Domingo, Janeiro 24, 2010

[Tonight I say goodbye to everything that thrills me]

Com as cortinas fechadas
tento adivinhar como está o dia lá fora.
Anseio por coisas que não conheço.
Sinto falta do que nunca foi meu.
Lastima-me saber que o que me faz continuar
é justamente
o que continua me matando aos poucos:
acreditar nas tolices
que só eu vejo.
— Melhor seria derrubar as paredes.

Sexta-feira, Janeiro 15, 2010

[Bubble]

Distraída, alisa com o dedo a ponta do nariz enquanto observa que tem as feições do pai. Tenta imprimir um tom jocoso ao dizer que espera não ficar com o corpo da mãe. Conclui, com resignação, que é isso o que acabará acontecendo se continuar comendo feito criança e bebendo feito homenzinho. Concorda que existe algo de inexplicavelmente romântico no último trem da noite. Ri quando exponho o que é que o amor tem a ver com janelas, cheiro de chuva e longas caminhadas. Decreta que eu sou um fetichista de ideias. Talvez não faça ideia de que ela própria é um apanhado de pedaços de histórias.

* * *

"I embrace the moment
I'm in love with a dream
and toy with ideas
that burn deep inside me"
(Mark Kozelek)

Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

[2009]

Os achados do ano que passou.

5. Girls just wanna have fun


4. Indie rock para crianças


3. O que uma canção de amor precisa


2. Mais uma razão pra querer um banjo


1. It should have gone viral


Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

[I know it's built to rust]

Os barcos cercam o horizonte.
As boias cercam a enseada.
As casas cercam a areia.
O velho ressentido cerca o menino suscetível.
Fica o sal.

Domingo, Dezembro 27, 2009

[Me and the devil blues]

"A história só depende de quem a conta", costuma dizer um amigo meu. E tenho que concordar. Outra pessoa poderia descrever o misterioso personagem central do episódio que vou narrar como sendo alguma entidade de origem africana. Ou uma alma penada. Para mim, parecia mais uma encarnação do Robert Johnson -- do lugar em que me esperava (uma encruzilhada) à poeira que maculava seu terno alinhado, tudo remetia a uma estrada perdida no Delta do Mississippi.
Sorriu-me com dentes brancos, reluzentes sob a luz do poste, e ergueu-me o chapéu em saudação. Avançou um passo em minha direção; em resposta, ofereci minha melhor cara de "pois não, o que deseja?". Ele franziu a testa e me disse, numa voz rouca, curtida em tonéis de carvalho:
— Geralmente eu é que faço essa pergunta, rapaz.
Não cheguei a me surpreender com a demonstração de telepatia. Era de se esperar que algo assim acontecesse -- como se toda a literatura fantástica devorada nos anos de formação houvesse me preparado para aquele instante. A seguir, eu sabia, viria uma proposta de pacto com o além. Ele balançou a cabeça:
— Não, não é assim que funciona. Primeiro você me oferece uma bebida.
Mais uma vez, não houve espanto ao perceber que a rua, outrora morta, revelava uma tímida luz vinda de um estabelecimento comercial ainda aberto naquele horário avançado: um bar, é claro. Dirigimo-nos até lá e sentamo-nos em uma das muitas mesas disponíveis. Aliás, não havia cliente algum além de nós e, apesar disso, o garçom não parecia aborrecido. Imaginei que meu convidado gostaria de Tennessee whiskey e pedi duas doses, mas ele corrigiu:
— Melhor trazer a garrafa.
Puxou, em seguida, algo do bolso interno do paletó: um cigarro enrolado à mão, que acendeu com um daqueles fósforos de cartela. Pensei em alertá-lo de que era proibido fumar ali, mas acabei concluindo que minha observação fatalmente seria ignorada. Permanecemos calados e, pela posição em que estava, não conseguia enxergar seus olhos, ocultos pela aba do chapéu e pela fumaça.
O garçom voltou com nosso pedido e serviu uma dose dupla para cada, mesmo não tendo sido instruído para tal. Bebi um gole, enquanto meu conviva sorveu tudo de uma só vez, estalando a língua, satisfeito. Finalmente, voltou-se para mim e passou a me fitar com interesse:
— E então, rapaz, o que vai ser? Dinheiro? Fama? Mulheres? Hum, quem sabe uma mulher, em especial...
Mexi-me na cadeira, desconfortável com a invasão de privacidade mental, e concentrei-me na ideia de que não teria a menor graça acordar num belo dia e simplesmente ter tudo. Ele riu:
— Nada disso. As coisas não caem no seu colo da noite para o dia -- você tem que conquistá-las. Você continua sendo você mesmo, só que... Só que com um empurrãozinho, digamos assim. E, claro, com a certeza de que, eventualmente, vai ter tudo o que deseja.
Antes que eu pudesse abrir a boca, ele acrescentou:
— Já sei, já sei, você vai perguntar por que, então, precisa de mim. Mas sou eu que pergunto: por que você precisa de mim?
Com o ar triunfante de quem pôs fim a uma discussão, ele reabasteceu o copo. Supus que aquela seria a hora em que ele colocaria seu preço: minha alma, provavelmente. Ele explodiu em uma gargalhada zombeteira:
— Alma? E ficar no prejuízo? Você tem muito mais blues do que soul...
Entornei num gole o que restava no meu copo.
— Ah, vamos lá, foi só uma brincadeira. Achei que você gostaria do trocadilho. É o seguinte: você fica com tudo o que quiser -- inclusive com a sua preciosa alma. E eu volto algum dia para cobrar a dívida. Não posso adiantar agora o que vai ser, porque eu só decido na hora. Talvez seja um favor ou algo que eu queira muito. Veremos.
Servi-me outra dose, conjeturando se o outro sujeito teria, por acaso, uma contraproposta. O pensamento exasperou meu convidado:
— Vocês, sempre com esse maniqueísmo imbecil. Isto aqui não é uma disputa entre mocinhos e bandidos. Muito menos um leilão.
Quedamo-nos em silêncio. Procurei avaliar a situação. Nunca fui muito religioso, então isso não chegava a ser um problema. A questão toda era moral. Do outro lado da mesa, meu companheiro de bebida parecia ignorar minha presença. Mas eu sabia que ele acompanhava cada pensamento meu. Já havíamos quase liquidado a garrafa quando ele, enfim, bufou, resignado:
— Você realmente quer envolver o "outro sujeito" no nosso pequeno negócio, não é? Então aqui está.
Retirou algo de um dos bolsos e atirou para mim. Era uma moeda. Não uma moeda qualquer -- era pesada, aparentemente de prata, com um rosto gravado em uma das faces e uma coroa na outra. Uma tradução literal do velho jogo. Antes que eu pudesse formular a pergunta, ele disse, entediado:
— Que pensamento mais limitado. Eu não esperava isso de você. Não, o "outro sujeito" não se manifesta por meio do acaso. Nada de acerto em linhas tortas. O jogo aqui é diferente: a moeda descobre o que você realmente quer e mostra a resposta. As opções? Coroa: você paga a conta. Eu lhe dou uma das coisas que ofereci antes, mas você sempre vai se sentir culpado por ter trapaceado, por não merecer o que ganhou. Cara: eu pago a conta. Você nunca vai conquistar nada do que deseja, mas sempre vai ter a lembrança deste nosso encontro. E vai poder atribuir o seu fracasso a mim. Ou ao "outro sujeito". Como quiser.
Despejei o restante do conteúdo da garrafa no meu copo. Ele soltou uma interjeição de desprezo:
— Se eu quisesse enganá-lo, teria feito isso desde o começo.
Bebi o whiskey, bati o copo na mesa com força desnecessária e, sem pensar muito, atirei a moeda para o alto. Deixei-a cair no dorso da mão esquerda e, imediatamente, cobri-a com a direita. Quando tomei coragem e vi o resultado, não soube dizer se havia ganhado ou perdido. Achei que viria um riso de escárnio, mas meu convidado simplesmente deu de ombros e disse:
— A história só depende de quem a conta.

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

[Ghost of Christmas Present]

O menino ansioso
sacode o pacote perto do ouvido.
Rasga, impaciente, o papel colorido.
E seus olhos brilham antes mesmo de ver
o presente.

O homem cansado
guarda o pacote no fundo do armário.
Rasga o papel que lhe custou alguma coragem.
E seus olhos marejam diante do fato de que, no fim, é tudo
embalagem.

Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

[Roy Orbison is singing for the lonely]

Por entre os dedos
escapa
o instante que confere algum sentido
ao copo meio cheio,
ao céu parcialmente encoberto,
às malas que esperam, prontas, embaixo da escada
mesmo sem ter destino
certo.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

[73]

— Será que nem hoje vocês podem me dar um sorrisinho? Só um?
A mãe segurava a câmera, esperançosa. Mas os três atrás da mesa permaneciam irredutíveis. A menina mais velha bufava, visivelmente contrariada diante do tratamento infantil que a família vinha lhe dispensando e que, segundo julgava, era totalmente inadequado à sua idade (as duas velas sobre o bolo de aniversário, com os algarismos 1 e 4, tinham sido a gota d'água). O namorado dela mantinha o mesmo rosto inexpressivo de sempre. E o avô simplesmente não sorria. Nunca.
— Vamos lá, papai. Sua neta tá virando uma mocinha. Que tal pelo menos parecer feliz na foto?
— Virando mocinha? Minha neta tá namorando uma mocinha, isso sim. Olha só, esse moleque tá usando maquiagem!
O queixo da menina mais velha caiu. Aquilo é que era a gota d'água.
— Vô!
A mãe desistiu da foto e começou a massagear as têmporas.
— Papai, pelo amor de Deus...
— Não acredito!
A menina saiu da sala pisando duro, puxando pela mão o namorado, que continuava sem esboçar reação alguma. A mãe ergueu o dedo.
— Papai, mais tarde a gente vai ter uma conversa séria!
E saiu, atrás da filha.
— Mas é verdade, o moleque tá usando maquiagem...
O avô sentiu alguém lhe puxando a manga da camisa. Era a menina mais nova.
— Vovô, eu vi. Tá mesmo. Mas tem uns meninos que usam lápis no olho. É normal.
Ele roubou dois brigadeiros da mesa. Comeu um e entregou o outro à netinha, colocando o indicador sobre os lábios, como quem pede segredo.
— Normal, normal... Na minha época, se o sujeito deixava o cabelo crescer, já era coisa de fresco. E nem precisava ser muito: podia ser, assim, que nem o do John Lennon no começo.
Observou para ver se a menina entendia a referência. Mas ela aparentemente ignorou o comentário.
— Vovô, você devia vir morar com a gente. Você ia ficar mais feliz?
— Acho que a sua mãe me deixava louco antes. Ou me matava.
O avô fez um esforço para se inclinar e se aproximar da neta.
— Eu vou te contar um segredo. Todo mundo acha que eu sou ranzinza só por causa disso aqui: rugas na testa.
A menina riu em aprovação e ficou brincando de franzir o cenho.
— É isso aí. Sua mãe, por outro lado, não tem rugas e tá sempre enfezada. Ainda bem que eu não vou estar por aqui quando ela chegar na minha idade. Acho que, no caso dela, é mesmo um problema de intestino...
— Hããã?!!
— Você nunca ouviu falar de onde veio a palavra "enfezado"?
— Hummm, não. De onde?
— Sabe o que é etimologia?
— Tima-o-que?
— O que é que te ensinam na escola, hein? Bom, deixa pra lá. O que eu tava dizendo é que todo mundo acha que "enfezado" vem de "fezes". Dizem que, quando o sujeito tava com o intestino preso, ele ficava de mau humor e daí tachavam ele de enfezado.
— Mentiiiraaa!!!
— É mentira mesmo. A etimologia ensina que "enfezado" e "fezes" vêm de termos latins diferentes e, portanto, a origem de uma palavra não tem nada a ver com a da outra. Mas eu acho que faz muito mais sentido essa história que eu te contei. Ou, pelo menos, é muito mais divertido pensar assim. O que você acha?
A menina não teve tempo de responder. A mãe, que tinha acabado de voltar com a mais velha, chamou-a para perto da mesa.
— Vem, vamos tirar uma foto bem bonita de vocês duas.
A mais velha ainda estava com cara de poucos amigos. A mais nova resolveu imitá-la, para desespero da mãe.
— Ah, mas não é possível! O que é isso? A festa da Família Addams?
A pequena se divertiu com a ideia e colocou o cabelo na frente da cara, fingindo ser o Primo It.
— Chega dessa palhaçada, vamos!
— Ih, mamãe, acho que você tá cheia de cocô...
— O queee?!!
O avô virou o rosto de lado e cobriu a boca com a mão. Para tossir, é claro.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

[Half awake]

Garrafas.
Skyline.
Verso sublinhado.
Penumbra.
Nada encobre a canção
que martela os sentidos,
brota dos lábios sem querer
e só se detém nestes pés desajeitados
que não acertam um passo sequer.

Domingo, Novembro 22, 2009

[Days like this]

Os velhos bebem cachaça, falam de viagens e de gente que se foi.
Os mais novos vão com calma com a cerveja, conversam sobre filhos e emprego.
Eu não sei onde me encaixo.
Mas me dou bem com as crianças.