If you follow every dream you might get lost.
Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012
Sábado, Janeiro 28, 2012
[Tar on my feet]
Teve a vez em que a garota salvou a minha vida.
Hospitais são pavorosos. Geralmente, as pessoas pensam isso a respeito dos cemitérios, sem se dar conta do quanto, na verdade, eles são reconfortantes -- nós atravessamos seus portões cheios de luto e pesar, e, quando os cruzamos de volta, estamos um pouco mais preparados para aceitar. Já os hospitais são traiçoeiros -- eles nos seduzem com suas promessas de adiamento do fim e, no entanto, muitas vezes o que encontramos por lá é só angústia e desengano. É dos hospitais que geralmente partem as notícias ruins.
Pensava nisso enquanto caminhava, tarde da noite, pelo estacionamento quase vazio. Dei uma olhada para trás e, embora dali fosse possível ver as luzes fluorescentes do saguão, senti a atmosfera pesada, como se uma nuvem ainda mais escura que o céu pairasse sobre o prédio branco. Enfiei a mão num dos bolsos. Dificilmente encontraria ocasião mais apropriada para fumar o primeiro cigarro após dois anos de abstinência. Abri o maço como se nunca tivesse abandonado o hábito, acendi um e traguei demoradamente.
Sentia-me esgotado por causa dos últimos dias: as longas horas sentado no corredor, os boletins médicos sem qualquer alteração no quadro e os olhares de reprovação quando sugeri que talvez fosse melhor desligar os aparelhos. Por que um gesto tão simples quanto puxar um plugue da tomada causava tanta comoção? Espiei furtivamente para os lados para me certificar de que ninguém se aproximava e subi na mureta. O estacionamento tinha mais dois pisos subterrâneos, o que significava que a altura dali até o asfalto lá embaixo devia ser de uns oito metros. Talvez fosse suficiente apenas para machucar um bocado. Fechei os olhos, imaginando quantos segundos seriam necessários para tirar a prova.
— Bi-bi.
Com o susto, larguei o cigarro. Abri os olhos a tempo de ver a brasa vermelha bruxuelante caindo. Voltei-me para o lado e ela estava ali, sobre a mureta. Aparentava ter não mais do que dez anos. Não era bonita -- pelo contrário, era um tanto esquisita. Mas tinha algo de estranhamente cativante e familiar -- parecia, talvez, com a menininha daquele filme sueco. Fez um gesto com as duas mãos, tocando uma buzina imaginária, e disse "bi-bi" novamente, sem graça, feito uma criança que se acha crescida demais para certas brincadeiras. Eu sorri.
— É proibido buzinar perto de hospitais. Além disso, você pode cair.
Ela deu de ombros.
— Cadê seus pais? Será que eles não tão te procurando?
Revirou os olhos, entediada, como se escutasse aquelas perguntas o tempo todo.
— Tudo bem. Se quiser mesmo passar, tem que resolver o enigma.
Continuou séria, mas agora com um brilho fugidio de interesse nos olhos. Caprichei no tom solene.
— É seu, mas todo mundo usa mais do que você. O que é?
Ela ficou olhando para o nada, com ar pensativo, enquanto eu acendia outro cigarro e dava algumas tragadas. Suspirei com melancolia ao lembrar de quem tinha me ensinado aquela charada.
— Quem?
Olhei-a surpreso, imaginando se tinha lido meus pensamentos. Mas ela fez um gesto com a cabeça, indicando o prédio.
— Ah! É o meu velho que tá lá. Ele... Não sei se... Disseram que as chances são mínimas.
Ao contrário do que eu esperava, ela não me disse nenhuma palavra de consolo. Ficamos calados, eu pensando que a única coisa que me assustava de fato na morte era aquela história de que a sua vida toda passa diante dos seus olhos. Odiaria ser lembrado do meu fracasso até nos momentos finais. Ela quebrou o silêncio.
— Meu nome.
Parecia satisfeita por ter solucionado o enigma. Fiz uma mesura, desci, virei-lhe as costas e me apoiei na mureta. Apesar de agora poder passar, ela continuou ali parada. Traguei. Era minha vez de ficar pensativo.
— Se ninguém diz o seu nome, talvez você não exista, certo?
Podia sentir os olhos dela fixos em mim.
— Não importa, no fim das contas tudo é em vão mesmo. A vida é... insípida. Nós somos insípidos, nosso corpo é quase todo feito de um líquido insípido. Que se dane tudo.
Voltei-me para trás e vi sua expressão interrogativa. Esclareci.
— Água. Nosso corpo é quase todo feito de água.
Pela primeira vez, ela abriu um sorriso e disse uma frase inteira.
— Ah, bom, eu já ia te corrigir.
Sorri de volta. Dei outra tragada e fiquei observando a fumaça. De repente, pensei: o que, exatamente, ela ia corrigir?
— Te procurei por toda parte. Já tava ficando preocupada.
Dessa vez, não tive tempo de jogar fora o cigarro. A garota estava ali, com a expressão severa, batendo o pé, um dos braços pousados à frente da cintura, a outra mão brincando com o pingente que pendia da correntinha em volta do pescoço.
— Fumando? E falando sozinho...
Não precisei me virar para trás para constatar que não havia ninguém sobre a mureta. Ri nervosamente e disse que era melhor voltarmos logo para o saguão, meus olhos fixos no crucifixo com o qual ela continuava brincando.
Hospitais são pavorosos. Geralmente, as pessoas pensam isso a respeito dos cemitérios, sem se dar conta do quanto, na verdade, eles são reconfortantes -- nós atravessamos seus portões cheios de luto e pesar, e, quando os cruzamos de volta, estamos um pouco mais preparados para aceitar. Já os hospitais são traiçoeiros -- eles nos seduzem com suas promessas de adiamento do fim e, no entanto, muitas vezes o que encontramos por lá é só angústia e desengano. É dos hospitais que geralmente partem as notícias ruins.
Pensava nisso enquanto caminhava, tarde da noite, pelo estacionamento quase vazio. Dei uma olhada para trás e, embora dali fosse possível ver as luzes fluorescentes do saguão, senti a atmosfera pesada, como se uma nuvem ainda mais escura que o céu pairasse sobre o prédio branco. Enfiei a mão num dos bolsos. Dificilmente encontraria ocasião mais apropriada para fumar o primeiro cigarro após dois anos de abstinência. Abri o maço como se nunca tivesse abandonado o hábito, acendi um e traguei demoradamente.
Sentia-me esgotado por causa dos últimos dias: as longas horas sentado no corredor, os boletins médicos sem qualquer alteração no quadro e os olhares de reprovação quando sugeri que talvez fosse melhor desligar os aparelhos. Por que um gesto tão simples quanto puxar um plugue da tomada causava tanta comoção? Espiei furtivamente para os lados para me certificar de que ninguém se aproximava e subi na mureta. O estacionamento tinha mais dois pisos subterrâneos, o que significava que a altura dali até o asfalto lá embaixo devia ser de uns oito metros. Talvez fosse suficiente apenas para machucar um bocado. Fechei os olhos, imaginando quantos segundos seriam necessários para tirar a prova.
— Bi-bi.
Com o susto, larguei o cigarro. Abri os olhos a tempo de ver a brasa vermelha bruxuelante caindo. Voltei-me para o lado e ela estava ali, sobre a mureta. Aparentava ter não mais do que dez anos. Não era bonita -- pelo contrário, era um tanto esquisita. Mas tinha algo de estranhamente cativante e familiar -- parecia, talvez, com a menininha daquele filme sueco. Fez um gesto com as duas mãos, tocando uma buzina imaginária, e disse "bi-bi" novamente, sem graça, feito uma criança que se acha crescida demais para certas brincadeiras. Eu sorri.
— É proibido buzinar perto de hospitais. Além disso, você pode cair.
Ela deu de ombros.
— Cadê seus pais? Será que eles não tão te procurando?
Revirou os olhos, entediada, como se escutasse aquelas perguntas o tempo todo.
— Tudo bem. Se quiser mesmo passar, tem que resolver o enigma.
Continuou séria, mas agora com um brilho fugidio de interesse nos olhos. Caprichei no tom solene.
— É seu, mas todo mundo usa mais do que você. O que é?
Ela ficou olhando para o nada, com ar pensativo, enquanto eu acendia outro cigarro e dava algumas tragadas. Suspirei com melancolia ao lembrar de quem tinha me ensinado aquela charada.
— Quem?
Olhei-a surpreso, imaginando se tinha lido meus pensamentos. Mas ela fez um gesto com a cabeça, indicando o prédio.
— Ah! É o meu velho que tá lá. Ele... Não sei se... Disseram que as chances são mínimas.
Ao contrário do que eu esperava, ela não me disse nenhuma palavra de consolo. Ficamos calados, eu pensando que a única coisa que me assustava de fato na morte era aquela história de que a sua vida toda passa diante dos seus olhos. Odiaria ser lembrado do meu fracasso até nos momentos finais. Ela quebrou o silêncio.
— Meu nome.
Parecia satisfeita por ter solucionado o enigma. Fiz uma mesura, desci, virei-lhe as costas e me apoiei na mureta. Apesar de agora poder passar, ela continuou ali parada. Traguei. Era minha vez de ficar pensativo.
— Se ninguém diz o seu nome, talvez você não exista, certo?
Podia sentir os olhos dela fixos em mim.
— Não importa, no fim das contas tudo é em vão mesmo. A vida é... insípida. Nós somos insípidos, nosso corpo é quase todo feito de um líquido insípido. Que se dane tudo.
Voltei-me para trás e vi sua expressão interrogativa. Esclareci.
— Água. Nosso corpo é quase todo feito de água.
Pela primeira vez, ela abriu um sorriso e disse uma frase inteira.
— Ah, bom, eu já ia te corrigir.
Sorri de volta. Dei outra tragada e fiquei observando a fumaça. De repente, pensei: o que, exatamente, ela ia corrigir?
— Te procurei por toda parte. Já tava ficando preocupada.
Dessa vez, não tive tempo de jogar fora o cigarro. A garota estava ali, com a expressão severa, batendo o pé, um dos braços pousados à frente da cintura, a outra mão brincando com o pingente que pendia da correntinha em volta do pescoço.
— Fumando? E falando sozinho...
Não precisei me virar para trás para constatar que não havia ninguém sobre a mureta. Ri nervosamente e disse que era melhor voltarmos logo para o saguão, meus olhos fixos no crucifixo com o qual ela continuava brincando.
Terça-feira, Janeiro 03, 2012
[For the sake of auld lang syne]
— Já sei: vamos pular na piscina.
Olhei para fora e torci o nariz.
— Hum. Tá chovendo.
Ela riu.
— Ótimo. Assim a gente tem certeza de que vai se molhar.
Balancei a cabeça.
— Eu passo. Seria redundante. Que nem bolo de chocolate recheado de chocolate.
Ela arregalou os olhos, incrédula.
— E o que é que tem de errado com... Putz, cê não manja nada.
Ainda faltavam dez minutos para a meia-noite, mas os fogos de artifício já pipocavam. Ela sorriu.
— Adoro fogos. De todas as invenções antigas, essa é uma das minhas preferidas. Tudo bem, eu sei que as outras foram muito mais importantes pra humanidade -- o arado, a manivela, a bússola, sei lá. Mas eu gosto de pensar que, ao mesmo tempo em que tinha gente trabalhando pra encontrar soluções pra questões práticas, também tinha alguém preocupado em criar uma coisa cujo único propósito é encher os olhos dos outros. Toda vez que um desses estoura é, tipo, um presente sendo aberto.
Suspirei.
— Pena que tem uns apressadinhos que não aguentam esperar só mais uns minutos pra abrir na hora certa.
Ela fez um barulho como se tivesse engasgado.
— Deus do céu, como você é implicante.
Cinco minutos e a quantidade de apressadinhos aumentava. Enchi o seu copo.
— Sabe o que é o calendário cósmico?
Ela franziu a testa e fez que não.
— É um conceito que os cientistas criaram pra que a gente pudesse ter uma noção melhor da idade do universo. Nesse calendário, o Big Bang acontece no primeiro segundo do dia 1º de janeiro. O planeta Terra só aparece na metade de setembro. Os primeiros organismos multicelulares, no começo de dezembro. A história da humanidade, com a invenção do arado e todo o resto, ocupa só os últimos segundos do dia 31 de dezembro.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Uau, isso é... uma lição e tanto, hein?
Assenti.
— É. Serve pra gente lembrar da nossa insignificância diante do uni...
Ela revirou os olhos.
— Putz, cê não manja nada mesmo, né? A lição é: cada segundo importa.
Largou o copo e correu para fora, berrando feito criança debaixo da chuva, até cair na piscina. Sorri. Como sempre, ela estava certa. Olhei o relógio: um minuto. Tempo de sobra para reescrever toda a história.
Olhei para fora e torci o nariz.
— Hum. Tá chovendo.
Ela riu.
— Ótimo. Assim a gente tem certeza de que vai se molhar.
Balancei a cabeça.
— Eu passo. Seria redundante. Que nem bolo de chocolate recheado de chocolate.
Ela arregalou os olhos, incrédula.
— E o que é que tem de errado com... Putz, cê não manja nada.
Ainda faltavam dez minutos para a meia-noite, mas os fogos de artifício já pipocavam. Ela sorriu.
— Adoro fogos. De todas as invenções antigas, essa é uma das minhas preferidas. Tudo bem, eu sei que as outras foram muito mais importantes pra humanidade -- o arado, a manivela, a bússola, sei lá. Mas eu gosto de pensar que, ao mesmo tempo em que tinha gente trabalhando pra encontrar soluções pra questões práticas, também tinha alguém preocupado em criar uma coisa cujo único propósito é encher os olhos dos outros. Toda vez que um desses estoura é, tipo, um presente sendo aberto.
Suspirei.
— Pena que tem uns apressadinhos que não aguentam esperar só mais uns minutos pra abrir na hora certa.
Ela fez um barulho como se tivesse engasgado.
— Deus do céu, como você é implicante.
Cinco minutos e a quantidade de apressadinhos aumentava. Enchi o seu copo.
— Sabe o que é o calendário cósmico?
Ela franziu a testa e fez que não.
— É um conceito que os cientistas criaram pra que a gente pudesse ter uma noção melhor da idade do universo. Nesse calendário, o Big Bang acontece no primeiro segundo do dia 1º de janeiro. O planeta Terra só aparece na metade de setembro. Os primeiros organismos multicelulares, no começo de dezembro. A história da humanidade, com a invenção do arado e todo o resto, ocupa só os últimos segundos do dia 31 de dezembro.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Uau, isso é... uma lição e tanto, hein?
Assenti.
— É. Serve pra gente lembrar da nossa insignificância diante do uni...
Ela revirou os olhos.
— Putz, cê não manja nada mesmo, né? A lição é: cada segundo importa.
Largou o copo e correu para fora, berrando feito criança debaixo da chuva, até cair na piscina. Sorri. Como sempre, ela estava certa. Olhei o relógio: um minuto. Tempo de sobra para reescrever toda a história.
Segunda-feira, Outubro 10, 2011
[The stillness still that doesn't end]
"Você nunca desenha o meu rosto", ela bufa e atira de volta a folha de papel, que dá uma pirueta no ar antes de pousar diante de mim, assim como sua frase. Aquele tom de voz -- o mesmo que ela usaria para dizer que eu sempre deixo cair molho de tomate na toalha branca ou que esqueço a janela aberta toda vez que saímos -- não basta para disfarçar a pontinha de mágoa, o orgulho ferido.
Sorrio, indulgente, e apanho o papel. Ela tem razão, mas não deixa de ser uma injustiça com a pequena obra. A prática me tornou especialista em retratá-la de costas: as linhas delgadas e elegantes do pescoço, a Kaffeklubben (apelido da pinta solitária na nuca), a penugem clara que sobra quando ela prende o cabelo em um coque. Saco o lápis 2B e começo a rabiscar novamente, mais fácil do que tentar explicar o que eu quero capturar: o ar que me falta durante o breve instante que ela demora para se virar quando digo seu nome. De frente, seu rosto seria perfeito, se não existisse mais nada no mundo. Mas a sensação de completude vem sempre acompanhada da tristeza de saber que aquele é o meu ápice. Depois daquilo, tudo será fracasso, mediocridade.
Estendo-lhe a folha. Ela a toma, empenhando-se em não parecer muito satisfeita, mas o sorriso mal-camuflado logo dá lugar ao cenho franzido. "Ei, eu pensei que você ia... O que é isso?", ela pergunta, olhando para o desenho do jardim da casa onde eu cresci.
Quinta-feira, Agosto 18, 2011
[I'm curious to know exactly how you are]
— Cê não acha que é meio cedo pra começar a beber?
— Cedo? Eu devia ter começado antes. O álcool teria me ajudado a enfrentar a pré-adolescência.
— Dã, pateta. Garçom, vê mais um copo, faz favor?
— Saúde.
— Saúde. Pô, não sei por que deixam a tevê ligada na Ana Maria Braga. O que é que eles pensam? Que vão atrair alguma dona de casa solitária pro boteco?
— Vai ver, eles acham que ela é uma coroa enxuta.
— Sei. Ana Maria Boga.
— Hahaha. Putz, sabe o que eu odeio? Esses comerciais em que as pessoas ficam andando e falando.
— Achei que você odiasse comercial de carro.
— Não tem nada a ver com ódio. Comerciais de carro são moralmente condenáveis, isso é fato. E não adianta me olhar com essa cara, foi você quem puxou o assunto.
— Ok, ok. O que é que tem de errado com os comerciais de andarilho?
— Esses de rádio, por exemplo. Eles colocam uma celebridade meio descolada andando numa paisagem erma e disparando um discurso do tipo “eu-faço-e-aconteço”, só pra tentar vender a ideia de que é um produto pra pessoas super dinâmicas que precisam ser encontradas imediatamente onde quer que elas estejam.
— E...?
— E daí que, na prática, quem acaba usando mesmo essa porra é um idiota qualquer que só quer combinar o programa do final de semana ou sacanear o amigo porque o time dele perdeu. É a mesma conversa fiada que ele teria num celular; a diferença é que, com o rádio, quem tá por perto também é obrigado a escutar as merdas que o idiota do outro lado da linha tem a dizer.
— Mais uma vez, por pouco o seu excesso de rabugice não estraga um argumento válido.
— Eu sei que você concorda, só não quer dar o braço a torcer.
— Um-hum. Outro dia eu vi uma andarilha num comercial de remédio pra gripe.
— Ah, eu já vi esse. Porra, quando eu tô gripado eu quero ficar na cama, não sair passeando por aí.
— Pois é. Deviam fazer um de laxante. Começa igual aos outros, com o sujeito andando e falando alguma coisa do tipo "eu não posso me dar ao luxo de viver à mercê do meu intestino" e blá blá blá. Daí, ele vai apertando o passo e ficando com a voz embargada. No final, ele já tá gemendo e trançando as pernas na porta de casa. Fecha com o slogan: "com Kaget, você caga e anda pra prisão de ventre".
— Hahaha, isso sim é um comercial que eu ia gostar de ver.
— Cê acha que eu podia ser publicitária?
— Hum, não. Cê provavelmente ia acabar passando fome. Mas podia ser roteirista de cinema e trabalhar com algum diretor surtado.
— Pô, sabe o que eu odeio? Figurinista de cinema.
— Sério? Mas qualquer um, até de filme bom?
— Especialmente de filme bom. Eles são meio que nem publicitário, eles criam na gente umas necessidades que a gente nem sabia que tinha. Tipo, desde que eu vi o Adventureland, eu passei a querer desperadamente uma camiseta do Hüsker Dü que nem a da Kristen Stewart. Não encontro em lugar nenhum. Podiam ter feito a mina usar uma camiseta de uma banda mais fácil de achar. Mas não... É frustrante.
— Mas acho que a ideia é essa, não?
— Vai ver que é.
— Além do mais, um filme é bom justamente por ser frustrante. Por mostrar coisas que a gente, teoricamente, podia ter, mas não consegue achar. Pessoas, situações... E, principalmente, diálogos.
— Cê não acha os nossos diálogos dignos de filme?
— Claro que eu acho. Mas o que falta na vida real é edição. Os nossos momentos brilhantes acabam se perdendo no meio da mediocridade do dia a dia.
— E como seria uma boa edição pra essa nossa conversa?
— Eu cortaria daqui direto pra sua casa, com a gente se pegando.
— Hum, a gente podia mesmo voltar pra casa...
— Garçom, a conta!
— Mas eu já te adianto que não vai rolar nada.
— Tudo bem, então a cena termina comigo pedindo a conta.
— Dã, pateta.
— Cedo? Eu devia ter começado antes. O álcool teria me ajudado a enfrentar a pré-adolescência.
— Dã, pateta. Garçom, vê mais um copo, faz favor?
— Saúde.
— Saúde. Pô, não sei por que deixam a tevê ligada na Ana Maria Braga. O que é que eles pensam? Que vão atrair alguma dona de casa solitária pro boteco?
— Vai ver, eles acham que ela é uma coroa enxuta.
— Sei. Ana Maria Boga.
— Hahaha. Putz, sabe o que eu odeio? Esses comerciais em que as pessoas ficam andando e falando.
— Achei que você odiasse comercial de carro.
— Não tem nada a ver com ódio. Comerciais de carro são moralmente condenáveis, isso é fato. E não adianta me olhar com essa cara, foi você quem puxou o assunto.
— Ok, ok. O que é que tem de errado com os comerciais de andarilho?
— Esses de rádio, por exemplo. Eles colocam uma celebridade meio descolada andando numa paisagem erma e disparando um discurso do tipo “eu-faço-e-aconteço”, só pra tentar vender a ideia de que é um produto pra pessoas super dinâmicas que precisam ser encontradas imediatamente onde quer que elas estejam.
— E...?
— E daí que, na prática, quem acaba usando mesmo essa porra é um idiota qualquer que só quer combinar o programa do final de semana ou sacanear o amigo porque o time dele perdeu. É a mesma conversa fiada que ele teria num celular; a diferença é que, com o rádio, quem tá por perto também é obrigado a escutar as merdas que o idiota do outro lado da linha tem a dizer.
— Mais uma vez, por pouco o seu excesso de rabugice não estraga um argumento válido.
— Eu sei que você concorda, só não quer dar o braço a torcer.
— Um-hum. Outro dia eu vi uma andarilha num comercial de remédio pra gripe.
— Ah, eu já vi esse. Porra, quando eu tô gripado eu quero ficar na cama, não sair passeando por aí.
— Pois é. Deviam fazer um de laxante. Começa igual aos outros, com o sujeito andando e falando alguma coisa do tipo "eu não posso me dar ao luxo de viver à mercê do meu intestino" e blá blá blá. Daí, ele vai apertando o passo e ficando com a voz embargada. No final, ele já tá gemendo e trançando as pernas na porta de casa. Fecha com o slogan: "com Kaget, você caga e anda pra prisão de ventre".
— Hahaha, isso sim é um comercial que eu ia gostar de ver.
— Cê acha que eu podia ser publicitária?
— Hum, não. Cê provavelmente ia acabar passando fome. Mas podia ser roteirista de cinema e trabalhar com algum diretor surtado.
— Pô, sabe o que eu odeio? Figurinista de cinema.
— Sério? Mas qualquer um, até de filme bom?
— Especialmente de filme bom. Eles são meio que nem publicitário, eles criam na gente umas necessidades que a gente nem sabia que tinha. Tipo, desde que eu vi o Adventureland, eu passei a querer desperadamente uma camiseta do Hüsker Dü que nem a da Kristen Stewart. Não encontro em lugar nenhum. Podiam ter feito a mina usar uma camiseta de uma banda mais fácil de achar. Mas não... É frustrante.
— Mas acho que a ideia é essa, não?
— Vai ver que é.
— Além do mais, um filme é bom justamente por ser frustrante. Por mostrar coisas que a gente, teoricamente, podia ter, mas não consegue achar. Pessoas, situações... E, principalmente, diálogos.
— Cê não acha os nossos diálogos dignos de filme?
— Claro que eu acho. Mas o que falta na vida real é edição. Os nossos momentos brilhantes acabam se perdendo no meio da mediocridade do dia a dia.
— E como seria uma boa edição pra essa nossa conversa?
— Eu cortaria daqui direto pra sua casa, com a gente se pegando.
— Hum, a gente podia mesmo voltar pra casa...
— Garçom, a conta!
— Mas eu já te adianto que não vai rolar nada.
— Tudo bem, então a cena termina comigo pedindo a conta.
— Dã, pateta.
Sexta-feira, Junho 10, 2011
[Les histoires et chansons de la perte d'innocence]
Era uma espécie de joguinho nosso, inspirado num quadro do Animal Planet: eu contava três histórias -- sobre mim, minha família, os amigos ou pessoas conhecidas -- e ela tinha de adivinhar qual era a única verdadeira. Algumas, ela refutava imediatamente, como a que explicava a origem da minha cicatriz no queixo. "Ah, tá bom! Então vou perguntar pra sua mãe", ameaçava, sem nunca cumprir. Quase sempre, ela ficava na dúvida e deixava para lançar o palpite final somente à noite, antes de dormir. "É a... de número... dois?".
Se as coisas andavam complicadas no trabalho, ela demorava para perceber quando eu começava a contar uma. "Ei, peraí! Volta, começa de novo". Se tinha terapia no dia, ela analisava as pausas, gestos, escolhas de palavras. "Hã, 'misantropo'? Ninguém fala isso no dia a dia. Cê tá inventando". Se íamos ao cinema, ela atentava para as tramas. "Hum, essa reviravolta no final, tão oportuna... Na vida real não acontece assim. Cê tá inventando".
Muitas vezes, ela ganhava. Quase sempre, eu deixava.
* * *
— Quem?
— Kristen Bell. A Veronica Mars.
— Putz, ela é meio vesguinha. Cê me achou estrábica?
— Não. Te achei linda. E pensei que queria ter uma namorada que nem você.
— Hahaha, tá bom! Cê tá querendo dizer que foi amor à primeira vista?
— Algo do tipo.
— Então foi tudo baseado na aparência? Porque, pelo que eu me lembro, a gente mal trocou meia dúzia de palavras naquele dia.
— Hum, cê sabe como eu sou quando acabo de conhecer uma pessoa.
— Sei sim, ostra. Então...
— Tá bom, a aparência contou bastante. Mas não foi só isso. O fato de você ser benquista por pessoas que são benquistas por mim pesou a favor. E também...
— Também o quê?
— É besteira.
— Ah, pode ir falando.
— A discussão sobre o Monty Python. Eu pensei: "Uau, e ela ainda sabe fazer todos os silly walks... É a mulher da minha vida".
— Hahaha, besta!
— Eu avisei.
— Aposto que daí o senhor já saiu inventando historinhas sobre a gente, não foi?
— Ué, e eu não vivo fazendo isso?
* * *
"Será que você não consegue simplesmente dizer uma coisa direto, sem ficar com essas... firulas?". A rispidez da interrupção me pega de surpresa. Pelo menos, é uma mudança em relação ao seu ar distante nas últimas semanas. Diante da minha estupefação, ela tenta amenizar o tom. "Tem horas em que eu preferia que você me contasse como foi o seu dia, por exemplo. Que nem os casais normais fazem, sabe? Tudo com você é tão... difícil. Parece que, pra saber qualquer coisinha a seu respeito, eu preciso sempre passar por um teste, adivinhar uma mímica, sei lá".
O silêncio. "A minha vida tá tão complicada. Eu queria... Eu precisava que pelo menos isso... a gente... fosse mais... simples". O olhar fugindo pela janela. "E, pelo jeito, não tá funcionando direito. Olha só, eu consegui deixar você sem palavras. Justo você". Penso no dia da epifania -- a mancha anelar deixada por uma xícara de café na última página do livro comprado no sebo sugeria, quem sabe, um momento de descuido de alguém ao telefone, às pressas, momentos antes de sair de casa. E revelava que, às vezes, as linhas já escritas não dão conta de tudo; há sempre outra história escondida por aí. "Acho que o que eu tô querendo dizer é que.. talvez... seja melhor a gente... dar um tempo". O abraço desajeitado. A porta.
Lá fora, o sol se põe e a temperatura cai. Aperto o cachecol e coloco os fones de ouvido só por força do hábito -- eles permanecem mudos. Espero o semáforo fechar e atravesso a rua. Quase me sinto grato a ela. Eu sou péssimo em finais.
Se as coisas andavam complicadas no trabalho, ela demorava para perceber quando eu começava a contar uma. "Ei, peraí! Volta, começa de novo". Se tinha terapia no dia, ela analisava as pausas, gestos, escolhas de palavras. "Hã, 'misantropo'? Ninguém fala isso no dia a dia. Cê tá inventando". Se íamos ao cinema, ela atentava para as tramas. "Hum, essa reviravolta no final, tão oportuna... Na vida real não acontece assim. Cê tá inventando".
Muitas vezes, ela ganhava. Quase sempre, eu deixava.
* * *
— Quem?
— Kristen Bell. A Veronica Mars.
— Putz, ela é meio vesguinha. Cê me achou estrábica?
— Não. Te achei linda. E pensei que queria ter uma namorada que nem você.
— Hahaha, tá bom! Cê tá querendo dizer que foi amor à primeira vista?
— Algo do tipo.
— Então foi tudo baseado na aparência? Porque, pelo que eu me lembro, a gente mal trocou meia dúzia de palavras naquele dia.
— Hum, cê sabe como eu sou quando acabo de conhecer uma pessoa.
— Sei sim, ostra. Então...
— Tá bom, a aparência contou bastante. Mas não foi só isso. O fato de você ser benquista por pessoas que são benquistas por mim pesou a favor. E também...
— Também o quê?
— É besteira.
— Ah, pode ir falando.
— A discussão sobre o Monty Python. Eu pensei: "Uau, e ela ainda sabe fazer todos os silly walks... É a mulher da minha vida".
— Hahaha, besta!
— Eu avisei.
— Aposto que daí o senhor já saiu inventando historinhas sobre a gente, não foi?
— Ué, e eu não vivo fazendo isso?
* * *
"Será que você não consegue simplesmente dizer uma coisa direto, sem ficar com essas... firulas?". A rispidez da interrupção me pega de surpresa. Pelo menos, é uma mudança em relação ao seu ar distante nas últimas semanas. Diante da minha estupefação, ela tenta amenizar o tom. "Tem horas em que eu preferia que você me contasse como foi o seu dia, por exemplo. Que nem os casais normais fazem, sabe? Tudo com você é tão... difícil. Parece que, pra saber qualquer coisinha a seu respeito, eu preciso sempre passar por um teste, adivinhar uma mímica, sei lá".
O silêncio. "A minha vida tá tão complicada. Eu queria... Eu precisava que pelo menos isso... a gente... fosse mais... simples". O olhar fugindo pela janela. "E, pelo jeito, não tá funcionando direito. Olha só, eu consegui deixar você sem palavras. Justo você". Penso no dia da epifania -- a mancha anelar deixada por uma xícara de café na última página do livro comprado no sebo sugeria, quem sabe, um momento de descuido de alguém ao telefone, às pressas, momentos antes de sair de casa. E revelava que, às vezes, as linhas já escritas não dão conta de tudo; há sempre outra história escondida por aí. "Acho que o que eu tô querendo dizer é que.. talvez... seja melhor a gente... dar um tempo". O abraço desajeitado. A porta.
Lá fora, o sol se põe e a temperatura cai. Aperto o cachecol e coloco os fones de ouvido só por força do hábito -- eles permanecem mudos. Espero o semáforo fechar e atravesso a rua. Quase me sinto grato a ela. Eu sou péssimo em finais.
Quarta-feira, Abril 06, 2011
Segunda-feira, Março 14, 2011
[This won't die]
É estranho: não é no primeiro nem no último dia em que mais penso, mas naquele em que ela resolveu me lembrar que nós não tínhamos futuro. "Melhor a gente não ficar junto hoje, vai facilitar as coisas quando for hora de cada um ir pro seu lado", ela disse. "Tudo bem", eu menti. Fui para o quarto carregando a cerveja e me instalei na cama. Apanhei o livro na mala para me ajudar a ignorar a cantoria, o vozerio e as ocasionais gargalhadas que vinham da cozinha.
Dali meia hora, a cabeça dela apareceu na porta, seguida pelo resto do corpo, trazendo duas latinhas. Estendeu-me uma sem perguntar se eu queria. "Como é que cê consegue se concentrar com toda essa algazarra?", foi o jeito dela puxar assunto. "Eu sou meio autista, cê sabe". Ela se sentou um pouco sem graça na beira da cama. "Sobre o quê que é?", ela perguntou. Respondi que era sobre um revisor que estava trabalhando em um livro sobre o cerco dos portugueses à Lisboa ocupada pelos mouros e que, a certa altura, decidia substituir uma palavra-chave: um "sim" por um "não"; a partir dali, a narrativa se dividia entre o revisor tendo que encarar as consequências da sua molecagem e a nova história do cerco.
Ela não disse nada. Eu fingi que continuava entretido com a leitura, mas fiquei espiando-a com o rabo do olho até ela quebrar o silêncio. "Um 'não' não é tão ruim assim. Às vezes é necessário". Suspirei. "É só um livro. Podia ser sobre a troca do 'azul' pelo 'verde' ou do 'pra cima' pelo 'pra baixo', não importa". Ela se deitou de frente para mim numa evidente manobra para tirar o Saramago que estava entre nós. Deu certo: pousei o livro sobre o lençol. "Tô tentando fazer o certo", ela começou. "Cê sabe, amanhã, quando a gente for embora, tudo vai ter que voltar a ser como antes. Só que... Eu não consigo parar de pensar que, se a gente tem tão pouco tempo, a gente devia aproveitar. Mas isso é um pensamento meio egoísta, né?". Beijei-a demoradamente. Ela sorriu e disse que gostava quando eu terminava o beijo com uma mordida de leve no lábio.
Outra cabeça apareceu na porta, dessa vez, de uma das amigas dela. "A gente tá indo lá pra praia, pro calçadão. Cês vão?". Ela respondeu por nós dois, sem perguntar se eu queria. "Vão indo, a gente vai mais tarde". A amiga não conseguiu disfarçar o olhar malicioso. "Tá, mas então vem trancar a porta. Quando cês forem, cês levam a chave". Ela foi. Na volta, apareceu com uma garrafa de vinho e cara de quem precisava de uma desculpa para fazer bobagem. Sorri e pensei que nós íamos chegar no calçadão bem mais tarde. Tudo bem.
Dali meia hora, a cabeça dela apareceu na porta, seguida pelo resto do corpo, trazendo duas latinhas. Estendeu-me uma sem perguntar se eu queria. "Como é que cê consegue se concentrar com toda essa algazarra?", foi o jeito dela puxar assunto. "Eu sou meio autista, cê sabe". Ela se sentou um pouco sem graça na beira da cama. "Sobre o quê que é?", ela perguntou. Respondi que era sobre um revisor que estava trabalhando em um livro sobre o cerco dos portugueses à Lisboa ocupada pelos mouros e que, a certa altura, decidia substituir uma palavra-chave: um "sim" por um "não"; a partir dali, a narrativa se dividia entre o revisor tendo que encarar as consequências da sua molecagem e a nova história do cerco.
Ela não disse nada. Eu fingi que continuava entretido com a leitura, mas fiquei espiando-a com o rabo do olho até ela quebrar o silêncio. "Um 'não' não é tão ruim assim. Às vezes é necessário". Suspirei. "É só um livro. Podia ser sobre a troca do 'azul' pelo 'verde' ou do 'pra cima' pelo 'pra baixo', não importa". Ela se deitou de frente para mim numa evidente manobra para tirar o Saramago que estava entre nós. Deu certo: pousei o livro sobre o lençol. "Tô tentando fazer o certo", ela começou. "Cê sabe, amanhã, quando a gente for embora, tudo vai ter que voltar a ser como antes. Só que... Eu não consigo parar de pensar que, se a gente tem tão pouco tempo, a gente devia aproveitar. Mas isso é um pensamento meio egoísta, né?". Beijei-a demoradamente. Ela sorriu e disse que gostava quando eu terminava o beijo com uma mordida de leve no lábio.
Outra cabeça apareceu na porta, dessa vez, de uma das amigas dela. "A gente tá indo lá pra praia, pro calçadão. Cês vão?". Ela respondeu por nós dois, sem perguntar se eu queria. "Vão indo, a gente vai mais tarde". A amiga não conseguiu disfarçar o olhar malicioso. "Tá, mas então vem trancar a porta. Quando cês forem, cês levam a chave". Ela foi. Na volta, apareceu com uma garrafa de vinho e cara de quem precisava de uma desculpa para fazer bobagem. Sorri e pensei que nós íamos chegar no calçadão bem mais tarde. Tudo bem.
Domingo, Fevereiro 20, 2011
Terça-feira, Fevereiro 01, 2011
[40]
Quase um ano depois, ele ainda mantém praticamente tudo encaixotado, como se fosse temporário. No guarda-roupas, uma dúzia de peças e dois pares de calçados; sobre a escrivaninha, o notebook e a pilha de livros. Não fosse isso, talvez ninguém dissesse que há alguém morando naquele apartamento. Essa ideia passa pela primeira vez por sua cabeça enquanto ele observa as caixas cobertas de pó no chão da sala, parado na porta com as chaves numa mão e a sacola plástica na outra. Nada de compras do mês, apenas o necessário para o momento: um pacote de papel higiênico, dois sabonetes e uma garrafa de uísque.
A ex-mulher costumava dizer que era bobagem fazer certas economias. Agora, aos poucos, ele vai se livrando do hábito e saboreia sua vingança infantil toda vez que apanha a opção mais barata na gôndola do supermercado. Coloca um rolo e um sabonete no lavabo, depois faz o mesmo no banheiro do quarto. Guarda o resto do papel no gabinete sob a pia. Depois de tanto tempo sentindo apenas perfumes de verbena, erva doce e mel no banho ou ao lavar as mãos, ele chega a estranhar o aroma neutro. Não o cheiro em si, mas o fato de ser tão familiar. E então se lembra: é cheiro de praia. Ou melhor, de volta da praia, na casa na qual costumava passar o verão com a família. As mulheres voltavam antes e ficavam com o conforto dos banheiros, enquanto os homens tinham de usar a ducha fria instalada nos fundos e um sabonete simplesinho como aquele, que sempre ficava com um monte de areia grudada.
Ele largava a sunga no varal e corria enrolado na toalha até o quarto. Quando terminava de se vestir, ia espiar o que tinha na cozinha. Muitas vezes, encontrava a panela já borbulhando com algo comprado logo cedo dos pescadores na praia: mariscos, camarões, postas de cação. A mesa era sempre uma barulheira só, com os homens ainda um pouco bêbados, as mulheres censurando sua gulodice e as crianças rindo dos palavrões que o avô soltava quando não conseguia abrir um marisco. Depois do almoço, a mãe o obrigava a ficar quieto por pelo menos uma hora para fazer digestão. Então, tinha de disputar a rede, onde podia ficar lendo, ou carregar o rádio de pilha até a garagem e ficar lá deitado no chão, olhando as nuvens e os topos dos morros.
A tarde era seu horário favorito, quando encontrava a molecada da rua. Eram todos de famílias que, como a sua, trocavam a capital pelo litoral durante as férias. Tinham mais ou menos a mesma idade, um ano a mais ou a menos. A garota -- Sofia era o nome dela -- era da ala dos mais novos, mas tinha acabado com qualquer resistência à sua presença ao se mostrar a única com sangue frio suficiente para tirar a aranha que subia pelas costas de um dos meninos. Achava que talvez gostasse dela por causa daquilo. Ou, quem sabe, por outro detalhe ainda mais bobo, como o fato de as pontas de sua longa cabeleira estarem sempre úmidas e grudadas quando ela aparecia. De algum modo, sentia-se íntimo por saber quanto tempo o cabelo dela demorava para secar ou qual sua aparência quando saía do banho. Aquele pensamento lhe dava um frio na barriga.
— Ei, tá sonhando de novo?
Geralmente, era a própria garota quem o tirava dos devaneios, com aquele jeito de sorrir com os olhos. Devolvia-lhe sua melhor cara de idiota. Iam todos até a praia jogar taco, catar conchas, observar os peixes e outros bichos que a maré trazia e as pedras aprisionavam. Às vezes, iam até o rio pescar ou tentar apanhar caranguejos. Depois, quase sempre acabavam se refrescando com a água gelada da bica depois da ponte. As únicas ocasiões de que ele não gostava eram os passeios de bicicleta. Como nunca tinha aprendido a andar, ficava excluído e obrigado a ver, sozinho, o tédio das horas de digestão se prolongar.
Isso até o dia em que Sofia anunciou que iria ensiná-lo. Foram caminhando, empurrando a bicicleta dela até as ruas perfeitamente pavimentadas do condomínio fechado, onde a molecada costumava andar e já se encontrava reunida. Não botava muita fé de que sairia dali pedalando, mas não poderia dizer não para ela. E não queria perder a chance de tê-la bem perto durante a tarde toda. Começou relutante, mal conseguindo se manter sobre o selim. Aos poucos, foi capaz de avançar alguns centímetros. A garota segurava a parte de trás da magrela, dava dicas e o incentivava. Num determinado momento, sentiu-se mais seguro e acelerou -- estava pegando o jeito. Pensou em dizer isso a ela, mas ouviu os brados das outras crianças. E a voz de Sofia, um pouco mais distante do que esperava.
— Olha só pra você: tá andando sozinho!
Virou-se para trás, perdeu o equilíbrio e, durante a fração de segundos que demorou seu voo, antes de fazer pouso forçado no asfalto, lembrou-se do final da história de Orfeu, que tinha lido no livro de mitologia grega. Depois, vieram gritos, correria, joelhos, canelas e cotovelos ralados, quatro pontos no queixo e uma torção no pulso que fez com que o médico engessasse o seu braço. Teria de ficar de molho pelos próximos quinze dias.
Sem os mergulhos no mar, a praia virou uma chateação. A mãe ainda tentava compensá-lo oferecendo mais sorvete do que às outras crianças, mas, na maioria das vezes, acabava voltando para casa mais cedo, junto com as mulheres. As brincadeiras da tarde também haviam acabado para ele -- agora, as únicas aventuras possíveis eram as de Sherlock Holmes, Huck Finn ou dos heróis das revistas em quadrinhos. Não precisava mais disputar a rede e, no entanto, não via grande vantagem nisso.
A única coisa boa era receber visitas de Sofia, que vinha saber como ele estava e contar-lhe como tinha sido seu dia. Ele a tratava com certa frieza, não porque a culpava pelo braço engessado, mas porque sentia ciúme -- ciúme por ela compartilhar com os outros meninos histórias das quais ele não fazia parte. A garota aparecia lá quase todo fim de tarde só para vê-lo e, mesmo assim, não conseguia evitar -- quando se dava conta, estava resmungando alguma resposta seca. Ela parecia não se importar e continuava aparecendo; ele continuava esperando.
Na última semana das férias, Sofia veio bem antes do horário de costume. Cabisbaixa, contou que estava indo embora -- os pais tinham decidido antecipar a volta para evitar o trânsito e aproveitar um pouco a cidade ainda vazia. A garota ficou desapontada diante da sua reação de aparente indiferença, virou-lhe as costas e ficou em silêncio durante o que pareceu uma eternidade. Ele teve vontade de agarrar seu braço, pedir desculpas e dizer que aqueles dias tinham sido os melhores. Quase chegou a tocar nas pontas úmidas e grudadas de seus cabelos, mas não teve tempo. A garota se voltou, repentinamente decidida, tirou algo do bolso do vestido, colocou em suas mãos e saiu em disparada. Era uma carta. Nela, Sofia pedia desculpas por ter “arruinado” as férias dele. E dizia que, se servisse de consolo, meninas costumavam gostar de caras com cicatrizes no rosto -- ela, pelo menos, gostava.
Ele bebe um gole de uísque direto do gargalo. Olha no espelho e toca o queixo, no lugar onde havia levado os pontos. Há apenas um pequeno e quase imperceptível sinal. Volta para a sala, passa a mão em uma das caixas para tirar o pó, e se senta sobre ela, sem saber ao certo se está cheia de pertences ou de lembranças.
A ex-mulher costumava dizer que era bobagem fazer certas economias. Agora, aos poucos, ele vai se livrando do hábito e saboreia sua vingança infantil toda vez que apanha a opção mais barata na gôndola do supermercado. Coloca um rolo e um sabonete no lavabo, depois faz o mesmo no banheiro do quarto. Guarda o resto do papel no gabinete sob a pia. Depois de tanto tempo sentindo apenas perfumes de verbena, erva doce e mel no banho ou ao lavar as mãos, ele chega a estranhar o aroma neutro. Não o cheiro em si, mas o fato de ser tão familiar. E então se lembra: é cheiro de praia. Ou melhor, de volta da praia, na casa na qual costumava passar o verão com a família. As mulheres voltavam antes e ficavam com o conforto dos banheiros, enquanto os homens tinham de usar a ducha fria instalada nos fundos e um sabonete simplesinho como aquele, que sempre ficava com um monte de areia grudada.
Ele largava a sunga no varal e corria enrolado na toalha até o quarto. Quando terminava de se vestir, ia espiar o que tinha na cozinha. Muitas vezes, encontrava a panela já borbulhando com algo comprado logo cedo dos pescadores na praia: mariscos, camarões, postas de cação. A mesa era sempre uma barulheira só, com os homens ainda um pouco bêbados, as mulheres censurando sua gulodice e as crianças rindo dos palavrões que o avô soltava quando não conseguia abrir um marisco. Depois do almoço, a mãe o obrigava a ficar quieto por pelo menos uma hora para fazer digestão. Então, tinha de disputar a rede, onde podia ficar lendo, ou carregar o rádio de pilha até a garagem e ficar lá deitado no chão, olhando as nuvens e os topos dos morros.
A tarde era seu horário favorito, quando encontrava a molecada da rua. Eram todos de famílias que, como a sua, trocavam a capital pelo litoral durante as férias. Tinham mais ou menos a mesma idade, um ano a mais ou a menos. A garota -- Sofia era o nome dela -- era da ala dos mais novos, mas tinha acabado com qualquer resistência à sua presença ao se mostrar a única com sangue frio suficiente para tirar a aranha que subia pelas costas de um dos meninos. Achava que talvez gostasse dela por causa daquilo. Ou, quem sabe, por outro detalhe ainda mais bobo, como o fato de as pontas de sua longa cabeleira estarem sempre úmidas e grudadas quando ela aparecia. De algum modo, sentia-se íntimo por saber quanto tempo o cabelo dela demorava para secar ou qual sua aparência quando saía do banho. Aquele pensamento lhe dava um frio na barriga.
— Ei, tá sonhando de novo?
Geralmente, era a própria garota quem o tirava dos devaneios, com aquele jeito de sorrir com os olhos. Devolvia-lhe sua melhor cara de idiota. Iam todos até a praia jogar taco, catar conchas, observar os peixes e outros bichos que a maré trazia e as pedras aprisionavam. Às vezes, iam até o rio pescar ou tentar apanhar caranguejos. Depois, quase sempre acabavam se refrescando com a água gelada da bica depois da ponte. As únicas ocasiões de que ele não gostava eram os passeios de bicicleta. Como nunca tinha aprendido a andar, ficava excluído e obrigado a ver, sozinho, o tédio das horas de digestão se prolongar.
Isso até o dia em que Sofia anunciou que iria ensiná-lo. Foram caminhando, empurrando a bicicleta dela até as ruas perfeitamente pavimentadas do condomínio fechado, onde a molecada costumava andar e já se encontrava reunida. Não botava muita fé de que sairia dali pedalando, mas não poderia dizer não para ela. E não queria perder a chance de tê-la bem perto durante a tarde toda. Começou relutante, mal conseguindo se manter sobre o selim. Aos poucos, foi capaz de avançar alguns centímetros. A garota segurava a parte de trás da magrela, dava dicas e o incentivava. Num determinado momento, sentiu-se mais seguro e acelerou -- estava pegando o jeito. Pensou em dizer isso a ela, mas ouviu os brados das outras crianças. E a voz de Sofia, um pouco mais distante do que esperava.
— Olha só pra você: tá andando sozinho!
Virou-se para trás, perdeu o equilíbrio e, durante a fração de segundos que demorou seu voo, antes de fazer pouso forçado no asfalto, lembrou-se do final da história de Orfeu, que tinha lido no livro de mitologia grega. Depois, vieram gritos, correria, joelhos, canelas e cotovelos ralados, quatro pontos no queixo e uma torção no pulso que fez com que o médico engessasse o seu braço. Teria de ficar de molho pelos próximos quinze dias.
Sem os mergulhos no mar, a praia virou uma chateação. A mãe ainda tentava compensá-lo oferecendo mais sorvete do que às outras crianças, mas, na maioria das vezes, acabava voltando para casa mais cedo, junto com as mulheres. As brincadeiras da tarde também haviam acabado para ele -- agora, as únicas aventuras possíveis eram as de Sherlock Holmes, Huck Finn ou dos heróis das revistas em quadrinhos. Não precisava mais disputar a rede e, no entanto, não via grande vantagem nisso.
A única coisa boa era receber visitas de Sofia, que vinha saber como ele estava e contar-lhe como tinha sido seu dia. Ele a tratava com certa frieza, não porque a culpava pelo braço engessado, mas porque sentia ciúme -- ciúme por ela compartilhar com os outros meninos histórias das quais ele não fazia parte. A garota aparecia lá quase todo fim de tarde só para vê-lo e, mesmo assim, não conseguia evitar -- quando se dava conta, estava resmungando alguma resposta seca. Ela parecia não se importar e continuava aparecendo; ele continuava esperando.
Na última semana das férias, Sofia veio bem antes do horário de costume. Cabisbaixa, contou que estava indo embora -- os pais tinham decidido antecipar a volta para evitar o trânsito e aproveitar um pouco a cidade ainda vazia. A garota ficou desapontada diante da sua reação de aparente indiferença, virou-lhe as costas e ficou em silêncio durante o que pareceu uma eternidade. Ele teve vontade de agarrar seu braço, pedir desculpas e dizer que aqueles dias tinham sido os melhores. Quase chegou a tocar nas pontas úmidas e grudadas de seus cabelos, mas não teve tempo. A garota se voltou, repentinamente decidida, tirou algo do bolso do vestido, colocou em suas mãos e saiu em disparada. Era uma carta. Nela, Sofia pedia desculpas por ter “arruinado” as férias dele. E dizia que, se servisse de consolo, meninas costumavam gostar de caras com cicatrizes no rosto -- ela, pelo menos, gostava.
Ele bebe um gole de uísque direto do gargalo. Olha no espelho e toca o queixo, no lugar onde havia levado os pontos. Há apenas um pequeno e quase imperceptível sinal. Volta para a sala, passa a mão em uma das caixas para tirar o pó, e se senta sobre ela, sem saber ao certo se está cheia de pertences ou de lembranças.
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