Sexta-feira, Junho 19, 2009

[My heart is drenched in wine]

Se morássemos em outro lugar, poderíamos abrir o portão de madeira e deixar o disco da Norah Jones tocando bem alto. Nos divertiríamos cumprimentando qualquer um que passasse na estradinha e riríamos dos olhares de soslaio dirigidos às tatuagens. Teríamos conta na mercearia e você roubaria uma bala do baleiro enquanto eu tentaria me entender com o homem detrás do balcão de fórmica. Esquentaríamos água em um balde sobre o fogão quando a resistência do chuveiro queimasse. Ficaríamos calados, cada qual entretido com sua leitura, até que eu beliscasse o seu pé.
Mas então você não se encantaria com ângulos inusitados da cidade sob a neblina; eu não caminharia à noite, inventando histórias até a hora do último trem.
E nós não acharíamos nosso tannat.

* * *

Quando você sorri, eu não me sinto um completo fracasso.

Domingo, Maio 24, 2009

[17]

— Tem dinheiro?
— Tenho.
— Tem certeza que não quer que te busque?
— Tenho.
— E a gente tem o telefone da mãe do Ronaldo na agenda?
— Tem.
— Qualquer coisa, me liga, hein?
— Tchau, mãe.
— Tchau, filho! Boa festa!
— ...
Acenou uma despedida sem entusiasmo, enquanto o carro se afastava com duas buzinadas escandalosas. As mães definitivamente não sabem manter a discrição. E parecem se sentir pessoalmente ofendidas diante de um pedido para que parem um quarteirão antes do local de destino. Guardou os óculos no bolso do smoking e caprichou na expressão calma e despreocupada ao entrar no salão. Apertou os olhos numa tentativa de encontrar alguém conhecido. Dois vultos acenaram. Roni e o Chileno.
— Fala.
— Beleza.
— E aí?
Buenas.
Ficaram os três em silêncio, observando as pessoas ao redor. Garotas. A maioria era apenas um ano e meio ou dois mais nova, mas eles se sentiam muito mais velhos e experientes. Pegaram copos de cerveja para ter o que fazer com as mãos e ensaiaram um ar blasé. A encenação foi interrompida por um anúncio.
— Até mais, suas bichas. Minha chica chegou.
O Chileno se afastou, gingando o corpo como se fosse o Snoop Dogg. Sua aparência só não era mais estranha que o seu senso de humor bizarro, que às vezes nem eles entendiam. Riram e balançaram a cabeça.
— Sinto pena do par desse moleque.
— Pode crer.
Pegaram mais um copo cada.
— E aí, resolveu o que vai fazer?
— Medicina.
— Porra. E desde quando você se liga nisso?
— Meu primo falou que dá grana. Sabe quanto ganha um cardiologista foda?
— Meu tio é cardiologista.
— Seu tio que voltou de Nova York?
— É.
Roni ergueu as sobrancelhas e os ombros, como se não precisasse dizer mais nada depois daquela informação. A atenção de ambos se voltou para a movimentação perto de uma das portas de entrada.
— Caralho. Acho que já tão formando a fila. Viu seu par?
— Nada.
— Vamos colar lá.
Todas as meninas usavam vestidos lilás, combinando com as faixas na cintura dos garotos. Alguns estavam descontraídos; outros pareciam duros e desconfortáveis enquanto elas fofocavam sobre o cabelo ou a maquiagem de fulana.
Virou-se para comentar algo com Roni, mas este já tinha ficado pelo caminho e agora conversava com a ruivinha de aparelho com quem iria dançar. Suspirou e olhou ao redor, meio perdido. Apertou os olhos novamente e encontrou uma loira de cabelos lisos e ar impaciente ao lado de uma coluna. Caminhou timidamente até lá.
— Desculpa a demora. Vamos?
Ofereceu o braço. E então percebeu o engano. Não era seu par. Era a menina do primeiro ano que eles costumavam chamar de Avril, em referência à óbvia semelhança física. Ela franziu o cenho.
— Hã... Oi?
Improvisou algo para tentar driblar o vexame.
— Oi. Seu par ainda não chegou e nem o meu. Vamos?
— Eu... Acho melhor esperar o...
— Se o cara te fez esperar até agora, na boa, ele pode esperar você terminar a dança.
Não sabia de onde tinha tirado aquilo. Mas, para sua surpresa, Avril sorriu.
— Quer saber? Você tem razão.
Ofereceu novamente o braço, que desta vez foi aceito. Juntaram-se à fila. Investigou em volta, imaginando se algum dos seus amigos estava testemunhando o momento de glória. Avril, por sua vez, parecia ignorar as pessoas ao redor, provavelmente acostumada com o fato de ser alvo de muitos olhares. Ela tinha um cheiro meio adocidado, parecido com o de alguma fruta. Não conseguia reconhecer qual.
— Não lembro de ter visto você na escola.
Estufou o peito.
— Tô no terceiro ano.
— Ah.
Aparentemente, Avril esperava que ele dissesse mais alguma coisa. Mas não era muito bom naquilo.
— Olha, depois da dança a gente podia... Sei lá. Tomar uma cerveja.
— Eu não bebo cerveja.
Estufou o peito novamente, desta vez para tentar disfarçar a barriga.
— Ah, é? Bom, eu prefiro mesmo alguma coisa mais forte.
— Eu só gosto de coquetel de frutas.
— Hã... Parece que o daqui tá bom, né?
Sua tentativa de estender o diálogo foi interrompida pela aparição afobada de Roni.
— Oi, dá licença? Seu par tá lá na frente, te procurando.
Sua vontade era de esganar o amigo. Dirigiu um sorriso amarelo a Avril.
— Er, eu, hã... Acho melhor...
Ela sorriu.
— Vai lá.
Foram caminhando. Roni olhou furtivamente para trás.
— Caraca, cê viu os peitinhos dela?
Deu uma cotovelada que por pouco não acertou em cheio o estômado do amigo.
— Porra, cinco minutos falando com a mina e você já fica assim, todo ciumentinho?
Ergueu o dedo médio e deixou Roni falando sozinho. Foi em direção ao seu par.
— Ah, oi, até que enfim. Tava quase pegando um vaso de plantas pra entrar comigo.
Pensou em erguer novamente o dedo, mas foi desarmado pelo sorriso da garota. Chamava-se Renata. Segundo ano. Estava longe de ser bonita como sua companhia anterior. Mas também não era feia.
— Foi mal. É que eu tava... Hã...
Só então se deu conta de que não havia perguntado qual era o nome da Avril e nem dito o seu a ela.
— Eu vi você falando com aquela menina do primeiro ano. Érica, né? Ela não é muito novinha pra você?
Abriu a boca para protestar, mas não soube o que dizer.
— Tudo bem, eu não tenho nada a ver com isso. E acho que os homens gostam mesmo desses bibelôs, né? Bom, pelo menos é o que eu vejo pelo meu irmão. E pelo meu pai. Ele trocou minha mãe por uma vaca com idade pra ser... Sei lá, uma madrasta muito nova. Mas olha eu aqui falando e você nem me perguntou nada, né? Desculpa, mas é que eu tô meio nervosa com essa história de valsa. E quando eu fico nervosa, começo a tagarelar.
Descobriu que também estava um pouco apreensivo.
— Tudo bem, pode tagarelar.
— Posso, é? Puxa, obrigada. Ai, desculpa, é brincadeira. Minha mãe vive falando pra eu tomar cuidado com o jeito que eu falo. Ela diz que parece que eu tô tripudiando das pessoas. Mas é só o meu jeito. Ai, caralho. Cala boca. Menina chata, hein?
Riu do jeito amalucado dela.
— Putz, começou a andar. Fudeu, é agora.
Sentiu a mão de Renata, envolta na luva liás, apertando a sua. Olhou para ela, que fez uma careta como se estivesse com dor de barriga. Riu e balançou a cabeça. Dirigiram-se para a pista. Um sujeito filmava cada casal que passava. As imagens eram transmitidas num telão. A primeira dança foi da debutante. Os meninos e meninas foram convocados para a segunda. Renata tinha cheiro de xampu. Os outros convidados da festa se juntaram a eles na terceira e última. Quando terminou, todos bateram palmas. A garota suspirou.
— Ufa. Até que não foi tão difícil assim.
— É. Até que não.
— Hum, e aí?
— Olha, eu... Bom, vou ali pegar uma bebida, tá?
— Tá bom.
Renata lhe deu um sorriso. Devolveu-lhe outro e virou as costas. Pegou um coquetel de frutas com um garçom que passava e deu uma volta por todo o salão. Depois de alguns minutos, finalmente avistou Avril. Estava na pista, dançando com um repetente do terceiro ano. Voltou para perto de onde estava. Viu Roni sentado na escada. No caminho, teve a impressão de cruzar com Renata, com um copo de cerveja na mão, rindo e conversando com... Não. Não podia ser. Passou direto. Sentou-se ao lado de Roni.
— Coquetel de frutas? Mas que puta bichice, hein?
— Vai se foder.
— Ui. Mudando de assunto, cê viu com quem o Chileno tá conversando?
— Não.
— Porra, mas cê acabou de passar ali, do lado deles!
— Não vi.
— Caralho. Acho que tá na hora de você arrumar umas lentes de contato.
— Vai se foder.
Experimentou um gole do coquetel.
— Que bebida de merda.

Terça-feira, Maio 12, 2009

[Rejunte]

Um tapume cerca o sobrado, que logo terá uma nova fachada ou dará lugar a um prédio.
E então não restará vestígio para provar que realmente aconteceu.

* * *

A parede tem tanta gordura acumulada que os azulejos estão encardidos. O cheiro azedo da cerveja de outras noites derramada sobre as mesas de metal se mistura com o de fritura, suor e bitucas de cigarro. O trecho bonito de harmonia é prejudicado pelo som horrível do teclado e pela distorção nas caixas de som vagabundas. Concentro-me nos detalhes periféricos, tentando não olhar diretamente em seus olhos por tempo demais. Ainda assim, sinto um aperto no peito diante do jeito como ela move o pescoço e os ombros enquanto fala. Um quadro desbotado retrata uma praia que só pode ser grega de tão absurda. Estremeço, surpreendido por sua mão segurando a minha.
— Ai, desculpa. Eu aqui, tagarelando, e nem perguntei como você tá.
Não chego a mentir. Mas omito uma parte importante dos fatos.
— Não, tudo bem. Tudo na mesma.
Seus dedos envolvem a xícara de Irish coffee feito com o capuccino servido pelo garçom e o Jameson despejado clandestinamente da garrafa de alumínio na minha mala.
— Quando eu era mais nova, sempre que chegava nessa época do ano, eu ficava deseperada pra arrumar algum namoradinho. O inverno é triste demais pra se ficar só.
— Não é tão difícil assim. É que nem parar de fumar.
— Ficar só?
— É. Você acha que não vai conseguir, mas, em termos práticos, é mais fácil do que você imagina.
— Mas você não sente falta?
— Na maior parte do tempo, não. Mas tem aqueles momentos em que... Alguma coisa absolutamente trivial te lembra. Mas sei lá. Acho que é mais uma questão de hábito do que de necessidade física.
— Hum.
Nenhum de nós tenta esclarecer se estamos falando de nicotina. E deixamos por isso mesmo. A sirene escandalosa grita na rua, avisando que um veículo está sendo roubado.

* * *

Depois de meses acordando dia após dia do mesmo jeito, concluo que nunca mais vou lembrar do que sonhei na noite anterior.

Segunda-feira, Abril 06, 2009

[Melhoral]

Acordou com um sobressalto numa cama que não era sua. Murmurou um palavrão, maldizendo sua estupidez e a dor de cabeça que prenunciava uma ressaca monstruosa. Ficou quieta durante alguns instantes, atenta a qualquer ruído que lhe informasse onde estaria o dono daquela cama. Talvez no banheiro (que, imaginou, ficava detrás de uma das portas que havia no quarto). Nada. Quem sabe na cozinha, preparando o café da manhã. Riu do pensamento disparatado e se arrependeu quando a cabeça começou a latejar. Fechou os olhos e procurou ficar imóvel.
Vasculhou suas lembranças da noite anterior, mas, ironicamente, a última cena da qual recordava com clareza era dela própria dizendo à amiga Clarisse que não iria beber -- pensou que isso era obra do seu cérebro tentando bancar o engraçadinho ou lhe ensinar uma lição. Havia a imagem nebulosa de si mesma conversando com um carinha, mas não conseguia atribuir um rosto àquela noção de pessoa. Tampouco se lembrava de ter aceito ir para a casa de um estranho ou do trajeto percorrido até ali. Podia até estar em outra cidade.
Percebeu uma coisa estranha: à exceção dos pés, descalços, estava completamente vestida. Perguntou-se se, depois da trepada, teria tido alguma espécie de ataque de pudor tardio. Ou se o sujeito teria se dado ao trabalho de vesti-la, sabe-se lá por que motivo. A explicação mais simples era a de que ambos estavam bêbados demais e não havia acontecido coisa alguma. Tomou coragem e sentou-se. A cabeça ameaçou explodir.
Procurando evitar movimentos bruscos, olhou ao redor. Sua bolsa estava sobre a cômoda. Checou o celular: funcionando, com sinal, sem mensagens ou chamadas perdidas. Sentiu-se meio tola, mas conferiu se o dinheiro e os documentos estavam na carteira. Estavam. Levantou-se e pisou em suas sandálias, que estavam diante da cama. Afastou a cortina e olhou pela janela. Descobriu que era um apartamento, mas, para seu azar, deparou-se com um prédio logo em frente, atrapalhando a visão. Nas laterais, havia terrenos de outros edifícios e casas e uma rua genérica. Nada que lhe parecesse familiar ou desse uma pista de onde estava.
Dirigiu-se até uma das portas e, depois de hesitar um pouco, bateu de leve. Ninguém respondeu. Abriu-a lentamente. Era o banheiro. Sobre a pia, havia aparelho de barbear e uma lata de espuma; um copo onde respousavam escova de dente e tubo de pasta; desodorante, loção pós-barba e hidratante para o rosto. Parecia tudo limpo e arrumado, exceto por uma garrafa de Listerine sem tampa. Abriu o armarinho e, entre vidros de perfume, pacotes de algodão e caixas de cotonete e Band-aid, encontrou um tesouro: uma pequena farmácia, onde logo identificou a embalagem de analgésico. Pegou um comprimido e o engoliu a seco, sentindo a garganta arranhar um pouco.
Ficou mais animada com a ideia de que ao menos a dor de cabeça dali a pouco daria uma trégua. Baixou as calças e sentou-se no vaso. Quando terminou, puxou a descarga, mas imediatamente se arrependeu. O barulho poderia alertar seu anfitrião de que havia acordado. Permaneceu calada, congelada numa posição meio ridícula: uma das mãos puxado a blusa para baixo, numa tentativa de se cobrir, e a outra no botão da descarga. Nenhum barulho. Recompôs-se e decidiu que era hora de se mandar.
Voltou ao quarto, calçou as sandálias e apanhou a bolsa. Um pouco receosa, abriu a outra porta e saiu, pé ante pé. Viu-se em um corredor com paredes cheias de fotos em preto-e-branco de paisagens. Dava para uma sala ampla, decorada com sobriedade e algum estilo -- vasos de plantas, móveis modernos e um quadro minimalista e geométrico, querendo emular Mondrian. Assustou-se ao perceber que havia alguém no sofá. Era o dono do apartamento, dormindo.
O sujeito parecia ter sua idade ou um pouco menos. Não era exatamente bonito, mas alguns de seus traços eram marcantes. Tinha os cabelos ligeiramente compridos, que ele talvez usasse meio desgrenhados (era assim, pelo menos, que ela imaginava que lhe cairiam melhor). Levantou as cobertas. Usava camiseta e samba-canção. Parecia magro e atlético. E tinha pernas bonitas. Cobriu-o. Definitivamente, fazia seu tipo. Agora entendia por que tinha topado vir até a casa dele.
Tomou novo susto ao sentir o celular vibrando dentro da bolsa. Era Clarisse, provavelmente querendo saber se estava tudo bem. Não atendeu. Olhou para a porta: a chave estava na fechadura. Podia sair e descobrir como ir embora para casa. Ou podia ficar e descobrir por que aquele sujeito não quis tirar proveito de uma garota bêbada.

* * *

Ela o beijava, sôfrega, e tentava puxá-lo para algum lugar. Entendeu que ela queria ser levada até a cama. Conduziu-a até seu quarto. Deteve-se por um instante, contemplando-a. Com os olhos semicerrados, a garota sorriu. Em seguida, franziu o cenho e, com a voz mole, balbuciou alguma coisa. Teve que pedir que ela repetisse. Era algo sobre "toalete". Apontou para a porta atrás dela. A garota fez sinal com a mão para que esperasse e entrou no banheiro.
Sentou-se na cama. Deu um tapa na testa quando ouviu aqueles ruídos -- ela estava vomitando. Bateu de leve na porta e perguntou se estava tudo bem. "Um-hum", ela respondeu. Depois de alguns instantes, o som da descarga. Pelo menos, tinha sido no vaso. Ela novamente balbuciou alguma coisa. Novamente teve que pedir que ela repetisse. Era algo sobre "Listerine". "Pode usar, tá em cima da pia", respondeu. Barulho de tampa caindo, bochechos, pia sendo aberta e fechada. Mais alguns instantes e então a garota finalmente saiu. Ela sorriu e, trôpega, caminhou em sua direção. Abraçaram-se, beijaram-se e desabaram na cama.
Foi sua vez de pedir um instante. Levantou-se e entrou no banheiro. Usou o vaso e puxou a descarga. Abriu o armarinho e, de dentro da pequena farmácia, pegou uma camisinha. Olhou-se no espelho. Lavou as mãos, jogou uma água no rosto e ajeitou o cabelo. Conferiu o hálito. Voltou para o quarto. Suspirou: a garota tinha apagado. Aproximou-se e ficou observando-a. Não era exatamente bonita, mas alguns de seus traços eram marcantes. Definitivamente, fazia seu tipo. Mas havia algo a mais nela que o fazia se sentir atraído e estranhamente à vontade em sua presença.
Tirou-lhe as sandálias e colocou-as diante da cama. Sentiu-se tentado a tirar-lhe também as calças para ver suas pernas e o tipo de calcinha que usava. Em vez disso, apenas cobriu-a. Aproximou-se e beijou-lhe o rosto. Foi então que se deu conta. Era o perfume, vagamente familiar, que lhe transmitia algo parecido com a lembrança nostálgica de uma época feliz, porém indefinida. Inspirou novamente aquele cheiro, que se misturava com um odor de fumaça de cigarro. Pensou em deitar-se ali, com a garota, mas desistiu.
Levantou-se, dirigiu-lhe um último olhar e saiu do quarto. Enquanto encostava a porta, murmurou um palavrão, maldizendo sua estupidez.

Quinta-feira, Abril 02, 2009

[Shot]

O clima abafado e o calor insuportável pedem alguma coisa refrescante, gelada. Em vez disso, tenho diante de mim o copinho com o líquido amarelado. Trago-o para perto do rosto e cheiro.
— Dizem que a cor, o aroma e o sabor dependem da madeira de que é feito o tonel onde se armazena. As de Salinas costumam ficar em tonéis de carvalho ou de umburana.
Viro a dose em duas goladas. O ar está tão seco que parece que o meu nariz vai começar a sangrar a qualquer momento. Faço uma careta.
— Pra mim, lembra o gosto daquela água da conserva da azeitona.
Ela se mexe, inquieta, na rede.
— E desde quando você entende disso? Você nem bebe cachaça.
Quero sentir raiva. Mas tudo me vem na hora errada.

Terça-feira, Março 17, 2009

[That's how people grow up]

O caminho que conduzia ao conjunto de sobrados passava por um matagal. Nos dias de chuva, era preciso segurar os chinelos e seguir com os pés descalços -- embora eu detestasse o contato com o chão molhado e a lama que se infiltrava entre os dedos.

* * *

A garota que me ensinou a beijar jogava bola, corria atrás de pipa e falava palavrão como um menino. E fazia chorar os meninos como eu.

* * *

Tinham improvisado uma fogueira dentro dum latão, como os mendigos nos filmes americanos. O garrafão de vinho vagabundo passava pra lá e pra cá. Restava meio copo pra cada um. Acendi um cigarro só pra ter o que fazer com as mãos.

* * *

Roçou sem querer o seio no meu braço e imediatamente recuou. Ao pereceber o meu desconcerto e os músculos retesados, aproximou-se novamente. Ela disse alguma coisa; eu apenas balancei a cabeça.

* * *

O ônibus atravessava a cidade, por ruas até então inimagináveis. Pela janela, eu olhava o campo de futebol de terra batida, as placas enferrujadas, as torres condutoras de fios de alta tensão. Como se soubesse que iria querer guardar aquele momento.

* * *

Eram alguns centímetros que pareciam quilômetros. Ela já havia dito que não; mas, com a cabeça apoiada em meu ombro, tinha os lábios entreabertos.

* * *

O acaso brincando de cineasta. Conforme a escada rolante subia, um céu negro ia lentamente aparecendo; a garoa parecia cair apenas no espaço iluminado pelo poste. Nos fones de ouvido, Paul McCartney cantava: "sleep, pretty darling, do not cry; and I will sing a lullaby".

* * *

Não incomodavam as ladeiras, o rumor, o horizonte; apenas o "adeus" no céu da boca.

* * *

Era exatamente ali que o mar, em seu verde-azulado impossível, se encontrava com as águas barrentas do rio. As ondas de um se chocavam com a correnteza do outro. À mesa, transpirávamos eu e o copo de mojito.

* * *

Qualquer habilidade com as palavras que eu porventura tenha desaparece justamente quando quero estender algumas linhas. Ou minutos.

Terça-feira, Março 10, 2009

[A spot in the shade]

Alguns minutos de silêncio se passam. Ela reclama; diz que ter um zilhão de gigabytes de música no mp3 player só serve pra aumentar a dúvida na hora de escolher o que ouvir. Retruco que é preciso ter sempre à mão o disco certo pra cada estado de espírito. Ela levanta os óculos escuros e se volta pra trás; pergunta qual é o meu no momento. Escolho, enfim, A Fine Frenzy. "Come on, come out, the weather is warm", canta a voz que sai das caixas de som. Ela sorri diante dos versos, aparentemente satisfeita com a resposta. Baixa os óculos e volta a se deitar no chão de cimento da garagem, fervendo com o sol. Prefiro sentar nos ladrilhos gelados da varanda. Semicerro os olhos, incomodado com tanta claridade. Quando a vista se acostuma, olho pr'aquele corpo que durante tanto tempo observei à distância. No fim das contas, estou só alguns passos mais perto. Enquanto ela balança preguiçosamente as pernas no ritmo e cantarola o refrão, eu penso que escolher a música é muito mais do que uma mera questão de estado de espírito ou trilha sonora adequada; é decidir como você irá se lembrar daquele momento. E me pergunto por que, ao invés de Van Morrison ou Mark Lanegan, optei por uma canção pop efêmera.
Um vento fresco sopra. Olho pro céu e digo que é melhor recolher as coisas pois parece que vai chover logo mais. Sem esboçar intenção de sair dali, ela diz que deve ser só uma chuva de verão. "É", respondo.

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

[How the hell did I get here so soon?]



How do you move in a world of fog
that's always changing things?
It makes me wish that I could be a dog...

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

[You make my heart skip a beat]

Descubro que as coisas que ficam são justamente aquelas em que parece faltar um pedaço. Isso vale pra tudo: estórias, dias, paixões.
Começa quando ela me pergunta se eu conheço o Langhorne Slim. Ou antes, quando trocamos sorrisos. Baixo o olhar, como sempre. Vai ver, é por isso que ela faz questão de adiantar que está saindo com algum carinha. E que tudo entre nós vai ser meio platônico. "Como se a gente estivesse num hotel em Tóquio", ela pisca.
Conversamos assuntos verdadeiramente profundos, de importância capital.
— Certeza que tem um pedaço das minhas costas que nunca tá limpo. Eu não consigo alcançar tudo.
— Você pode arrumar uma bucha comprida. Daí você segura ela na vertical, pelas pontas, e esfrega as costas todas, que nem com a toalha.
— Boa! Ou então posso arrumar alguém que faça isso pra mim.
— Um-hum.
Discutimos a respeito de quem é melhor: Wilco ou Son Volt. Concordamos que não é o Uncle Tupelo. Falamos sobre cerveja de menino, Stephen King, o hambúrguer do Seu Oswaldo, mousses impossíveis e o último filme que nos fez chorar. Ficamos alguns instantes em silêncio, cada um segurando seu copo, como só as pessoas íntimas fazem. Disfarçamos o riso quando o sujeito de regata se empolga com a música do C+C Music Factory.
A festa acaba, mas ainda não queremos ir embora. Vamos até um supermercado 24 horas, em busca de uma garrafa de vinho tinto. Disputamos a conta no caixa (eu ganho). Decidimos seguir caminhando até a bebida acabar, até chegarmos a outro mercado ou até acharmos um boteco aberto -- o que vier primeiro. Somos surpreendidos por uma chuva que desaba sem aviso. Corremos até a pequena área coberta na frente de uma loja. Ela bate na testa e se pergunta como vamos abrir a garrafa. Franze o cenho quando tiro um saca-rolhas da mochila. Faço cara de "nem me pergunte".
Ela quer saber se saca-rolhas ainda tem hífen. Diz que acha "joia" e "voo" um horror, mas que até que gosta de "tranquilo". Conto das minhas pretensões literárias e ela se mostra interessada.
— Ah, coloca algum diálogo nosso numa das suas estórias!
— Coloco sim. Aquele da bucha.
— Putz, o da bucha?!
Balanço a cabeça com firmeza, como quem diz um "sim" irredutível, e ela me dá um murro de leve no ombro. Rimos e nos encolhemos ainda mais por causa da chuva que aperta. Ela segura no meu braço. Baixo o olhar. Observo seus pés molhados, as unhas pintadas de vermelho contrastando com a pele branquinha. Quando olho seu rosto, vejo que ela me sorri. Guardo duas informações só pra mim. Uma delas é que tenho um guarda-chuva na mochila.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

[Zihuatanejo]

Até as pessoas parecem diferentes.
Aos poucos, a cidade vai se afastando.
Em seu lugar, ficam as fábricas abandonadas e os longos quarteirões.
Fecho os olhos e o zunzunzum soa como uma língua estrangeira.
Conforme o trem avança, o vagão vai esvaziando.
Desço na plataforma com um inexplicável aperto no peito.
Observo as ruas em que nunca estive antes.
Páro no primeiro bar que encontro.
Sento numa daquelas cadeiras de metal diante de uma mesa com propaganda de cerveja.
Peço uma garrafa e um copo.
Penso em sacar o livro da mochila.
Mas minha cabeça já está cheia de estórias.
Coloco os fones de ouvido.
Escolho o disco do Jason Anderson.
E finjo que estou esperando você.