conferiam a aparência de um gigantesco formigueiro de pedra.
O rapaz atrás do balcão informou que era preciso pegar a balsa para Creta para chegar lá, deu-lhe um folheto com um mapa simplificado e explicou o caminho até o porto. Apesar de parecer fácil, decidiu pegar um táxi. Pagou o motorista e acabou deixando o troco, pois notou uma movimentação que parecia indicar que uma balsa estava prestes a sair. Estava certo. Resmungou um palavrão ao perceber que o preço da passagem era quase o equivalente à gorjeta forçada dada ao taxista. Esqueceu de tudo isso ao virar para trás e se deparar com aquela visão de Atenas. Olhou ao redor e notou o contraste entre os turistas falantes e os moradores locais absortos e quase alheios. Sacou da bolsa o caderno de rascunhos.
Perguntou a um sujeito mal-humorado como chegar até o vilarejo. Dessa vez, sentiu-se inclinado a seguir as instruções e pegar o ônibus. Um senhor tentou puxar conversa. Constrangido, ergueu os ombros e tentou explicar, por meio de gestos, que não falava grego. O velhote pareceu não se importar e continuou falando. Sentiu um certo alívio quando finalmente desceu. Tanto que demorou alguns minutos até se dar conta de que estava diante da praia que tinha visto no postal. Sorriu, tirou os sapatos e pôs-se a andar pela orla.
A trilha que conduzia às cavernas era feita de areia e pequenas pedras que machucavam. Decidiu dar uma folga aos pés, descansando-os sobre a superfície lisa duma rocha. Péssima ideia: exposta ao sol durante a manhã inteira, a pedra parecia estar em brasa. Ficou dando pulos, alternando as pernas, segurando os sapatos com uma mão e alisando as solas dos pés com a outra, enquanto soltava grunhidos que misturavam dor e irritação.
Nesse momento, ouviu alguém rindo alto atrás de si. Virou-se furioso, pronto para arrumar confusão, mas viu-se desarmado diante da garota perturbadoramente bonita parada diante de uma das cavernas. A pele quase da cor da areia, os olhos como o mar, sabotados pelo sorriso jocoso estampado no rosto.
Por um instante, esqueceu-se de pular e ficou parado numa posição um tanto cômica, curvado, equilibrando-se em apenas uma das pernas. A garota disse algo em um idioma que não conseguiu identificar, mas adivinhou o deboche pelo tom de voz dela. Tentou ficar ereto e disse, um pouco sem-graça, mas ao mesmo tempo ofendido pela gozação:
— Olha, sinto muito, mas eu não entendo uma palavra do que você tá dizendo.
— Ah, desculpe!
A garota o mediu de cima a baixo e balançou a cabeça lentamente, como se enxergasse algo que explicava toda a situação. Prosseguiu, em um inglês carregado de sotaque:
— Aquela dança que você estava fazendo parecia muito... Divertida.
Não respondeu, apenas ergueu uma das sobrancelhas. A garota estendeu-lhe a mão e se apresentou. Com alguma relutância, aceitou o cumprimento.
— Prazer em conhecê-lo, senhor bailarino.
Ela riu novamente, jogando a cabeça para trás. Teve vontade de mandá-la à merda. Mas, por uma razão tão inexplicável quanto o fato de ter seguido uma imagem em um cartão postal, sentiu-se inclinado a aceitar o convite da garota para um passeio pelo vilarejo.
Agora, do mesmo modo, apesar da mesura propositadamente exagerada com que ela o convidava para entrar no bar, alguma coisa acabou fazendo-o resistir ao impulso inicial de virar-lhe as costas. Sentaram-se em uma das mesas na área descoberta. O garçom entregou os cardápios. Diante de sua aparente indecisão, a garota perguntou:
— Posso fazer uma sugestão?
— Por que não?
Com desenvoltura, ela trocou algumas palavras com o garçom, que se retirou.
— O que você pediu?
— Uma bebida grega. Uma espécie de vinho misturado com conhaque.
Pensou em perguntar se era forte, mas conteve-se, prevendo mais zombaria.
— Você, pelo jeito, conhece tudo por aqui.
— Amo este lugar, volto aqui todos os anos.
— O bar ou a ilha?
— Ambos. E você, primeira vez?
— Sim.
— O que te trouxe a este vilarejo?
— Vi no hotel um postal com a foto daquelas cavernas e... Bom, fiquei curioso.
Novamente, guardou para si o que realmente pensou. A garota retrucou:
— Não são exatamente cavernas. São câmaras mortuárias da época do Império Romano.
— Sério?
— É sim. Vai ver que é isso...
— O que?
— Você viu a foto no postal e ficou com vontade de vir. Eu, mesmo já conhecendo tudo de cabo a rabo, volto todo ano. Este lugar exerce algum tipo de... Atração.
Sentiu um arrepio. Talvez fosse a brisa noturna. Ou o fato de a garota ter chegado à mesma conclusão. Fingiu fazer pouco caso:
— E você acha que são os espíritos dos tempos de César?
— Sei lá. Ou então são os deuses. Quando Zeus raptou Europa disfarçado de touro, trouxe-a para cá, para essa praia.
— E o que ele fez com ela?
— O que você acha?
O garçom chegou com a bebida. Era uma garrafa peculiar, em formato que lembrava uma ânfora, e preenchida por um líquido de coloração acobreada que foi servido em taças de brandy. Estava ainda entretido com o aroma quando a garota ergueu sua taça:
— Um brinde.
— A quê?
— À Grécia, aos deuses...
Beberam.
— E ao sexo na praia.
Engasgou, em parte porque o drinque era um pouco forte. Esperou outro riso de escárnio. Mas quando fitou a garota, ela apenas sorria -- e havia tudo naquele sorriso, menos pilhéria. Não foi bem isso o que lhe pareceu um bom presságio. Foi o fato de que, só naquele momento percebeu, ela usava brincos de prata.

Sábado, Agosto 29, 2009

[Mr. Sandman]

Teve a impressão de ouvir uma voz chamando-o, mas não pôde enxergar coisa alguma. Parecia que os olhos estavam cobertos de areia e, por mais que esfregasse, não conseguia limpá-los. Era algo recorrente em seus sonhos: perder a visão ou a fala, quando não ambos. De repente, passou-lhe pela cabeça que era a primeira vez que sonhava em muito tempo. Ou, pelo menos, que se lembrava.
As noites haviam se tornando grandes apagões -- encostava a cabeça no travesseiro e a próxima coisa de que se dava conta era a campainha estridente do despertador na manhã seguinte. Sentava-se na cama, o corpo milagrosamente recuperado, mas no cérebro uma espécie de desconforto que o perseguia ao longo do dia e, à noite, somava-se ao cansaço físico, resultado das atividades maçantes na loja, e o deixava esgotado. Nas raras ocasiões em que encontrava disposição para se sentar em frente ao computador quando chegava em casa, não vinha nada. A fonte havia secado. Vez ou outra, tentava se concentrar durante cinco minutos na tevê ligada no quarto, esperando que alguma cena de filme pudesse inspirá-lo, mas o máximo que conseguia era constatar que a versão dublada do Russel Crowe era ainda mais irritante que a original; pouco depois, acabava surpreendido pela campainha estridente do despertador na manhã seguinte.
A rotina de bebedeiras e incertezas e os trocados contados no bolso costumavam lhe dar mais do que ressacas monstruosas, dores no estômago e quilos a menos. Davam-lhe razões para escrever incessantemente e fazer grandes planos de viver disso. Se largasse a loja, talvez conseguisse recuperar a antiga forma. Ou talvez não -- naqueles dias, não tinha nada a perder. Agora, havia a casa e o embrião de família. E as noites sem sonhos. A voz chamou-o novamente, desta vez chacoalhando seu corpo.
— Amor! Acorda!
Descobriu que não estava sonhando. A garota insistiu e o cutucou firmemente com o cotovelo.
— Acorda!
Resmungou qualquer coisa.
— Psiu! Escuta!
Ruídos no quintal. Depois de morar a vida toda em apartamentos, a garota estava tendo problemas em se adaptar ao sobrado. Revirou-se na cama e disse que era provavelmente um gato ou o vento.
— Será? E se for alguém tentando entrar aqui?
Suspirou. Levantou-se e calçou os chinelos.
— Você vai lá ver? Não é perigoso?
Pegou o guarda-chuva pendurado no mancebo e movimentou-o como se fosse um bastão de beisebol. Por mais ridiculamente ineficaz que o objeto fosse diante de um assaltante armado, a garota pareceu satisfeita com a providência pois não disse mais nada. Enquanto descia a escada, sorriu sem perceber. Pensou que, se os grandes planos tinham ficado para trás, os grandes medos também.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

[The movement you need is on your shoulder]

Evan Rachel Wood domina a tela toda com seus olhos azuis, tão linda que até dói. A garota parece ler meus pensamentos e pergunta, indignada:
— Como é que uma menina dessas foi namorar aquele monstrengo do Marylin Manson?
Na tevê, a atriz parece ainda mais etérea enquanto canta because the world is round e nós rimos de como isso soa como uma resposta ao comentário. A garota sopra e observa a fumaça do cigarro subindo.
— A Rolling Stone fez uma daquelas listas com o que ela chamou de "os imortais", os cem maiores artistas de todos os tempos. O legal é que cada "imortal" era apresentado num texto assinado por outro artista famoso. Nem precisa dizer que os Beatles tavam no topo -- e quem escreveu sobre eles foi o Costello.
Digo "caralho" e entorno um gole.
— Bem a cara dele, o texto. Falava sobre como ele tava na idade certa quando escutou pela primeira vez a banda. Também opinava sobre o talento dos quatro como compositores, instrumentistas e artistas. No final, ele contava sobre um show do qual participou junto com o Paul, um tributo à Linda, se não me engano. A música seguinte era All My Loving e o Costello se ofereceu pra fazer a segunda voz na segunda parte; o Paul respondeu algo do tipo "yeah, give it a try". Daí o Costello escreveu: "eu tive só trinta e cinco anos pra aprender aquela parte".
Sorrimos e ficamos numa espécie de silêncio reverente, preenchido por mais um trago, mais um gole. Ela suspira, daquele jeito que geralmente antecede uma confidência.
— Teve uma vez que... Foi uns meses antes da depressão. Eu tava quase chegando na faculdade e o rádio no boteco da esquina tava tocando Help!, bem naquela segunda estrofe, sabe? And now my life has changed in oh so many ways. My independence seems to vanish in the haze. But every now and then I feel so insecure. I know that I just need you like I've never done before.
Encaro-a, esperando que me olhe, mas a garota apenas fita o nada.
— Daí eu sentei numa das mesinhas do boteco. E tive que me segurar pra não chorar.
Ela esboça um sorriso triste.
— No geral, eu prefiro as letras do Dylan, do Cohen ou mesmo do Costello. Mas os Beatles... Eles têm esses versos que são que nem... Marretadas, sabe? E eles te acertam quando você menos espera. It's getting hard to be someone but it all works out. And in the end the love you take is equal to the love you make. Sei lá. Cada época da minha vida tem um diferente.
Minha vez de sorrir; sei exatamente ao que ela se refere. The long and winding road that leads to your door will never disappear.
— Puta viagem de fã, né?
Balanço a cabeça negativamente e digo que não é viagem não; que é justamente por isso que chamamos Dylan, Cohen e Costello pelo segundo nome e John, Paul, George e Ringo pelo primeiro. A garota me olha como quem enfim se dá conta de algo que estava bem debaixo do seu nariz. E sorri.
— É. É mesmo.
O cigarro queima quase no filtro, mas ela continua segurando-o. Pergunto qual é a "marretada" da vez. Ela abre a boca, mas hesita por um instante. Depois dá de ombros.
Ob-la-di, ob-la-da, life goes on.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

[Grapefruit moon]

Os velhos sapatos ainda servem.
Mas já não obedecem -- querem seguir pelos mesmos caminhos de antes.

* * *

Não é grande coisa o que faço, realmente. Apanho, lustro e ordeno as palavras, tal qual o seu amigo que guarda LPs que não pertencem a ele, só porque é bonito vê-los ali, dispostos na estante.

* * *

Da próxima vez que me pegar distraído, não precisa nem perguntar: estou imaginando um jeito de segurar sua mão sem parecer sentimental demais.

* * *

"Everytime I hear that melody
Something breaks inside"
(Tom Waits)

Quinta-feira, Julho 09, 2009

[Boys don't cry]

Onze anos. O menino está abraçado ao portão da garagem enquanto os outros se divertem na festa. Alguém lhe disse que a menina por quem tem uma queda está chegando. Ele sabe que foi apenas uma artimanha para tentar fazê-lo perder a brincadeira de quem consegue ficar encarando por mais tempo. Mesmo assim, continua lá no portão, sem saber direito por quê.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

[After hours]

— A humanidade se divide entre os que dançam e os que não dançam.
— Do que cê tá falando?
— Da humanidade, ué.
— Você... Sempre julgando, né?
— Quem falou que eu tô julgando? Tô só observando a existência duma possibilidade de categorização. Se eu dissesse que a humanidade se divide entre fãs de Star Wars e de Star Trek, entre quem ama Lost e quem caga um quilo, você responderia que eu tô julgando?
— Hum, sei. Aposto que você tem alguma coisa contra quem dança.
— Não falei nada.
— Mas vai falar.
— Bom, já que você mencionou... Eu não poria minha mão no fogo por alguém que dança.
— Tá vendo?
— E, definitivamente, eu não confiaria em alguém que sai pra dançar.
— Ah, e isso não é julgar? Qual a diferença entre sair pra dançar e... Sei lá, sair pra beber?
— Muitas, mas já que você quer comparar, vamos lá: de dez pessoas que saem pra beber, garanto que tem pelo menos três ou quatro que bebem na solidão de seus lares. E das que saem pra dançar? Taí: eu confiaria em alguém que dança sozinho, em casa.
— Eu não entendo o que isso tem a ver. Não tem graça beber sozinho. E muito menos dançar.
— Se você gosta mesmo de fazer uma coisa ou outra, não devia importar o fato de ter companhia ou não.
— E de sexo, você gosta?
— Hã?
— Dá pra fazer sexo sozinho. Mas não é muito melhor com alguém?
— De novo, você tá comparando coisas diferentes.
— Foi você quem começou com as generalizações.
O garçom chega com a conta.
— Até que você não bebeu tanto quanto eu pensava.
— Por que? Eles esqueceram de marcar algum coisa?
— Não, não é isso. É que você falou "generalizações" sem tropeçar.
— Seu tonto.
Fazemos os cálculos e entregamos o dinheiro.
— Ah, você sempre diz que tocar é que nem experimentar a música dum jeito físico. Quem não sabe tocar nenhum instrumento usa a dança pra experimentar a música desse jeito. Rá.
— Hum. E você, sempre querendo usar o que eu digo contra mim.
— Não tenho culpa se você me dá argumentos de bandeja.
— Sua tonta.
O garçom traz o troco. Confiro-o repetidas vezes, esperando que você pergunte se vamos tomar a saideira em algum outro lugar. Ou se vamos dançar na sua casa.

* * *

"As always at this hour
Time means nothing
One final, final round
'Cause time means nothing
Say that you'll stay
We're all right where we're supposed to be
Time means nothing"
(We Are Scientists)